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GEORGES OHNET
A CONQUISTADORA



Captulo primeiro

	No seu gabinete, decorado com belas madeiras e lindas tapearias, 
M. Prvinquires passeava de uma janela para a outra com lentido, 
parecendo regular os seus passos pelo tiquetaque do relgio que 
ocupava um canto da vasta dependncia. Tinha a cabea inclinada para o 
peito e parecia mergulhado em profundas reflexes, sem prestar ateno 
 vista magnfica que se desfrutava da janela do lado direito, voltada 
para o vale do Loire e para as encostas de Tours, nem ao quadro 
animado da sua fbrica em plena laborao, que se podia observar da 
janela do lado esquerdo. Caminhava com passos medidos com uma 
expresso preocupada e poderia ter continuado assim indefinidamente se 
a porta se no tivesse aberto para dar passagem a um homem de trinta 
anos que trazia uma pilha de dossiers nos braos. M Previnquieres 
estacou e olhou com ar preocupado o homem que entrara e sem dizer uma 
palavra aproximou se da grande secretria Lus XIV ornada de bron zes 
dourados e sentou se depois indicou com um gesto aca brunhado uma 
cadeira e decidiu se a falar com voz dolente
	-	 o fecho do balano que me traz ai Valentin?
	-	Sim, senhor; os lucros so de setecentos mil francos...
	M.	Prvinquieres abanou a cabea como se tivesse tido 
conhecimento de uma notcia desastrosa e olhou com ar perturbado 
aquele que acabara de lhe anunciar uma verba to lisonjeira. Tratava-
se de um vigoroso rapaz moreno, de cabelos cortados em escova, de 
rosto inteligente, vestido sem elegncia com roupas de cor escura. O 
rosto era iluminado por uns olhos penetrantes e observadores. Uma 
barba castanha, muito espessa, cobria-lhe as faces. Tinha mos fortes, 
reveladoras de hbitos antigos de trabalho pesado. No entanto, emanava 
da sua pessoa uma distino natural. Embora vestido sem cuidado, mal 
penteado, com a barba em desordem, atraa a ateno e dava a impresso 
de um homem de valor. M. Prvinquires notou tudo isso, o que pareceu 
provocar na sua mente efeitos negativos, pois ele soltou um grande 
suspiro e, apontando para um canto da secretria, disse:
	-	Ponha a esses papis todos. Muito obrigado.
	Houve um silncio. Um mal-estar pesava entre esses dois homens: o 
patro e o empregado. O sol, batendo sobre a secretria, parecia 
brincar risonhamente com as capas dos dossiers trazidos por Valentin. 
Passando atravs de um vitral, coloria-as de amarelo, verde e 
vermelho, depois fez danar, com a sua claridade, poeiras impalpveis, 
que tingia caprichosamente.
	-	 portanto o ltimo balano que fechamos juntos? - disse 
num tom desanimado M. Prvinquires.
	-	De momento - replicou Valentin Raynaud -, sim, senhor; mas 
ao separar-me de si no comprometo o futuro. Se quiser voltar a
abrir-me as portas da sua casa quando eu voltar...
	Ao ouvir estas palavras, M. Prvinquires ergueu-se da sua 
cadeira, bateu com a palma da mo sobre os papis e exclamou com uma 
clera sbita:
	-	Porque parte? Quer dizer-mo por uma vez?
	-	Mas, senhor, no se trata de um mistrio - retorquiu 
Valentin to tranquilamente quanto o patro se mostrava irritado. - J 
o expliquei, creio, com todas as razes que lhe pude dar. H muito que 
desejava viajar. Nunca vi coisa alguma. Toda a minha juventude 
decorreu nesta fbrica,  direco da qual consagrei toda a actividade 
de que era capaz. Hoje, que os assuntos da sua casa avanam sem 
problemas, que encontrei um director capaz de me substituir e que j 
no me sinto, como teve a bondade de me fazer ver, indispensvel, 
retomo a minha liberdade. Parto para a Amrica, onde vou estudar a 
grande indstria.
	-	Ento aqui s fazemos pequena indstria, no? - interrompeu 
com azedume o patro.
	-	No quero dizer isso. Mas  evidente que do outro lado do 
oceano se utilizam meios que ns no conhecemos para dirigir empresas 
colossais...
	-	So ento os trusts que o atraem?
	-	Certamente que no. Creio que esses monoplios so nefastos 
do ponto de vista social e muito perigosos no aspecto econmico. Mas 
existem problemas financeiros e industriais que  preciso conhecer de 
perto para julgar... No  o que dizem os jornais e os livros que nos 
pode informar de uma forma sria. Quero ir a um grande centro operrio 
como Pittsburg, por exemplo, e ver o que se faz ali. No levarei muito 
tempo a aperceber-me da produo dos meios de aco dos nossos 
concorrentes... da tirarei certamente uma lio til... e, quando 
regressar, talvez lhe proponha reformas que alteraro a face da sua 
indstria.
	-	Quando regressar?... Mas regressar? A partir do momento em 
que me deixa, aps uma colaborao de vinte anos, pois h vinte anos 
que entrou na empresa, trazido pela mo do seu pai, quando era ainda 
uma criana, no h razo para que volte!
	Fez-se silncio. Valentin baixara os olhos, talvez por recear que 
o patro visse as lgrimas que lhe inundavam os olhos.
M.	Prvinquires deixou escapar um suspiro e, com voz trmula, 
disse:
	-	Valentin, voc  um ingrato!
	-	Eu! - exclamou o rapaz, com um gesto enrgico de protesto. 
- Oh, senhor, certamente no pensa isso! No!  impossvel que o 
pense!
	-	E que quer que julgue da sua inexplicvel resoluo - 
retorquiu M. Prvinquires com veemncia. - Voc tem sido o filho da 
casa. Quando o seu pai morreu, infelizmente muito cedo, estava prestes 
a tornar-se meu scio, pois era um colaborador cuja dedicao eu sabia 
bem apreciar, e tratei-o a si como se fosse meu filho. Estava ento no 
colgio, fiz com que continuasse os seus estudos e quando saiu da 
Escola Central pu-lo  frente da minha fbrica, dando-lhe parte dos 
lucros. Nessa altura voc no tinha qualquer experincia, mas fi-lo 
pelo seu pai, a quem eu estava reconhecido, e aquilo que teria gostado 
de fazer por ele fazia-o por si. Entre a minha filha e o meu filho, 
cresceu junto de ns, tratado em p de igualdade com eles, como um 
irmo mais novo para essas duas crianas. A sua fortuna, alimentada 
pelo seu trabalho, durante estes dez anos, aumentou na mesma proporo 
que a minha. Trouxe-me o balano deste ano. Ora em setecentos mil 
francos de lucro. Qual  a sua parte?
	-	Cento e cinquenta mil francos.
	-	Quanto possui hoje?
	-	Um milho e duzentos mil francos.
	-	Ganhou-os bem, so legitimamente seus, e eu sinto-me feliz 
por o ver to independente, apesar de aproveitar isso para me deixar.
	Valentin Raynaud estremeceu com a censura, agitou-se na cadeira, 
mexeu os lbios como se fosse falar, mas uma necessidade mais forte do 
que o desejo de se desculpar fechou-lhe a boca. Baixou a cabea e 
ficou sombrio e silencioso diante do patro, que o interrogava com o 
olhar.
	-	E quando tenciona partir? - perguntou M. Prvinquires.
	-	Mas, senhor, no fim da semana.
	-	D-me oito dias, como a um criado...
	-	Oh, senhor...
	Dessa vez Valentin no aguentou mais. A dureza do homem que o 
tinha educado pareceu-lhe demasiado pesada para a suportar e, deixando 
de lutar para permanecer senhor de si, comeou a chorar 
silenciosamente. Era um espectculo comovente ver aquele rapaz robusto 
e viril deixar, como uma criana, as lgrimas correrem-lhe pelas faces 
em fios brilhantes que se perdiam no meio da barba. M. Prvinquires 
ficou comovido, apesar da sua irritao. Aproximou-se de Valentin e, 
num movimento afectuoso, agarrou-lhe a mo:
-	Vamos, fala - disse, tratando-o por tu, como quando ele era 
pequeno. - Diz o que tens no corao. Vais esconder-me a verdade? No 
entanto, eu no sou estpido e -me impossvel compreender as razes 
que me apresentas. Tenho a certeza de que h em tudo isto um segredo 
que te sufoca e que tu queres guardar s para ti... Queres falar ou 
no? Que receias? Achas que no sou homem para te compreender, seja o 
que for que tenhas feito, e para te desculpar, se fizeste algum 
disparate? Vamos, confessa francamente a razo por que queres deixar a 
minha casa e afastares-te de mim...
	Uma onda de sangue invadiu o rosto de Valentin, os seus olhos 
hesitaram e a boca estremeceu. Respirou com esforo, como se o corao 
lhe batesse violentamente no peito e, com voz trmula, murmurou.
-	Pois bem, senhor. Parto porque amo a sua filha e porque a 
distncia que existe entre ns no me permite esperar que a possa 
desposar.
	Ao ouvir estas palavras, M. Prvinquires teve um sobressalto, a 
sua expresso mudou, e ele disse apenas:
	-	Ah! Caramba!
	O patro e o empregado permaneceram em frente um do outro, sem 
acrescentarem uma palavra: Valentin aliviado pela sua confisso e 
dando-se conta dajusteza dos seus receios, pela perturbao que 
causara; M. Prvinquires, muito comovido, procurando medir o alcance 
do incidente, mas sentindo todas as dificuldades da situao em que 
acabara de se meter. Ergueu-se para ganhar um pouco de tempo e 
dissimular a sua incerteza, que poderia tornar-se contundente. 
Recomeou a andar de um lado para o outro entre as duas janelas do 
gabinete, dizendo para consigo: "Logo fui levantar esta lebre. Mas 
quem poderia supor que Valentin se interessava por Rose?" Deu uma 
volta brusca sobre si mesmo e pensou: "Eh! Afinal por que no havia de 
se interessar?"
	No teve tempo de pensar mais nada. A causadora de toda aquela 
perturbao, a prpria menina Prvinquires, acabava de abrir a porta 
e entrar, levando aos dois homens o encanto da sua beleza loura e a 
graa do seu sorriso. Era uma rapariga alta e bonita, de feies 
delicadas, olhos azuis, muito elegante e de aspecto decidido. Avanou 
com passos rpidos para o pai, depois de ter feito a Valentin um 
cumprimento familiar com uma leve inclinao de cabea.
	-	 preciso eu vir buscar-te para te arrancar s delcias do 
teu inventrio? So horas do almoo. O meu padrinho boceja com fome e 
a mam diz que  intolervel para uma cozinheira servir todas as 
refeies meia hora mais tarde... E  voc, Valentin, o culpado de 
todos estes males...
	Valentin Raynaud recuperara toda a sua calma. Teve foras para 
sorrir:
	-	 verdade, menina, que sou eu o causador do atraso de seu 
pai. Eu  que tenho a culpa de ele se ter esquecido das horas... 
Desculpe... j acabei...
	-	E se viesse almoar connosco? - perguntou Rose com a 
autoridade de uma rapariga a quem essas coisas eram permitidas. - O 
baro Duburle no ficaria aborrecido de o ver... Sabe que ele gosta 
muito de si...
	-	Estou muito reconhecido ao seu padrinho, menina, por se 
mostrar to bondoso para comigo... Mas -me impossvel aceitar a sua 
amvel proposta. Tenho em minha casa um conviva  minha espera...
	-	Ah! O seu famoso americano, aquele que vai pregar ao pap a 
partida de o levar daqui para ir conhecer as fbricas do Novo Mundo. 
Pois bem! Traga-o tambm para que ns o vejamos!
	-	Rose! - interrompeu M. Prvinquires, com um tom de 
censura.
	-	No tenho razo, pap? - perguntou a bonita rapariga com um 
ar maroto. -  uma gaffe? Falei depressa de mais, Valentin. O pap, no 
fundo, est furioso com esse ianque. Mas no faz mal, traga-o c outro 
dia... Ele  to rico como se diz?
	-	Sim, menina,  muito rico.
	-	Trinta ou quarenta milhes?
	-	De dlares...
	-	Caramba! - disse pela segunda vez M. Prvinquires.
	-	Ento, Valentin, no deve fazer esperar um homem to rico. 
Adeus, Valentin. Vem, pap.
	Deu o brao ao pai e, sorrindo graciosamente para o empregado, 
arrastou M. Prvinquires para fora do gabinete.
	M.	Prvinquires, construtor de maquinaria agrcola, 
conselheiro-geral e deputado de Beaumont-sur-Loire, conseguira, graas 
 sua actividade e a colaboraes teis, como a de Pierre Raynaud, pai 
de Valentin, uma bela fortuna. Era um homem superficial, 
impressionvel, que adquirira o hbito de ser feliz, e que a menor 
dificuldade mergulhava num marasmo to profundo como curto.
Recompunha-se to rapidamente como se deixava ir abaixo, e, decidido a 
no ter aborrecimentos, afastava os que lhe podiam surgir com uma 
prontido que certas pessoas mais severas qualificavam de egosmo. Era 
preciso que tudo corresse bem, em sua casa,  volta dele, que s visse 
rostos sorridentes e que s encontrasse pessoas satisfeitas. O 
infortnio dos outros parecia-lhe atentatrio  sua tranquilidade e 
ele esforava-se por remediar isso  medida dos seus meios, no tanto 
para aliviar o seu prximo, como para assegurar a si prprio a paz 
indispensvel  sua vida.
	Desposara, quando se encontrava ainda na dependncia paterna, uma 
jovem de boa nobreza, Lucie de Jouveins, que lhe dera dois filhos, um 
rapaz, Maurice, e uma rapariga, Rose. Criara-os sem problemas, pois os 
seus herdeiros tinham tido a sensatez de no terem doenas graves. Aos 
trinta e cinco anos sucedera a seu pai, que lhe deixara uma fortuna j 
importante e a fbrica de Beaumont-sur-Loire. E deixara-lhe sobretudo 
o seu contramestre, Pierre Raynaud, antigo operrio, sem instruo, 
mas dotado de aptides para a mecnica verdadeiramente notveis. Esse 
subalterno de gnio, que modificara as ferramentas e inventara 
mquinas, levara o fabrico da maquinaria Beaumont a uma perfeio 
econmica tal que permiitira aos Prvinquires, pai e filho, lutar com 
vantagem conttra a concorrncia inglesa e americana, chegando ao ponto 
de exportar para os Estados Unidos mquinas que foram imediatamente 
copiadas pelos industriais de alm-mar.
	Esse Raynaud, que vivia no meio dos operrios, morrera demasiado 
cedo para o bem da fbrica, do patro e do seu prprio filho, 
Valentin. A criana, ficando rf, recolhera em larga medida os 
beneficios dos servios prestados por seu pai.
M. Prvinquires dera uma penso  viva do seu contramestre, e quando 
esta morrera, pouco tempo depois do marido, o patro ocupara-se do 
pequeno Valentin com uma verdadeira solicitude. Dedicara-se a esse 
jovem laborioso e sensato. Aos domingos ia busc-lo ao colgio e nas 
frias levava-o para Beaumont. Logo que ele terminou os estudos deu-
lhe um lugar na fbrica. Mas em muito pouco tempo Valentin soube
prestar-lhe tais servios que M. Prvinquires compreendeu que ele 
tinha todas as aptides de um chefe. Julgara ter sido muito liberal, 
assegurando o futuro do filho do contramestre, e reconhecia agora ter 
feito um excelente negcio. Se alguma vez o provrbio "uma boa obra 
nunca se perde" teve uma aparncia de exactido, foi nessas 
circunstncias. Mas M. Prvinquires achou essa sorte extraordinria 
muito natural. Adquirira o hbito de ser feliz e pensava que o xito 
lhe era devido.
	No entanto,  muito raro que a sorte permanea constantemente 
fiel queles que comeou por favorecer, e nada  mais ilusrio do que 
comeos felizes. Durante toda a primeira parte da sua existncia, 
pareceu que M. Prvinquires fizera um pacto com a sorte. E depois, 
bruscamente, a estrada sempre plana por onde ele sempre seguira
tornou-se menos suave, as desigualdades do terreno agitaram o carro do 
seu triunfo, os caminhos fizeram-no inclinar-se. E, com sbita 
inquietao, Prvinquires, que nunca pensara ter dificuldades, foi 
obrigado a reflectir, a combinar, a defender-se. Foi antes de Valentin 
lhe declarar que decidira ausentar-se da fbrica por uns tempos que os 
primeiros sintomas de desvios do destino se manifestaram para 
Prvinquires. Seu filho Maurice, que acabara de completar o servio 
militar e que se preparava, negligentemente, para passar num exame que 
lhe dava acesso ao Conselho de Estado, deu provas de uma leviandade 
excessiva. Seu pai teve de pagar uma quantia considervel para o 
livrar dumajovem a quem ele fizera promessas impensadas, como a de 
casar com ela quando fizesse vinte e cinco anos. Ao mesmo tempo, Rose, 
a filha,  qual ele apresentara diversos partidos extremamente 
interessantes, repelira-os com um sorriso desdenhoso que levava a 
pensar que ela tinha do preo da sua aliana uma ideia de tal modo 
exagerada que seria dificil encontrar um marido que julgasse digno 
dela.
	Ter um filho que fazia disparates com raparigas pouco 
recomendveis e uma filha que recusava conceder a sua mo a pessoas 
srias, eram motivos para lanar a perplexidade num esprito que 
estava habituado a ver tudo correr bem  sua volta. Alm disso, 
Prvinquires veio a saber que o seu director, a pea principal da 
fbrica, se dispunha a deix-lo, e comeou a perceber que h na vida 
perodos em que nem tudo so rosas. O seu carcter to alegre, to 
igual, azedara. Dizia agora facilmente palavras amargas e esse 
optimismo que achava que tudo se arranjava sempre pelo melhor s via 
agora nuvens negras no horizonte.
	Ao deixar o patro, depois da confisso que fora obrigado a 
fazer-lhe, Valentin dirigira-se para um pavilho situado a uns 
cinquenta metros da fbrica,  beira do canal da Vesgre, que ligava a 
fbrica ao Loire. Num jardinzinho muito florido, sob um caramancho de 
vinha-virgem mal amadurecida pelo sol de Setembro, um homem dos seus 
quarenta anos fumava um pequeno cachimbo de raiz de cerejeira. A 
campainha do porto tocou e o fumador ergueu os olhos. Sorriu ao
recm-chegado e estendeu-lhe a mo:
	-	Ento? Est satisfeito? J ps todos os seus assuntos em 
ordem? Est livre?
	-	Sim, meu caro Ralph, completamente livre. E partirei quando 
quiser.
	-	No h pressa.  preciso que voc proceda, antes de tudo, 
segundo as suas convenincias. Uma resoluo como a que tomou no deve 
ser apressada.
	-	Ela  imutvel, caro amigo. Na ordem material, estas 
circunstncias podem algumas vezes modificar as intenes, na ordem 
moral, nunca.
	-	"Nunca"  uma palavra vazia de sentido replicou o 
americano. - E "imutvel"  quase do mesmo gnero. Vocs, franceses, 
raciocinam sempre de uma maneira absoluta e encerram-se em frmulas 
feitas. Nunca!  imutvel! Frmulas! No so outra coisa! O que  que 
pode
permitir-nos dizer que qualquer coisa no suceder nunca? Ou que algo 
ser imutvel?  pura fantasia. Se disser que  provvel ou possvel, 
que tal combinao se apresente, e que tal soluo intervenha, v. Mas 
fazer afirmaes dessas e por toda a eternidade! Que diabo! Isso  
muito peremptrio!
	-	Acha, Ralph, que o preto possa ser branco, ou o branco 
tornar-se preto?
	-	Creio que na Amrica se desprezou durante muito tempo o 
negro e se considerou o branco como pertencendo a uma espcie 
superior. Sei, no entanto, que hoje essa opinio se comea a mudificar 
e que o presidente dos Estados Unidos admitiu um negro  sua mesa, o 
que no teria podido fazer-se h vinte anos. O preto est, portanto, 
prestes a tornar-se branco, ou a ser tratado como tal, o que vem a ser 
o mesmo. Agora, para responder completamente  sua pergunta, o branco
tornar-se- negro? No o sei. Mas  muito possvel.
	-	Est bem, mas o que no ver, meu amigo, , em Frana, uma 
rapariga da sociedade, criada com ideias e gostos aristocrticos, 
casar com o contramestre da fbrica de Beaumont, quase um operrio.
	-	Tanto pior! Mas gostava muito de saber o que representa de 
to aristocrtico a famlia Prvinquires. No  nobre, como diz, quer 
dizer que no descende de qualquer desses chefes de bandos que 
devastaram os pases do Oriente, com pretexto de libertar o Santo 
Sepulcro, e a que chamaram os Cruzados; nem de qualquer famlliar de 
rei a quem este deu um ttulo que fazia dele uma espcie de criado da 
Coroa; nem de uma ilustre personagem que tenha prestado, com o seu 
gnio, servios relevantes ao seu pas. Prvinquires  um burgus, 
enriquecido pelo trabalho do pai e dele prprio, filho das suas obras, 
por consequncia o contrrio dos aristocratas. Que milagre tornou 
ento a filha dele to orgulhosa e desdenhosa?
	-	Se a conhecesse no mo perguntaria. Bastar-lhe-ia v-la 
para compreender como ela est acima de mim, pela sua graa, elegncia 
e distino. Eu no sou da mesma raa que ela, meu amigo. Gemo por 
isso, mas  uma coisa que no se pode contestar. E com todo o seu bom 
senso voc ficaria imediatamente convencido se a vsse junto de mim, 
mesmo que fosse apenas durante alguns minutos.
	-	Ela  ento extraordinria?
	-	 o prprio encanto. Em toda a parte onde aparece, todos os 
olhares vo para ela e basta ouvi-la para se ficar seduzido. No  que 
ela seja de uma beleza deslumbrante. H-as mais belas, mas no existem 
raparigas mais totalmente encantadoras. E, alm disso, ela tem o 
desejo de agradar. No  que seja coquette.  natural para ela 
seduzir.  algo de inato nela. E sem esforo, pelo prprio poder da 
sua graa, atrai todas as simpatias. S se sente feliz quando  o alvo 
de todos os olhares. A admirao  uma atmosfera que lhe  
indispensvel e ela caminha pela vida como uma jovem conquistadora.
	-	Se esse entusiasmo no  a cegueira do amor, as palavras j 
no tm sentido para mim. Mas, meu caro Raynaud, foi um monstro 
admirvel esse que acaba de me descrever. Depois de o ter ouvido e sem 
conhecer o modelo do retrato, tenho apenas um conselho a dar-lhe: no 
volte a ver a menina Rose Prvinquires. Considere como um favor do 
cu que os olhares dela s tenham pousado sobre si indiferentes e 
desdenhosos, pois se por azar ela tivesse encorajado as suas 
ambiciosas esperanas, voc teria possibilidade de ser o mais infeliz 
dos homens. Essa jovem parece-me maravilhosamente predisposta para 
viver no meio fictcio e brilhante que constitui o vosso mundo 
parisiense. Ela entrar nele como triunfadora, se encontrar o 
indivduo criado para fazer par com ela. Ser preciso necessariamente 
que esse companheiro seja muito rico, muito conhecido nessa sociedade 
de tolerncia mtua e de gozo recproco a que chamam o tout Paris. 
Dever ser um pouco blas, um tanto vaidoso, sem qualquer 
sensibilidade intelectual, dotado de um excelente estmago e de pouco 
corao. Se assim for, ter possibilidade de caminhar no sulco
dessa jovem deusa, sem ter muitos contratempos. , como deve ter 
reparado, o oposto de si mesmo. Tenho a certeza de que as minhas 
previses, assim como o meu diagnstico, esto certos. Mas tal homem 
no  fcil de encontrar. H quanto tempo est a menina Prvinquires 
a ser oferecida?
	-	Oferecida! - exclamou Raynaud, com um gesto de protesto.
	-	Oh! Perdo!  um termo da Bolsa. Valor oferecido, isto , 
que no encontra quem o queira... Deveria ter-lhe perguntado: h 
quanto tempo est ela em exposio?
	-	Ralph! No est bom da cabea! Essa linguagem  de uma 
incorreco...
	-	Desculpe, meu amigo. Sou estrangeiro e exprimo-me com 
dificuldade na sua lngua quando se trata de explicar um pensamento. 
Diga-me uma coisa muito importante: Que idade tem a menina 
Prvinquires?...
	-	Vinte e trs anos.
	-	Muito bem. J deve ter recusado numerosos partidos. As 
vossas jovens francesas esto prontas para casar por volta dos dezoito 
anos... Portanto, h cinco anos que os amadores desfilam diante da 
montra...
	-	Contnua...
	-	Sim. Esta imagem agrada-me. Fazem-me lembrar belas figuras 
de cera, vestidas de noivas, envoltas em vus e em rendas, que se vem 
nas montras dos grandes cabeleireiros, atraindo os olhares dos 
transeuntes. A menina Prvinquires, com a sua graa, o seu sorriso e 
o seu ramo de flores de laranjeira, est h cinco anos exposta aos 
olhares como a bela figura da montra do cabeleireiro... E continua a 
sorrir  espera que um imbecil entre na loja. Raynaud, no volte a 
passar por l e meta-se no navio com o seu amigo Ralph. V trabalhar 
para Pittsburg, se isso o diverte, passear, se lhe agrada mais. Mas 
no pense mais em Rose Prvinquires e deixe-a entregue s suas 
ambies de conquistadora. O cu velou por si, subtraindo-o aos seus 
encantos. Agradea-lhe e afastemo-nos. Isso  que  sensato.
	-	Sensatez que no exigir grandes esforos, pois  simples 
resignao. Como lhe disse, segundo os nossos costumes e hbitos 
mundanos, seria impossvel que a menina Prvinquires casasse com 
Valentin Raynaud. Para que isso sucedesse seria necessrio darem-se 
cataclismos impossveis de prever. Imagine, por exemplo, uma ruina 
total que reduzisse o senhor Prvinquires  misria, ou uma revoluo 
que subvertesse as classes sociais. Essas coisas sucederam h cem 
anos. Filhas da nobreza desposaram homens vindos do nada, tornados, 
pelo poder dos canhes, marechais e prncipes. Um pequeno oficial 
corso teve como pajens Larochefoucauld e Montmorency que lhe seguravam 
o estribo do cavalo quando ele montava. Foi uma espcie de sonho de 
fadas que de resto se dissipou bruscamente, como um sonho magnfico. 
Os Valentin Raynaud casam com Roses Prvinquires quando os filhos de 
estalajadeiros se transformam em reis de Npoles. Quer dizer que so 
coisas que no sucedem todos os dias.
	-	Meu caro amigo, tudo o que me est a contar  ininteligvel 
para mim. No pode entrar-me na cabea que um homem no valha outro 
homem, se tiver a mesma coragem e inteligncia, e no consigo 
compreender que existam mulheres essencialmente superiores que no 
possam dar a sua mo  de um trabalhador, com a condio de ele lhe 
poder assegurar viver numas condies semelhantes quelas em que viveu 
at ento. Sei bem que, mesmo no meu pas, h raparigas que se casam 
com descendentes de famlias ilustres da Europa, aos quais, em troca 
dos seus ttulos, elas trazem a sua fortuna. Graas a Deus essa moda  
ainda rara, e a gangrena das pretenses aristocrticas ainda no 
atingiu o mago da nao.  um produto de importao, que ser preciso 
tratar como os outros e que  mais perigoso do que qualquer um dos 
outros, pois ameaa o que  mais perigoso num povo: o esprito de 
igualdade.
	-	Sim, meu amigo, voc pertence a um pas novo que no sofreu 
a lenta formao das ideias durante sculos e que no vive sobre uma 
base de instruo essencialmente aristocrtica. Os nossos preconceitos 
datam da civilizao romana e foram transmitidos, enraizados, 
fortificados, por uma cultura religiosa e monrquica. Ns, latinos, 
temos a hierarquia no sangue e no pudemos livrar-nos dela num sculo, 
nem ao preo de quatro revolues. Estamos to intoxicados que  
medida que as classes vo sofrendo alteraes, a desigualdade vai-se 
reconstituindo.  aristocracia do nascimento sucedeu a supremacia do 
dinheiro,  soberania financeira esforamo-nos por opor a 
superioridade intelectual. E sabe o que sucede ento? A superioridade 
intelectual s quer adquirir fortuna e uma vez esta adquirida 
constitui-se em aristocracia, restabelecendo a diferena de castas em 
seu proveito. De modo que estamos sempre a recomear, e esse povo, a 
quem tentam inculcar princpios de igualdade, no faz esforos seno 
para os infringir e restabelecer a aristocracia sob uma outra forma, 
mas sempre igualmente desdenhosa e opressiva. No somos contra a 
igualdade no mago de ns mesmos e creio que seria necessrio destruir 
a prpria raa para nos arrancar o amor pelas distines, castas e 
classificaes.  curioso observar isto de perto.  curioso ver o 
desprezo que um notrio tem por um advogado e que um advogado mostra 
pelo porteiro do tribunal, por exemplo. Nunca um cambista dar a sua 
filha em casamento ao filho de um negociante de vinhos. E num salo, 
um rico comerciante de novidades no ser cumprimentado pelas mulheres 
que se fornecem na loja dele. Porqu? No  ele honesto, bem-educado, 
instrudo at? Nada a fazer. H castas, graus, distncias. As pessoas 
s se familiarizam entre si, e a hierarquia manifesta-se em todos os 
stios e em todas as circunstncias. No sei se conhece as palavras 
admirveis da mulher de um presidente do Conselho, muito radical e 
oriunda de uma famlia de republicanos notrios: "Ns somos a nobreza 
republicana! " Bastaram duas geraes de homens com assento no Poder 
para se constituir, na democracia, uma aristocracia. Que se pode 
esperar, do ponto de vista igualitrio, de um povo to profundamente 
imbuido de ideias aristocrticas?
	-	Absolutamente nada - respondeu Ralph. - E por isso os 
colectivistas do-me vontade de rir.
	-	Oh! So iguais aos outros. E s reclamam a partilha em 
proveito deles. Mas no duvidem que se a colectivizao se desse, eles 
constituir-se-iam em castas e exerceriam a tirania.
	-	Ningum o duvida... E a tirania mais pesada: a de 
energmenos.
	A conversa foi interrompida pela chegada da criada de Valentin, 
que vinha anunciar que o almoo estava pronto. Ralph deu o brao ao 
seu amigo e atravessaram os dois o jardim florido em direco ao 
pavilho. Na sumptuosa sala de jantar, em companhia da mulher, da 
filha e do baro Duburle, M. Prvinquires terminava, no mesmo 
momento, a sua refeio. A sobremesa era servida por trs criadas. A 
senhora Prvinquires, uma mulher de quarenta e cinco anos, muito bem 
conservada e bastante elegante, conversava com o baro e a filha, no 
se ocupando de M. Prvinquires, que pronunciara raras palavras
	-	Conhece o americano amigo do senhor Raynaud? perguntou Rose 
ao baro.
	-	Conheo-o como toda a gente. No tenho relaes pessoais 
com ele.
	-	 de facto to rico como se diz?
	-	Sem dvida exagera-se, como de costume. No entanto, tem uma 
grande fortuna. E como esses ianques so pessoas essencialmente 
prticas, esse Ralph Evans interessou-se por quem lhe foi til e 
procurou por sua vez ser-lhe til tambm.
	-	Mas que servio lhe pode ele ter prestado?
	-	Pergunte a seu pai. Ele saber explicar-lho melhor do que 
eu.
	M.	Prvinquires, chamado  conversa, franziu o sobrolho, 
baixou a cabea para o prato e pareceu absorver-se na tarefa de beber 
o seu caf. Mas a curiosidade da mulher no lhe dava trguas e, 
solicitado a explicar-se, f-lo de muito m vontade:
	-	Tudo isto foi por minha culpa. Se no tivesse cometido a 
tolice de expor em Chicago, nada disto me teria sucedido. Evans no 
teria visto as minhas mquinas e no me teria pedido uma informao 
que o ps em contacto com Valentin. Sabem o que me rendeu a exposio 
em Chicago? Uma medalha de honra de que eu no precisava, sessenta mil 
francos de transporte e de instalaes e a partida de Raynaud!
	-	No me podes fazer crer que o teu director se v embora por 
ter travado conhecimento com o senhor Evans. H em todo este caso 
qualquer coisa que no nos contas!
	Prvinquires bateu com o cabo da faca sobre a mesa, com ar 
descontente, e disse:
	-	H seguramente outra coisa. Mas ficar-te-ei agradecido se 
no me falares mais nisso.
	O baro e a Sra. Prvinquires entreolharam-se com espanto. Mas 
Rose, com uma alegria maliciosa, respondeu:
	-	Eu gostaria imenso de conhecer esse americano. Toma 
propores extraordinrias na minha imaginao. O homem que veio 
raptar Valentin, pois no podemos ter iluses, trata-se na verdade de 
um rapto, surge-me sob o aspecto de uma espcie de gigante.  
Polfemo! Tem olhos?
	-	Claro que sim. E muito penetrantes. Mas tranquiliza-te, 
minha pequena - disse o baro -, no  nenhum fenmeno. Anda como toda 
a gente e, ontem  noite, na estao, quando se dirigia de carro para 
casa, mostrou-se perfeitamente amvel e corts. Previno-te mesmo que  
um desportista, bom cavaleiro, grande caador...
	-	Est bem. Poder caar os nossos faises, se ficar aqui 
alguns dias. Mas  novo ou velho?
	-	Ests a abrir os olhos, minha pequena!
	-	Eu? No tem razo em dizer isso, padrinho! Um americano! 
Que faria dele? O adestramento de um marido em liberdade no est de 
maneira nenhuma nas minhas ideias!
	-	Gostava de saber realmente o que est nas tuas ideias! - 
resmungou Prvinquires. - Creio que nem tu prpria o sabes bem.
	-	Pronto. Vou expor o meu programa - disse Rose, rindo. - 
Pode-se mandar imprimir e fixar um exemplar  entrada do salo, como 
se faz para os concursos. Quero um homem muito rico, muito chique, 
muito amvel e muito bem-educado. Algo parecido com o que devia ser o 
meu padrinho outrora.
	O baro Duburle sorriu ligeiramente. Olhou atentamente para a 
Sra. Prvinquires e para Rose, parecendo associ-las no seu 
pensamento, depois disse suavemente:
	-	O pior, minha filha,  que as pessoas como o teu padrinho 
quase nunca se casam.
	-	Porqu? - perguntou ousadamente a jovem.
	-	Porque acham muitas facilidades em no o fazer - murmurou 
Prvinquires. - Imaginas que um rapaz brilhante, encantador, 
solicitado, como o era Duburle h vinte e cinco anos, seria to tolo 
que fosse pr a corda ao pescoo? Agora que est velho, que tem 
reumatismo, acomoda-se  vida de famlia, mas outrora quem  que o 
podia agarrar? Teria pena da mulher que casasse com ele.
	-	Hum, hum - murmurou o baro com um ar simultaneamente 
alarmado e satisfeito. - Pergunto a mim prprio, meu caro amigo, para 
que est a contar tais coisas a esta criana. Quer que ela me perca o 
respeito?
	-	Oh! No tenho muitas iluses a seu respeito, padrinho. 
Basta v-lo para perceber o que deve ter sido. E  justamente o que me 
agrada. Quer casar comigo, padrinho? F-lo-ia j amanh.
	-	s tolinha, minha pequena - respondeu sorridente o baro. - 
Mas receio que o que acabas de dizer seja a consequncia de ideias que 
eu considero como nocivas... No te repugnaria casar com um senhor um 
pouco maduro, se ele tivesse o conjunto de qualidades que enunciaste 
h pouco?
	-	A que  que chama um senhor um pouco maduro?
	-	Bem, um rapaz com os seus trinta e cinco, trinta e seis 
anos...
	-	Trinta e sete - acrescentou alegremente Rose. - Pois bem, 
isso no me meteria medo. Se quer saber, os rapazes muito novos no me 
inspiram qualquer confiana.
	-	Ah! - exclamou Prvinquires -, entre um rapazinho novo e 
um senhor quase de meia idade h uma grande diferena.
	-	H uma diferena que contm o egosmo, a inconstncia, a 
nulidade, que so os sinais distintivos dos nossos brilhantes jovens. 
O meu irmo, por exemplo...  apresentvel?
	Aquele "o meu irmo, por exemplo" foi terrvel. Deu a impresso 
de se ter dado nos espritos uma tempestade sbita. Prvinquires teve 
um sobressalto brusco e fez-se muito vermelho. A mulher empalideceu e 
comprimiu os lbios. Quanto a Duburle, soltou um ligeiro assobio que 
tinha um significado totalmente desaprovador.
	-	Oh, meu Deus! Que fiz eu? - exclamou Rose com uma confuso 
simulada. - Pobre Bel-Oeil, lancei o raio sobre ele!
	-	Bel-Oeil! - repetiu o pai com ar colrico. - O qu? Tambm 
tu conheces a alcunha que lhe puseram?
	-	Mas, pap, toda a gente a conhece! De resto,  justificada. 
Podes pensar de Maurice o que quiseres, mas no podes deixar de 
reconhecer que  um bonito rapaz!
	A Sra. Prvinquires acariciou a filha com um olhar aprovador, 
mas Prvinquires no desarmou:
	-	Isso serve-lhe de muito! No era melhor que ele tivesse
bom senso? Ah, sim,  um brilhante exemplar da juventude dos nossos 
dias. Nisso dou-te razo em toda a linha, minha filha. E para ligar a 
existncia a um pssaro semelhante mais vale ficar solteira!
	-	No levo o pessimismo a esse ponto! - disse Rose com 
tranquilidade. - Mas s me decidirei com conhecimento de causa.
	Com esta concluso levantaram-se da mesa para passarem para a 
sala, onde Prvinquires, a mulher e o amigo ficaram sozinhos, pois 
Rose, abrindo a sua sombrinha, passara para o terrao e andava agora 
ocupada a colher flores.
	-	Ouviram-na? - perguntou Prvinquires voltando-se para a 
mulher e para o amigo. - Com ideias to definidas, que acolhimento 
daria ela aos sentimentos de Valentin?
	-	O qu? O teu director?
	-	Esta manh forcei-o a falar e ele acabou por se explicar. 
Ama Rose e como ele prprio se apercebe, com muito bom senso e 
modstia, de que nada tem a esperar dela, vai-se embora.
	-	Bonito! - exclamou a Sra. Prvinquires. - Logo vi que 
devia ser qualquer coisa do gnero. A deciso desse rapaz era 
inexplicvel, depois de tanto que fizeste por ele.
	-	Alto l! - disse com vivacidade M. Prvinquires.
- Ele nada nos deve. Estamos quites. Ele fez por ns, pelo menos, 
tanto como ns fizemos por ele. E se acrescentarmos a Isso os servios 
prestados pelo seu pai, ns  que estamos em dvida. Esse rapaz  uma 
prola! O diabo so as ideias aristocrticas da minha filha. Nunca 
arranjarei um genro que me agrade tanto!
	-	Que dizes? - exclamou a Sra. Prvinquires. - Valentin 
Raynaud, um genro para ti? Esse operrio? No ests no teu juzo!
	-	De modo algum! Era bom que tu e a tua filha no estivessem 
desnorteadas com pretenses que no se baseiam em coisa alguma. Pois, 
em suma, eu chamo-me Prvinquires simplesmente e sou fabricante de 
mquinas agrcolas.  motivo de orgulho?
	-	No te queiras fazer vulgar - replicou a mulher com ar 
afectado.
	-	No  nada disso! Sou um industrial, muito rico, e  tudo. 
O genro que mais me conviria seria um trabalhador como eu. Tenho-o 
justamente  mo. E para cmulo da pouca sorte a minha filha no o 
querer!
	-	Vais falar-lhe nele?
	-	Claro que no! No quero humilhar esse excelente rapaz. 
Desde o momento que a minha filha no desconfia dos sentimentos de 
Valentin e nos fez a declarao que acabaram de ouvir h pouco, nada 
tenho a fazer. Deixarei partir Raynaud, o que vai desorganizar os meus 
negcios, e assistirei ao casamento que a minha filha arranjar. 
Abdiquei de toda a autoridade. E de resto lavo as mos das loucuras 
que sero cometidas na minha frente.
	-	Espera que elas se dem para poderes julgar. No podes 
prever o que a tua filha far.
	-	Uma tolice, sem dvida, sobretudo se for com a tua 
colaborao.
	-	Que graa! E como  na verdade fcil compreender a pouca 
influncia que sempre tiveste sobre os teus filhos. No acreditas que 
eles sabem que os teus ares carrancudos escondem muitas fraquezas? No 
 necessrio brutalizar as pessoas para lhes impor a sua vontade. 
Basta persuadi-las. Foi o que nunca soubeste fazer.
	-	Sim, toda a gente sabe que tu e os teus filhos so vtimas! 
- replicou furiosamente Prvinquires. - Mostras sempre dar-me pouca 
importncia. E s gostas verdadeiramente do meu dinheiro. Se eu 
tivesse um pouco de senso reduzia-os a todos a po e laranjas, para 
lhes dar um pouco do sentido da vida. Tu e os teus filhos esto cheios 
de iluses sobre o lugar que ocupam na vida. Lisonjeiam-vos,
acariciam-vos, sabem porqu? Julgam que  por causa das vossas graas 
naturais e das vossas qualidades individuais? Engano!  unicamente 
devido  quantidade de dinheiro que eu ponho  vossa disposio. Se 
deixares de receber, de oferecer jantares, festas, de apresentar uma 
casa com grande estado, amanh deixaro de te conhecer. Julgas que  
por seres encantadora, deliciosa, que te sorriem tanto. No!  porque 
se divertem em tua casa, porque comem bem. E  sobre essas relaes 
artificiais, todas feitas de convenes e de reciprocidade, que 
baseiam a vossa existncia. Ouvi a minha filha dizer, h instantes, 
que s queria casar com um homem muito rico, muito
chique e muito bem-educado. Que ele seja estpido Pouco lhe importa. 
De resto, pode ficar tranquila, se casar com ela  o que ser!
	-	Ento, Prvinquires, est a encolerizar-se e a ir mais 
longe do que deseja - interrompeu o baro Duburle com uma voz 
conciliadora. - Est mal-disposto porque o seu director se vai embora, 
e tem toda a razo. Mas no torne a sua famlia responsvel por esses 
aborrecimentos. A sua mulher  uma dona de casa perfeita.
	-	Oh, com certeza que no seria voc a dizer mal dela - 
interrompeu Prvinquires. - Tudo o que diz aqui tem fora de lei e 
isso dura h vinte anos... Mas eu no tenho as mesmas razes para 
admirar o que se passa em minha casa... A minha mulher educou os 
filhos sem senso e sou eu que recolho os frutos dessa bela educao. O 
meu filho  um peralvilho absurdo e a minha filha est prestes a 
estragar a vida dela por futilidade e por snobismo. E acha que eu vou 
longe de mais? O que sucede  que estou a revoltar-me demasiado tarde! 
Devia ter posto as coisas em ordem h dez anos. No teramos chegado 
onde chegmos!
	-	Oh, mas quem te ouvir julgar que os maiores Cataclismos 
ameaam a nossa casa! - exclamou a Sra. Prvinquires.
- Estarei a sonhar? Tudo isso porque o senhor Valentin Raynaud meteu 
na cabea gostar da nossa filha, que no suspeita de coisa alguma! Mas 
Rose no se casar sem o teu Consentimento. Se ela escolher um marido 
que te desagrade, basta que recuses dar o teu consentimento e no 
haver mais nada!
	-	Teria ento de suportar as tuas recriminaes e os lamentos 
dela! Pois no duvido de que estaro as duas de acordo! No, minha 
amiga, no esperes que eu as ponha s duas no caminho direito. Estou 
cansado de ser o nico a ter bom senso nesta casa. Faro o que 
quiserem! Eu apeDas direi amm! E lavo da as minhas mos, como j 
disse. Estarei presente apenas para pagar, como j tenho o hbito de 
fazer! E vocs s comearo a prestar homenagem  minha razo no dia 
em que tudo lhes correr mal e for preciso gritar por socorro, para que 
eu arranje as coisas e ponha tudo em ordem. De resto, todas as 
discusses me perturbam, me ener'vam, me impedem de digerir, e eu 
estou farto delas. Conversem vocs os dois, se isso lhes agrada. 
Adeus!
	E, branco de clera, com passos sacudidos, as mos trmulas, 
Prvinquires saiu da sala, bateu a porta com violncia e foi fechar-
se no seu gabinete. A Sra. Prvinquires e Duburle olharam-se por um 
instante em silncio e depois o baro disse com ar descontente:
	-	Minha cara amiga, faz mal em mago-lo assim. Ele  to bom 
e to indulgente que no tem desculpa para no obter dele tudo o que 
quiser...
	-	Tem razo, mas quanto a esta questo do casamento de Rose, 
no sei moderar-me. Ela inquieta-me de tal maneira...
	-	Ah! Uma rapariga bonita como ela e com um milho de dote 
no ficar por casar...
	-	No entanto, no  bom que ela seja desposada pela sua 
fortuna...
	-	Mas ouviu-a h pouco dizer que s quer casar com um homem 
rico...
	-	Oh! Ela no  tola!... Mas quando se trata de escolher um 
marido a razo no  tudo,  preciso tambm que o corao tenha uma 
palavra a dizer.  triste dar-se sem amor...
	A Sra. Prvinquires ficou um momento silenciosa, suspirou, e 
depois, deitando um olhar  figura esbelta e elegante do seu velho 
amigo, murmurou:
	-	Ficaria desolada se, mais tarde, a minha filha tivesse de 
fazer as reflexes que eu agora fao. E no sei se ela ter a sorte de 
encontrar as compensaes que a vida me ofereceu.
	Levantaram-se e encaminharam-se lentamente para o jardim, onde 
Rose continuava a colher flores.



Captulo segundo

	 certo que quando M. Prvinquires se queixava da educao que 
os seus filhos tinham no exagerava, embora essa educao tivesse sido 
recebida na frente dos seus olhos. Se no era m, era em todo o caso 
totalmente oposta a todas as suas tendncias e princpios. No se pode 
negar que uma modificao profunda se tenha produzido nos espritos 
desde h vinte e cinco anos e que entre pais e filhos uma divergncia 
profunda e quase completa, no que diz respeito s ideias e aos 
sentimentos, os tornara quase totalmente estranhos uns aos Outros. 
Nunca numa poca - a no ser talvez no momento em que a revoluo 
estabeleceu violentamente uma nova ordem das coisas, completamente 
diferente daquela que acabara de desaparecer - houvera uma tal 
alterao nos modos de ver e de sentir.
	A nova gerao, orientada para os exerccios fsicos, vivendo 
mais ao ar livre, numa promiscuidade de sexos favorecida pelos jogos 
executados em comum, tornou-se muito mais inteligente e ousada. O 
sentimento do respeito diminuiu e as diferenas de idade deixaram de 
ser causa de venerao. Ouvem-se pouco os velhos, sorri-se dos seus 
conselhos, existe uma predisposio para os considerar maadores e 
para lhes dar a perceber isso. O sentimento da personalidade acentuou-
se em contacto com a concorrncia vital. E as concesses, outrora 
impostas pela deferncia e pela delicadeza, comearam a parecer 
desperdcios de fora, de molde a deter a marcha para a frente. 
Adquiriu-se o hbito de empurrar os mais velhos e os mais fracos 
porque  preciso andar depressa para chegar. As ideias tornaram-se 
utilitrias e tudo o que era sentimento pareceu ser bom para pr de 
lado, como um peso morto. Da uma secura nas imaginaes, egosmo nas 
relaes e uma forma cortante de discutir, que d s palavras um 
sentido positivo, aos actos um valor material, tirando-lhes todas as 
boas graas e a generosidade.
	Para um burgus como Prvinquires, ainda cheio das recordaes 
cavalheirescas da poca napolenica, todo imbuido dos exageros 
sentimentais do romantismo, cheio dos ensinamentos morais deixados no 
esprito pblico pela guerra, a invaso e a comuna, o cepticismo 
racional, o desdm pelas velhas frmulas, o arrivismo sem escrpulos 
que eram a marca da nova gerao e cujas principais caractersticas 
ele reconhecia nos seus filhos, causavam-lhe uma perturbao 
inexplicvel. No os compreendia e sentia no ser compreendido por 
eles. As palavras pronunciadas pareciam no ter o mesmo sentido e no 
tinham o mesmo valor. No meio dos seus, Prvinquires sentia-se um 
estranho. Em certas alturas, quando exprimia as suas ideias, 
adivinhava que troavam dele e quase o desprezavam. Sofria com isso, 
no ousava diz-lo e acumulava, no fundo de si mesmo, amarguras 
intensas.
	No entanto, os filhos sentiam ternura por ele. Gostavam do pai  
maneira deles, que no era aquela que lhe agradava. Familiarizavam-se 
facilmente com ele, tratavam-no como um camarada e faziam-no sofrer, 
recusando-lhe a autoridade que ele queria conservar sobre eles. No 
eram maus, eram mesmo bons, mas de uma forma irnica que para 
Prvinquires estragava at as melhores intenes. No seu ntimo, a 
afeio que sentia por eles lutava contra o desagrado que eles lhe 
causavam. Pode-se dizer que entre eles s existiam raros momentos de 
acordo. A maior parte do tempo irritava-se com a conduta e a linguagem 
deles. Um desacordo quase completo existia, portanto, entre o pai e os 
filhos. Fazia-se sentir mais seriamente entre Prvinquires e Maurice, 
por serem ambos homens, pois para com Rose, jovem e brilhante, a 
galanteria atenuava forosamente a irritao sentida pelo pai. 
Prvinquires mostrava-se muitas vezes resmungo e mal-humorado. Esse 
mau humor constante no melhorava as relaes familiares e os filhos, 
j pouco habituados a aproximarem-se do pai, fortificavam-se na 
opinio de ele ser pouco benevolente. Maurice formulava o seu 
pensamento nesta apreciao definitiva: "O pap  um maador."
	Ambos os filhos adoravam a me. As indulgncias, a meiguice, as 
carcias que no encontravam junto do pai, a Sra. Prvinquires
tinha-lhos prodigalizado. Por um efeito de equilbrio, muito natural, 
ela pendera para o lado oposto ao marido, e quanto mais obstinado ele 
se mostrava, mais ela se empenhava em ser meiga. Tinha uma natureza 
agradvel que a predispunha a querer agradar, mesmo aos filhos. E, 
alm
disso, adaptara-se mais facilmente aos novos hbitos da sociedade 
transformada. A sua idade aproximava-a mais de Rose e de Maurice, e 
enquanto Prvinquires se obstinara em nada ceder dos costumes e das 
ideias da sua juventude, a me modernizara-se e modificara-se. Nessa 
famlia de boas pessoas, que se amavam sinceramente e viviam muito 
unidos, existiam desacordos morais, profundos e dolorosos, que 
tornavam muitas vezes a existncia muito difcil.
	O estado de crise que subsistia no estado latente na casa 
Prvinquires agudizara-se por causa de uma escapada recente de 
Maurice e pelo aparecimento de um pretendente para Rose. A escapadela 
fora forte e o pretendente inquietante. Da o redobrar do mau humor de 
Prvinquires. Bonito rapaz, muito solicitado, o filho da casa, 
lanado no mundo da galanteria, tinha a deplorvel mania de querer 
casar com todas as raparigas que se mostravam benevolentes para com 
ele. Amar no lhe bastava, era preciso casar. O pai, de cada vez que 
ele manifestava esse gosto imoderado pelo casamento, tinha acessos de 
exaspero que o punham s portas da apoplexia.
	No ano anterior, Maurice desviara dos seus deveres uma rapariga 
muito bonita, manequim numa costureira da Rua da Paz, e fizera um 
pedido respeitoso ao pai para ele consentir no seu casamento com essa 
encantadora pessoa. Prvinquires preferira dar vinte e cinco mil 
francos  rapariga, que, entretanto, acabara tudo com o seu noivo. 
Dois meses mais tarde, Maurice morria de amores pela Serbelli, que 
acabara de ter um grande sucesso na pera, num novo ballet. Partira 
com ela para Milo e, do prprio Scala, escrevera ao pai pedindo-lhe 
autorizao para casar com a estrela. Felizmente, dessa vez, um tenor 
encarregara-se do desenlace da situao. Maurice entrara no camarim da 
bailarina sem bater e encontrara-a a representar uma cena to 
sugestiva que, no dia seguinte, regressava a casa.
	Mas para no perder o hbito, deixara-se prontamente entusiasmar 
pelos olhos azuis e os cabelos louros de Amdine de Narbonne, a mulher 
mais cara de Paris, que, sintoma alarmante, mostrara para com ele o 
mais puro desinteresse. H trs semanas que Maurice desaparecera do 
domiclio paterno e vivia em casa da sua bela, com grande 
descontentamento dos numerosos familiares dessa amvel pessoa, nada 
destinada a fazer a felicidade de um s, mas a assegurar a de muita 
gente. Em vo Prvinquires, alarmado pela habilidade com que Amdine 
jogava o grande jogo, fingindo resgatar-se pelo amor, enviara ao filho 
diferentes emissrios para lhe darem bons conselhos. Maurice
mantivera-se surdo s censuras do pai. Dessa vez, declarava-se 
formalmente, era a sua felicidade que estava em jogo. Separ-lo de. 
Amdine de Narbonne seria o mesmo que conden-lo a penar eternamente. 
De resto, sentia que no sobreviveria a uma tal perda, e preferia dar 
um tiro nos miolos imediatamente do que ficar a sofrer.
	Fora ao baro Duburle, conselheiro amvel e indulgente, que ele 
falara com essa linguagem extraordinria. Duburle, que no receava o 
contacto com uma linda rapariga, fora, aps ter ouvido essas 
declaraes, a casa de Amdine e recomeara com ela a cena de 
persuaso falhada com Maurice.
	Achara-a grave e simples. Ela declarara-lhe que amava o jovem 
Prvinquires e' que estava decidida a penitenciar-se pelo seu passado 
galante, sacrificando todas as vantagens materiais que ele lhe valera, 
para viver na mais modesta correco com o homem que queria dar-lhe o 
seu nome.
	O baro respondera a tal confidncia com um suave cepticismo. 
Dera a entender que Maurice no passava de um simplrio que ela 
depressa se fartaria de ter preso, que M. Prvinquires era um homem 
muito avisado e muito firme, capaz de deserdar o filho e de colocar a 
maior parte do seu dinheiro no estrangeiro, para no o ver cair em 
mos que no pareciam designadas para o receber. Alm disso, M. 
Prvinquires tinha boa sade e viveria, certamente, mais vinte anos, 
o que daria a Amdine dez vezes mais tempo do que o necessrio para se 
desgostar de Maurice, se divorciar e retomar a sua via natural, que 
era a do amor variado e sem constrangimentos. Os rumores pblicos 
diziam mesmo que Duburle apoiou estes argumentos, to cerrados e to 
convincentes, com uma demonstrao pessoal e activa que comeou por 
provocar espanto, depois indignao e, em seguida, um pouco de 
admirao por parte de Amdine, por uma maneira de agir to enrgica.
	Chegou mesmo a dizer a Andr de Fontenoy, que o repetiu, e 
porintermdio de quem se ficou, sem dvida, a conhecer toda a 
histria: "Foi assombroso, esse velho, para a sua idade! E se no 
fosse por fidelidade para contigo, meu pequeno Maumau, nunca se sabe!" 
A verdade  que Duburle foi obrigado a confessar a Prvinquires que a 
sua interveno no tivera efeito, que  partida lhe parecia 
irremediavelmente perdida, visto os interesses de Amdine estarem de 
acordo com a fantasia de Maurice. Foi ento que ojovem marqus de 
Condottier entrou em cena.
	Era um bonito rapaz, muito bem aparentado, cujo pai fora 
embaixador e que vivia dos restos de um patrimnio que ele e a irm, a 
condessa Grodsko, tinham delapidado com uma rapidez notvel. A jovem 
condessa, uma mulher brilhante, casara com um hngaro rico, com o qual 
descobrira, ao fim de seis meses, que lhe era completamente impossvel 
viver. Habitava na Rua Saint-Dominique, na casa da familia Condottier, 
juntamente com o irmo, e recusava com uma irresistvel energia 
obedecer s ordens do magnata que queria encerr-la durante todo o ano 
numa povoao situada no meio de vinte mil hectares de pinheiros, nas 
margens do Theiss. Ela e o irmo tinham organizado uma existncia 
muito agradvel em Paris, frequentavam a melhor sociedade e como o 
acaso quisera que ela tivesse sido companheira de colgio de Rose, 
tinham-se estabelecido relaes entre a casa Condottier e 
Prvinquires, sem entusiasmo da parte do industrial, cujo bom senso 
previa que essa intimidade entre os seus filhos e os dois irmos podia 
ser perigosa. Mas o marqus era um danarino admirvel e "flirtara", 
durante todo o Inverno, com Rose. A condessa, com um tacto muito fino, 
conseguira as boas graas da Sra. Prvinquires e,  fora de 
amabilidades, acabara at por desarmar Prvinquires.
	Ora, uma noite, no clube dos Campos Elseos, quando Duburle, que 
nunca tinha pressa de se ir deitar, bebia ch j depois da meia-noite, 
o marqus, que acabara de ganhar mil luses ao bacar, fora instalar-
se junto dele. Nesse momento Maurice Prvinquires entrara no salo. 
Apertara a mo a Condottier e como Duburle lhe mostrasse uma expresso 
fria, perguntara-lhe delicadamente se no se sentia bem.
	-	No! - respondera o amigo dos Prvinquires -, sinto-me 
bem, como de costume, mas estou descontente contigo.
	-	O que  que eu fiz?
	-	No apareces em casa. Desgostas a tua me, que  a mais 
maravilhosa das mulheres...
	-	No serei eu a dizer o contrrio.
	-	E pes o teu pai fora de si..
	-	Que  o mais resmungo dos chefes de tribo! Ah! Pode-se 
dizer que ele  patriarcal e bblico, do ponto de vista dos usos e 
costumes. Se eu no me opusesse a isso, seria capaz de me imolar no 
altar dos seus preconceitos, como Abrao quis fazer a seu filho lsaac!
	-	Tu s estpido! Teu pai  um homem excelente, que pensa, e 
com razo, que um rapaz como tu no pode viver com Amdine, e na casa 
de Amdine,  vista de Paris inteiro!
	-	No se dir no entanto que vivo  custa dela!
	-	 como se fosse. Tu no lhe ds coisa alguma e por tua 
causa ela deixou de se fazer pagar por outros.
	Nesse preciso momento, como Maurice esboasse um gesto de 
fatuidade feliz, o jovem marqus soltou um "Oh!" acompanhado por um 
trejeito de dvida que despertou a curiosidade de Duburle e fez corar 
o herdeiro dos Prvinquires.
	-	Que quer dizer isso? - perguntou o baro.
	-	Sim - disse Maurice -, que quer insinuar?
	-	Exclamei simplesmente "Oh!" - respondeu Condottier com voz 
suave. - "Oh!", uma exclamao que pode ser de surpresa, de admirao 
ou de dvida, conforme a expresso que se lhe d.
	-	O seu "Oh!" indicava dvida! - retorquiu, azedamente, 
Maurice. - Ou estarei enganado?
	-	No, no  voc que est enganado - declarou docemente o 
marqus. - Ela  que o engana.
	-	Me engana?! - exclamou Maurice, estupefacto.
	-	Ah! Ah! - gritou Duburle triunfantemente. - Conte-me isso, 
marqus! A coisa vale a pena ser ouvida!
	-	No conte com isso - replicou Condottier. - Sou incapaz de 
comprometer um amigo ou um camarada. No lhes revelarei com quem 
Amdine engana o nosso caro Maurice, mas garanto-lhe que h em Paris 
um rapaz que  o rival do jovem Lovelace aqui presente. Agora, se tm 
a mais pequena dvida sobre a veracidade das minhas palavras, dou-lhes 
um meio de as controlarem que  irrecusvel. Comprometo-me 
pessoalmente a fazer esquecer a Amdine a sua virtude recente, e isso 
nas prximas vinte e quatro horas.
	-	E como se saberia? - perguntou Maurice, um pouco plido, 
mas mostrando duvidar ainda.
	-	Isso, meu caro - respondeu Condottier -,  consigo. Eu irei 
a casa dela ou ela ir a minha casa, mas garanto-lhe que havemos de 
encontrar-nos. Cabe-lhe a si descobri-lo. No posso fazer mais para 
lhe abrir os olhos. H-de concordar que estou a ser muito complacente
	-	Marqus - disse Duburle - eu prprio tentei fazer o mesmo e 
falhei
	-	Amdine contou-me - declarou Maurice - como tenho a certeza 
de que me contara a tentativa de Condottier
Esto a caluniar essa pobre rapariga Ela ama-me a mim e a mais 
ninguem. Vo ter a prova disso
	-	Ah! Mais devagar - interrompeu Duburle. - D a tua palavra 
de que no a prevenirs. Ests de tal modo cego que serias capaz de o 
fazer.
	-	No receiem que o faa. Estou seguro dela!
	-	Est seguro dela! - exclamou Duburle. - Aqui est um animal 
que est seguro de uma mulher! E ainda por cima de uma pequena cuja 
profisso  ser amvel. Essa  de mais. Condottier, mesmo que seja 
apenas para lhe fazer perder as iluses, mostre que essa jovem no 
merece as flores de laranjeira com que se enfeita.
	-	Farei o possvel.
	Os trs homens separaram-se. Maurice inquieto, Duburle custico e 
Condottier calmo. Nunca se soube como o jovem marqus se arranjou, com 
uma criatura to desconfiada como Amdine, mas dois dias depois 
Maurice chegava a casa de Duburle, desfigurado, gritando o seu furor e 
confessando que acabava de surpreender Condottier nos braos de 
Amdine. Estava fora de si, falava em enviar testemunhas ao seu amigo 
e de o matar, depois expandia-se em imprecaes sobre a infmia das 
mulheres e a palermice dos homens. Duburle teve dificuldade em 
conseguir que Maurice reconhecesse que seria pagar mal a complacncia 
de Condottier, desafiando-o para um duelo.  certo que ele seduzira 
Amdine, mas sem gosto e unicamente pelo princpio...
	-	No me diga que est a lament-lo - disse Maurice.
	-	No chegarei a esse ponto. Claro que no se tratou de um 
sacrifcio. A rapariga  bonita...
	-	Mas como  astuta! No sabe a que ponto de perfeio ela 
leva a hipocrisia e a mentira.  uma especialista nesse gnero!
	-	E em alguns outros tambm.
	-	No voltarei a v-la!
	-	Assim o espero.
	E Maurice voltou para casa do pai, com quem se reconciliou. 
Quanto a Duburle, sem entrar em pormenores sobre a aventura, explicou 
a Prvinquires que era a Condottier que se devia o regresso do filho 
prdigo. E se o industrial se tornou mais simptico para o marqus, 
redobrou de desconfiana. No acreditava no desinteresse e raramente 
vira prestar servios gratuitos. Pensava que se Condottier se dera ao 
trabalho de lhe levar Maurice, tivera qualquer interesse em se mostrar 
to dedicado. Esse interesse, de resto, no tardou a descobrir qual 
era. Tornou-se claro para ele que o marqus s lhe devolvera o filho 
para mais facilmente lhe poder tirar a filha. De resto, em sua casa, 
toda a gente favorecia essa combinao. A Sra. Prvinquires, cujos 
sonhos aristocrticos haviam sido sufocados pelas tendncias burguesas 
do marido, tinha um fraco pela nobreza autntica do marqus. A 
condessa Grodsko, hbil e insinuante, agradava-lhe. E Maurice, sempre 
pronto a apaixonar-se por uma beleza nova, comeava a fazer uma corte 
cerrada  mulher do magnata. S Rose no se manifestava. Acolhia, com 
boa disposio sorridente, as demonstraes discretas de Condotrier, 
mas no era possvel concluir pela sua atitude que ela estivesse 
disposta a dar ao marqus a mo que j recusara a tantos outros. Isso, 
a falar verdade, tranquilizava Prvinquires, j que, depois das 
mltiplas provas matrimoniais por que o capricho da filha o fizera 
passar, sentia-se inquieto e receoso que ela pudesse fazer uma escolha 
absurda, e de todos os pretendentes que ele detestava, Condottier 
parecia-lhe o mais inaceitvel. E, no entanto, no podia afast-lo de 
sua casa. No dia seguinte mesmo, esperava-o em companhia da sua 
brilhante irm, pois encontravam-se ambos no Castelo de Rocher na 
propriedade do seu vizinho mais prximo, o baro Folentin, banqueiro 
muito rico e celibatrio endurecido, e deviam ir caar a Beaumont.
	Prvinquires ia-se lembrando de todas essas coisas e fazia-o sem 
satisfao. Acabava de assinar maquinalmente um grande nmero de 
cartas quando a porta do seu gabinete se abriu e entrou um rapaz alto 
e bonito. Ao v-lo, o rosto de Prvinquires iluminou-se. Olhou-o um 
instante com complacncia e depois, desmentindo com a rudeza das 
palavras a carcia do olhar, disse:
	-	Ah! Ests aqui! Quantos disparates fizeste desde esta 
manh?
	-	Pode crer, pap, que ainda no tive tempo para isso. 
Levantei-me agora.
	-	Preguioso! So onze horas!
	-	 que o ar do campo  um soporfero espantoso. Dormi to 
bem que no era capaz de me levantar.
	-	Sim, o ar aqui  excelente. Se c viesses mais vezes, 
sentir-te-ias melhor!
	-	No tenho recursos de esprito suficientes para viver no 
campo... No saberia que fazer... Aborrecer-me-ia e aborreceria os 
outros...
	-	Ocupar-te-ias com alguma coisa.
	-	Serei capaz disso?
	-	Nunca experimentaste.
	-	Isso  verdade. Mas creio que no sirvo para nada. Quando 
vejo o que tu fazes e a diversidade de conhecimentos que possuis, 
sinto-me cheio de admirao e de assombro.
	Prvinquires olhou o filho com amor. Abanou a cabea, bateu no 
brao da cadeira e disse num tom modesto:
	-	No sou nenhum s. H-os mais aptos do que eu, no te 
iludas. No entanto,  verdade que tenho trabalhado muito e que deitei 
a mo a muitos negcios e casos diferentes. Mas se tu quisesses 
aplicar-te seriamente e seguir os meus conselhos, dentro de poucos 
anos estarias perfeitamente em condies de me substituires  frente 
da fbrica e na cmara...
	-	Na cmara? - exclamou Maurice. - Serias capaz de deixar o 
teu lugar e os teus fiis eleitores?
	-	Com certeza. Para ir para o Senado, por minha vez. Bem vs, 
teramos todo o pas! Ah! Se tu tivesses querido! Se tu ainda 
quisesses! Com a tua inteligncia, pois tu s inteligente, poderias 
chegar a uma posio magnfica... Continuarias a dinastia dos 
Prvinquires...
	-	Prvinquires quarto! - disse Maurice com ar de troa. - 
Sim, seria bonito. Mas  muito dificil. E, depois, com o futuro que os 
socialistas nos prometem...
	-	Acreditas nas fantasias deles? Tu tens mais credibilidade 
que eles prprios. Eles sabem bem que as suas reivindicaes morrem  
nascena, e que o programa  irrealizvel.
	-	Podem destroar tudo, como eles dizem.
	-	E depois? Isso duraria um dia, mas no dia seguinte a ordem 
das coisas recuperaria o seu equilbrio. Se  porque consideras a 
colectivizao ameaadora que hesitas em caminhar na minha senda, 
fazes mal. No  a sociedade que  preciso mudar, mas sim a 
humanidade, e no h qualquer probabilidade de se conseguir isso.
	Prvinquires ia entregar-se s consideraes mais elevadas 
quando foi interrompido por uma leve pancada na porta do seu gabinete. 
Gritou: "Entre!", e imediatamente apareceu Valentin, precedendo o seu 
convidado americano. Este avanou para Prvinquires com um ar 
confiante e sereno, e, antes mesmo de ser apresentado, disse:
	-	Ralph Evans, de Pittsburg; seu antigo cliente e agora seu 
concorrente, senhor Previnquieres.
	-	 a pessoa que me vai roubar este excelente rapaz - 
replicou Prvinquires, olhando para Valentin.
	-	 verdade que sim, mas sem premeditao e sem qualquer 
interesse. De resto, ele voltar.
	Prvinquires e Raynaud trocaram um olhar. O patro abanou a 
cabea sem responder. Depois, mudando o assunto da conversa:
	-	Senhor Evans, quem devia levar consigo para a Amrica no 
devia ser Valentin, mas este rapaz... - disse, designando o filho, que 
se encontrava encostado  chamin e olhava o americano com 
curiosidade.
	-	Muito bem! Se desejar ir, h lugar para ele no barco...
	-	Muito obrigado - disse Maurice, sorrindo. - Mas essa 
travessia no me agrada. E, com toda a sinceridade, a Europa
basta-me...
	-	No  curioso. Eu, com a sua idade, j tinha dado a volta 
ao mundo...
	-	Em oitenta dias! - exclamou Maurice, rindo. - Ns temos 
isso, na Porta Saint-Martin, em quatro horas.
	-	Eis ajuventude actual, meu caro senhor - disse 
Prvinquires a Ralph. - Troa de tudo, responde que quer divertir-se. 
Ns juntamos fortunas grandes de mais para os nossos filhos. Fazemos 
mal.  a desculpa deles. No tm necessidade de trabalhar, visto que 
ns j o fizemos por eles. H alturas em que pergunto a mim mesmo se a 
herana no ser um erro social. Se os nossos filhos s pudessem 
contar com eles mesmos, seriam obrigados a trabalhar e tornar-se-iam 
homens.
	-	 uma teoria muito dura - ops-se Valentin. - E  preciso 
ser muito slido para se resistir a uma tal prova. O elegante e 
encantador Maurice no  feito para sofrer. No veio ao mundo para 
sofrer. Foi educado para brilhar e ser motivo de inveja. E na verdade 
ele realiza as suas esperanas, no h homem mais acarinhado e mais 
festejado em Paris. Causa-lhe umas certas preocupaes, mas isso h-de 
passar. Tem bom corao e  estruturalmente honesto. Ver que ele se 
tornar ponderado quando for preciso s-lo.
	-	Obrigado, Valentin - disse Maurice, rindo. - Tu s sempre o 
mesmo bom rapaz que outrora me desculpavas quando eu fazia disparates, 
e que nos ltimos tempos tentaste repar-los quando eu passava as 
medidas. Tu s um slido e bom homem que eu aprecio do fundo deste 
corao que tu declaras ser bom, e que no fundo o , com efeito... Ah! 
Se toda a gente tivesse bom senso...
	Olhou para o pai, olhou para Raynaud, no terminou de exprimir os 
seus pensamentos e soltou um suspiro. Depois, voltando a mostrar os 
seus ares despreocupados, tirou um cigarro de uma cigarreira de ouro e 
acendeu-o. Deu um passo para Evans e com uma elegncia perfeita:
	-	Creio, senhor, que no partir bruscamente e que o meu pai 
e ns todos teremos o prazer de lhe fazer as honras a Beaumont. 
Conhece, sem dvida, a fbrica. Mas tem ainda de conhecer a 
propriedade. Temos excelentes terrenos de caa. Esta noite chegam de 
Paris uns amigos nossos e estamos a preparar uma chacina para amanh.
	-	Espero que seja dos nossos - reforou Prvinquires.
	-	Com prazer, se me quiserem aceitar como sou; um turista.
	-	Muito bem. Mas, antes de mais, quero apresent-lo  minha 
me e  minha irm.
	Evans e Raynaud entraram na sala, precedidos por Maurice. A 
senhora Prvinquires e a filha esperavam com certa curiosidade a 
anunciada visita do ianque. Rose vestira um lindo vestido de cambraia 
bordada cuja gola deixava ver o comeo do pescoo, rosado e branco. 
Ergueu-se rapidamente ao ver entrar o estranho e pareceu alta, 
esbelta, imponente, j mulher. Os cabelos eram louros, mas de um louro 
escuro, o que dava  carnao do seu rosto uma frescura maravilhosa. 
As mos, que pendiam ao longo da saia, eram brancas, difanas, com 
veias azuladas. Respondeu ao cumprimento de Ralph com uma ligeira 
inclinao de cabea e sorriu a Valentin. Nesse momento foi to 
adoravelmente bonita e expressiva que o americano no pde deixar de 
olhar para o amigo como para lhe dizer: eu compreendo-o. Valentin 
sorriu ao de leve e vendo Rose to encantadora baixou a cabea para 
no impor a si mesmo o suplcio de a desejar sem esperana. Mas a 
cruel rapariga pareceu adivinhar a resignao dolorosa do seu 
adorador. Aproximou-se dele e num tom de familiaridade afectuosa:
	-	Muito bem, Valentin, cumpriu a sua promessa de nos 
apresentar o senhor Evans. Sabe, senhor Evans, que ardamos em desejos 
de o conhecer. Disseram-nos tais coisas da sua temeridade, da sua 
inteligncia e da sua sorte nos negcios que se no tivesse vindo 
visitar-nos a Beaumont, no teramos perdoado ao senhor Raynaud.
	-	Pois bem, menina - disse com tranquilidade Evans. Eis o 
monstro em pessoa. Mas exagera a sua importncia.  bem pequena...
	-	No seu pas - interrompeu a Sra. Prvinquires -, onde os 
milionrios pululam. Mas na pobre Europa e sobretudo na nossa Frana, 
no pode de modo algum passar despercebido...
	-	Acredite - afirmou Rose - que ser aqui avaliado a peso de 
ouro. Com certeza que a fortuna  uma grande coisa e nos dias que 
correm no se pode passar sem ela. Mas no  tudo...
	-	Na Amrica, menina - replicou Evans -, a fortuna s tem 
valor pelo partido que se tira dela... Um homem rico que nada faa  
muito pouca coisa.
	-	Ouve bem isso, Maurice - interrompeu Prvinquires com ar 
de jbilo. - Eis em poucas palavras toda a minha
concepo da vida... A fortuna s deve servir de meio de aco. Nunca 
deixei de professar essa doutrina.  a regra da minha conduta.
	-	 tambm a da menina? - perguntou Evans com ar de 
ingenuidade.
	-	Oh! - exclamou alegremente Rose -, eu tenho opinies um 
pouco menos modestas do que as do meu pai. No sou to rigorosa, mas 
em princpio no tenho grande estima pelas pessoas que no servem para 
coisa alguma. No entanto, ser laborioso no  tudo a meus olhos. H 
outras qualidades que entram em linha de conta. Por exemplo, uma 
educao perfeita, o esprito, a bondade, o gosto e tantas outras que 
caracterizam o homem de sociedade que se pode desejar como companheiro 
da existncia...
	-	Como companheiro da existncia - repetiu Evans. Ah! Estamos 
portanto a apreciar as qualidades masculinas do ponto de vista 
matrimonial e , de certo modo, o programa do candidato perfeito que a 
menina Prvinquires acaba de formular.
	-	Se quiser - disse Rose despreocupadamente. - Mas no se 
admire, senhor Evans, que uma rapariga em Frana ligue tudo, ou quase 
tudo, ao casamento.  o assunto mais importante, o nico, que existe 
para ela.
	-	Sim, eu sabia isso. E estou muito interessado por aquilo 
que me diz. Posso, sem indiscrio, conversar consigo sobre esse 
assunto?
	-	Claro que sim - retorquiu Rose. - O que acabo de dizer no 
 novidade para os meus, eles sabem-no h muito. E se o diverte
fazer-me falar...
	-	Sim. Tudo isto  novo para mim. Segundo percebi, s um 
homem de sociedade lhe parece um candidato conveniente para uma 
rapariga na sua situao. Um bom rapaz, trabalhador e rico, mas sem 
relaes, no mundano, que tivesse apenas a sua honestidade, a sua 
inteligncia e a sua fortuna, no teria ento nenhuma possibilidade de 
ser aceite?
	-	Para dizer a verdade, creio que nem sequer se apresentaria 
como pretendente, por pouco tacto que tivesse. Desde o primeiro 
instante que perceberia no estar em harmonia com o meio em que se 
encontraria.  uma questo de atmosfera. No respiraria livremente e 
voltaria imediatamente para casa.
	-	Ento no poderia contar com nenhum favor, com nenhuma 
indulgncia, por parte daquela que o seu corao tivesse escolhido? As 
qualidades srias: a excelncia dos sentimentos, a solidez dos 
princpios, e, finalmente, um amor apaixonado, no poderiam faz-lo 
merecer um tratamento excepcional? A elegncia do seu vesturio, a 
graa do seu tom, a finura das suas maneiras e sobretudo os seus 
parentes, as suas amizades, tudo o que, como bem indicou, constitui o 
conjunto de uma situao mundana, sobrepor-se-ia aos dons preciosos 
que asseguram a tranquilidade material e garantem a felicidade?
	-	Ah!, senhor Evans - disse Rose -, torna-se muito 
embaraoso, e  difcil responder-lhe. Escolhe um exemplo romanesco, 
completamente inverosmil. Onde quer ir encontrar esse ideal, que alie 
todas as competncias do homem de trabalho com todos os requintes de 
corao do apaixonado? Mostram-nos isso no teatro, senhor Evans, ou 
nos livros. Mas esse ser admirvel existe ao natural? Os autores 
pretendem que sim, mas ser certo? O melhor, sabe,  no contar com 
essa ave rara e contentar-se com o pretendente possvel, que  aquele 
que eu h pouco lhe descrevi a traos largos.
	-	Vejamos! Est tudo dito - disse Evans, com um suspiro -, 
vejo que no se pode tentar faz-la mudar de programa.
	-	Com efeito, no  com raciocnios que se pode l chegar. 
Seria preciso um facto material violento. Uma desiluso completa, um 
grande desgosto.
	-	Oh, por fim - objectou friamente Evans -, a demonstrao 
absoluta e brutal de tudo o que h de fictcio e ilusrio nas 
vantagens que pe acima de tudo. Isso no tem qualquer possibilidade 
de suceder. No podemos assistir ao abrir dos olhos da menina 
Prvinquires sobre um novo caminho de Damasco. Ento, amigo Raynaud, 
apenas temos de marcar os nossos bilhetes e partir para a Amrica.
	Estas ltimas palavras pareceram confirmar a M. Prvinquires o 
verdadeiro sentido da conversa tida com Rose. Trocou com a mulher um 
olhar significativo. Evidentemente Ralph Evans tentara, sobre aquela 
que Valentin amava, uma suprema experincia ao faz-la declarar que o 
director da fbrica no tinha qualquer possibilidade de conseguir 
tocar-lhe o corao. A palidez de Raynaud, a tremura das suas mos 
eram uma prova irrecusvel de que a lio no tinha sido perdida e que 
tudo o que Rose dissera, sem o perceber, lhe chegara  alma. O 
americano forara-a brutalmente a explicar-se, e agora no havia mais 
dvidas: ela nunca aceitaria ser mulher de um antigo operrio, mesmo 
que ele tivesse uma inteligncia notvel e possusse j uma slida 
fortuna. Valentin compreendera-o e a partir da tinha apenas uma 
ideia: sair daquela sala, onde se sentia asfixiar, afastar-se daquela 
rapariga cruel que lhe mostrara to subtilmente o seu desdm, sair 
para o ar livre, para a solido, para dar curso ao seu desespero e  
sua clera. Mostrou-se com um ar to doloroso que Ralph compreendeu 
que era preciso abreviar a visita. Levantou-se, cumprimentou a Sra. 
Prvinquires e agradeceu-lhe o amvel acolhimento.
	-	Sabe, senhor Evans - disse ento Rose -, que amanh 
contamos consigo e com Valentin. Vamos ter como convidados essas 
pessoas da sociedade s quais parece desprezar, e no fundo talvez com 
razo, mas desejo que os possa observar com toda a liberdade. Depois, 
se quiser, poderemos voltar a falar. Gosto da sua franqueza e da 
clareza com que fala.
	Apertou a mo ao americano e Evans saiu com Raynaud pela porta 
que dava para o jardim. Uma vez ss e ao ar livre, caminharam de brao 
dado ao longo do pequeno canal de derivao. Depois Ralph, olhando o 
amigo, disse:
	-	Bem, a lio foi completa.
	-	Ah!, a cruel! Como ela pde revolver o ferro na ferida?
	-	Cruel! Porqu? Ela no sabia que o estava a magoar. Ignora 
completamente os seus sentimentos. Quer que eu leve mais longe a 
aventura e lhos revele?
	-	Ah, no. Nunca. Sofreria demasiadamente se tivesse de 
encarar a recusa dela.
	-	O que  que lhe prova que seria uma recusa?
	-	Tudo o que ela disse e que eu sabia antecipadamente e que 
est bem conforme com as ideias do seu meio e daqueles que a rodeiam. 
No, Evans, no h esperana. Nunca casar com o filho de um antigo 
contramestre que ela viu vestido com a bata azul de trabalho, como um 
operrio...
	-	Tanto pior, meu caro, tanto pior para ela. Mas no tanto 
pior para si. Creia que observei bem essa jovem durante a hora que 
acabmos de passar junto dela. Pois bem, trata-se de uma menina 
estragada com mimos que pode vir a ser muito infeliz se as 
circunstncias no a favorecerem completamente, e tornar muito infeliz 
aquele ou aqueles que estiverem ligados a ela. Penso que se trata de 
uma linda potra que sempre galopou livremente na pradaria e que ir 
rebelar-se quando sentir os freios para a conduzirem a um passo 
diferente do adoptado por ela at aqui. Acho que  bom no ser voc a 
passar por essa experincia. Poder ser difcil e h grandes riscos a 
correr. Para sair bem da aventura, ser preciso uma mo de ferro. Voc 
no a teria. E mesmo que a tivesse recearia fazer mal  bela exaltada. 
Deixe isso, meu caro Valentin, pense noutra coisa, se pode. E se no 
pode, lamente-se. H quem diga que isso alivia e eu estarei sempre  
sua disposio para o ouvir.
	-	Estou mais preocupado com ela do que comigo, pois
asseguro-lhe, Evans, que prevejo um futuro muito ameaador para essa 
pobre rapariga to cheia de ideias erradas. Ela  de tal modo 
orgulhosa e delicada que qualquer decepo a esmagar. Pense no que a 
espera na vida. Preferia sofrer cem vezes mais para que ela fosse 
feliz!
	-	Pode desej-lo, caro amigo, mas s suceder o que o destino 
tiver decidido. Se a menina Prvinquires tiver de sofrer por causa 
dos seus preconceitos, no ser o que voc pensar sobre o assunto que 
ir alterar qualquer coisa. Alm disso, se pensa vir um dia a captar 
esse esprito e esse corao que agora lhe escapam, s o poder 
conseguir devido s provaes que a sua bela bem-amada ter de passar. 
O navio s entra no porto depois de ter sido batido pelo temporal. 
Nessa altura, se ainda a desejar para si, ser o seu piloto e ajud-
la- a chegar a bom porto.



Captulo terceiro

	-	Ento, senhor Prvinquires, vamos danar... a no ser que 
se encontre muito fatigado.
	-	Estou sempre pronto, condessa, quando se trata de lhe 
provar a minha obedincia.
	Rindo, Maurice ofereceu o seu brao  condessa Grodsko, e como a 
Sra. Prvinquires atacasse uma valsa, ajovem senhora e o filho dos 
donos da casa comearam a danar.
	No salo dos Prvinquires, nessa noite, estava reunida uma 
numerosa sociedade. Os casteles dos arredores tinham-se juntado aos 
parisienses como convidados dos Prvinquires. Todos se conheciam. As 
festas sucediam-se nesse recanto da provncia e os caadores 
encontravam-se quase sempre nas mesmas caadas. O baro Trsorier, 
agente de cmbios, falava com Termot, famoso atirador, que levara to 
longe em Frana a arte do tiro em batida como Lrd Grey em Inglaterra. 
La Brde e Du Tremblay, excelentes caadores sem os quais no havia 
boas caadas em Beaumont, descansavam da batida desse dia, quando 
Rose, dirigindo-se para eles com ar deliberado, os intimou a 
levantarem-se para irem danar com as filhas do procurador da 
Repblica, que desejavam valsar.
	La Brde suspirou e levantou-se com ar resignado. Quanto a 
Tremblay esboou um gesto de resistncia:
	-	O qu? Depois de acabar de jantar? Nem me deixa descansar 
um bocadinho! Cinco horas a caar e a plancie  vasta! Apanhmos 
duzentas e cinquenta perdizes e nem podemos trocar a perna depois do 
jantar. Vou pedir honorrios a seu pai, risonha criana!
	-	Veja o marqus de Condottier, que j se impacienta  minha 
espera!
	-	Tambm eu me impacientaria se a esperasse a si, mas est-me 
a pedir para eu ir danar com a filha do procurador. Bem, estou aqui 
para trabalhar, no ? Vamos a isso!
	-	Porque se cansa a falar? Bem sabe que ter de obedecer!
	-	Estou a ganhar tempo!
	O belo Condottier, de p no meio do salo, esperava, com efeito, 
Rose e passeava sobre a assistncia um olhar de triunfo. Julgava-se 
prestes a conseguir que a Sra. Prvinquires desse uma resposta 
favorvel s suas pretenses. Pressionara-a de tal modo, suplicara-lhe 
to ardentemente que a julgava quase convencida. O jovem marqus era 
na verdade um cavalheiro admirvel. Tudo o que a elegncia pode juntar 
ao encanto e  graa natural, obtinha-o ele com a sua maneira de 
trajar. Ningum se vestia como ele, nem usava uma redingote de forma 
indita, nem lanava a moda de um novo modelo de calas com a arte de 
impor o seu gosto. Delgado, alto, gil, moreno, com olhos lnguidos, 
dentes deslumbrantes sob o bigode erguido nas pontas, era bem o 
prncipe dajuventude. Uma mulher que quisesse reinar sobre a moda no 
podia escolher um companheiro mais apto a assegurar a sua supremacia.
	Dirigindo-se para ele, depois de ter posto em movimento os dois 
amigos do pai, Rose dizia essas coisas de si para si. E no sem uma 
certa satisfao, ela olhava para esse soberbo rapaz que, debaixo do 
lustre, no meio do salo, parecia to  vontade, to bem colocado para 
ser admirado, de modo que o seu isolamento era um sinal de 
superioridade. Estendeu-lhe a mo com um sorriso, agarrou-a pela 
cintura, segurando-lhe com uma fora acariciadora no brao direito, e 
arrastou-a ao ritmo caprichoso da valsa.
	Sentado junto de uma janela, perto de um homem ainda novo com o 
qual conversava, Prvinquires mostrou ao seu interlocutor o jovem 
par:
	-	So verdadeiramente bonitos, aqueles dois...
	-	Ah! Ento admite-o?
	-	Meu caro baro, eu no sou cego, mas tambm no me deixo 
cegar! Aquele rapaz  muito gentil, mas no me agrada como genro!
	O baro Folentin de Rocher fez uma careta significativa:
	-	Sei bem que o senhor  um homem srio, como eu o sou 
tambm. Mas isso no impede que Condottier seja excessivamente 
sedutor. O senhor mesmo reconhece que formam um par 
extraordinariamente belo.
	-	Ah! A minha filha tambm conta para isso!
	-	Sem dvida! A menina Prvinquires , no seu gnero, to 
brilhante como o marqus. Formariam um casal admirvel...
-	Ao qual seriam necessrios dois mil francos de renda para viver. 
E mesmo assim fazendo dvidas...
-	As dvidas seriam pagas por si! E quanto aos quatrocentos mil 
francos...
	-	Alto! Folentin, voc toma-me por um louco!  certo que 
possuo uma bela fortuna. Voc conhece-a bem, pois  o meu banqueiro. 
Mas, mesmo assim, no tenho meios para manter uma segunda casa to 
dispendiosa como a minha. Tenho um filho que, enfim, no  o cmulo da 
sensatez e que me custa muito caro...
-	Ento, ento, senhor Prvinquires, no tente enternecer-me. Sei 
que no gasta os seus rendimentos e que todos os anos aumenta o seu 
capital. Os negcios so excelentes...
	-	Ah! Mas Valentin Raynaud vai-se embora!
	-	Com aquele americano que me apresentou h pouco e que atira 
to bem?
	-	Sim, com o senhor Ralph Evans...
	-	 um bom rapaz, esse Raynaud, mas a sua fbrica j 
funcionava bem antes de ele a dirigir. Continuar a funcionar bem 
depois de ele ter partido.
	-	Ser o seu Condottier que se encarregar de a fazer 
funcionar?
	-	Com certeza que no! Mas o meu Condottier, como diz,  um 
rapaz gentil que vale mais do que pensam dele e que tem uma irm 
encantadora...
	-	Ento, Folentin, eu no quero saber as suas histrias de 
amor...
	-	Oh, no acredite nisso. A condessa Grodsko... Nem sequer 
pensei nisso. J passei a idade em que essas mulheres me 
impressionavam...
	-	Que idade tem voc, Folentin?
-	Trinta e seis anos...
-	E  um celibatrio endurecido.
	-	Enquanto no tiver encontrado a mulher dos meus sonhos.
-	Como  ela?
	-	Ser bem embaraoso diz-lo. Para falar com sinceridade 
ainda no encontrei aquela por quem eu gostaria de perder a minha 
liberdade.
	-	 amvel para a minha filha, o que diz.
	-	Dar-ma-ia?
	-	Comece pelo menos por ma pedir.
	-	Diabo, no era precisamente isso o que eu ia fazer.
	-	E o que  que se prope fazer?
	-	Uma diligncia muito delicada junto da menina 
Prvinquires.
	-	Ele pediu-lhe para servir de intermedirio?
	-	Isso mesmo.
	-	Ele no  suficientemente crescido para falar por si?
	-	Esteja descansado que elej falou, em todos os tons e em 
todas as circunstncias. Veja-o a danar com a sua filha nos braos. 
De que quer que falem, a no ser de amor?
	-	Ento?
	-	Ento? Parece que a menina Rose fala, ri, graceja, graceja 
mesmo demasiado, segundo pensa o meu amigo, mas que no se decide a 
aceder s propostas que ele lhe faz. Em resumo, em desespero de causa, 
e antes de fazer uma diligncia oficial, junto de si, Condottier 
deseja que um homem srio, de quem no possam rir na cara, enfim, eu, 
fale durante alguns minutos com a sua filha.
	-	Muito bem. Deseja a minha opinio, Folentin? Voc vai ser 
repelido. A minha filha  uma rapariga muito inteligente que j 
recusou partidos admirveis e que no se deixar levar por um jovem 
senhor como o marqus. Pronto, a valsa chegou ao fim. O momento  
perfeito. V ter com a minha filha, meu amigo, e desempenhe-se da sua 
incumbncia. Seja eloquente. A condessa Grodsko lho agradecer!
	-	Ainda? Mas no tem importncia. No h ofensa, como se 
costuma dizer.
	Folentin erguera-se. Dirigiu-se para o meio do salo, onde Rose 
se encontrava no meio de um grupo, um pouco rosada pela dana, 
abanando-se com um grande leque de rendas e fazendo voar os caracis 
louros frisados sobre a testa.
	-	Vem convidar-me para danar, senhor De Rocher? - perguntou 
alegremente Rose, fazendo uma reverncia ao baro.
	-	Eu convid-la-la para danar, como qualquer outro, menina 
Rose - replicou Folentin -, se pensasse que poderia tirar da o mais 
pequeno prazer, mas vejo que mobiliza completamente os jovens. Eu 
perteno  reserva territorial.
	-	Sabes, Folentin - disse La Brde -, ns somos ainda da 
primeira convocao! Se a ptria estivesse em perigo, tnhamos apenas 
de arranjar a nossa mochila para voarmos para a fronteira.
	-	Ns no somos antepassados - disse Tremblay. - Mas a 
verdade  que estes senhores so garotos!
	-	E sentem-se bem assim - replicou Condottier.
	Gracejando, Folentin agarrara na mo de Rose e passara-a por 
baixo do seu brao, levand-a assim para a sala pequena.
	-	Qual  o seu objectivo ao afastar-me assim de todos? - 
perguntou Rose.
	-	O de lhe falar a ss, se no se ope a isso.
	-	Que gravidade! O senhor  mesmo protocolar!
	-	Nada de palavras caras - disse Folentin, rindo. - Oua-me 
que vale a pena. Venho da parte de Condottier.
	-	Oh, oh, ele era menos solene que o senhor, h instantes, 
enquanto danvamos.
	- Foi por ter delegado em mim os seus poderes para ser srio.
	-	De que vai ento falar-me?
	-	Do amor dele e do projecto que tem de fazer de si sua 
mulher.
	-	Muita coisa - replicou Rose um pouco embaraada. - Em 
relao ao amor dele, pareceu-me j ter ouvido tudo quanto seria 
possvel ouvir. Quanto ao seu projecto...
	-	Um  consequncia do outro.
	-	Para ele. Mas para mim?
	-	O qu! S quis ento "flirtar" com esse bonito rapaz? E no 
tinha qualquer pensamento reservado quando o encorajava a fazer-lhe a 
corte?
	-	Encorajava? Acha que eu o encorajei? O que  que entende 
por isso?
	-	Ah!  um pouco complexo, confesso. Mas segundo afirma o 
marqus, nada fez para o afastar de si, pelo contrrio!
	-	Eis um "pelo contrrio" muito ambicioso e bastante 
impertinente! O tratamento que dei ao marqus foi diferente do que dei 
aos outros que se mostravam meus pretendentes como ele? Ele foi, como 
nos tratados de comrcio, o da nao mais favorecida, nada mais. O que 
 que ele acha ento de to excitante para ele?
	-	Ele est completamente apaixonado, no lho esconderei. Eu, 
que o conheo bem, digo-lhe que nunca o vi num estado to violento. 
Acrescentarei que o considero incapaz de ficar assim.
	-	Pois bem. Que continue!
	Folentin teve um sobressalto. Olhou Rose com os olhos abertos de 
espanto.
	-	O qu?  esse o seu estado de esprito?
	-	Na escola modernista diz-se a alma - retorquiu alegremente 
a jovem.
	-	 que no a acho nada comovida.
	-	No vale a pena!
	-	Que decepo para Condottier. Ele julgava-a...
	-	Mais inclinada para a benevolncia? Enganou-se.
	-	Ele no  o seu ideal?
	-	De modo algum.
	-	No poder melhorar essa situao?
	-	No tem meios para isso.
	-	Que lhe seria necessrio para os ter?
	-	Tudo o que lhe falta: seriedade, uma posio de fortuna, 
futuro. No, baro, vejamos, examinemos o marqus.  encantador, de 
acordo, mas  um gigolo!
	-	Gigolo! - repetiu Folentin, perturbado.
	-	No  assim que se chamam - disse suavemente Rose - os 
rapazes bonitos que tm bom acolhimento junto das damas, mas a que no 
pedem responsabilidades? No se escandalize de me ver to bem 
informada. Que quer? Tenho um irmo, um padrinho e mesmo um pai que 
falam na minha frente e eu no sou surda, nem... Enfim, sei de muitas 
coisas que me esclarecem sobre a situao do senhor Condottier e me 
provam abundantemente que ele no , mas de maneira nenhuma, o homem 
com quem eu devo casar. Talvez seja mesmo o oposto!
	-	Ah! Ah! - disse Folentin, que mudou de atitude e cuja voz 
traiu subitamente um comeo de emoo. -  muito curioso o que me diz, 
menina Rose, muito estranho mesmo! No a julgava to firme nas suas 
resolues, nem sobretudo to deliberada. Isso altera singularmente 
tudo. E, sem abusar da sua complacncia, poderia pedir-lhe que me 
explicasse, de uma maneira mais completa, que tipo de homem poderia 
aspirar  sua mo?
	Enquanto falava, ia observando ajovem com toda a ateno de homem 
de negcios perspicaz. Depois acrescentou com vivacidade, como para 
diminuir a importncia da questo:
	-	Compreende que preciso de dar a Condottier algumas boas 
razes, visto s ter isso para lhe apresentar.
	-	Oh, -me muito fcil satisfaz-lo. Basta-me repetir o que 
disse ao senhor Evans, cujo interrogatrio foi quase semelhante ao do 
senhor...
	-	Sim?  curioso! Teria ele um pensamento reservado?
	-	Ignoro-o, mas a falar verdade no o creio. No!  um 
estrangeiro que estuda os nossos costumes e que queria informar-se, 
junto de uma rapariga disposta a falar, sobre a maneira de pensar das 
jovens em idade casadoura... Pelo menos foi o que me pareceu.
	-	E que lhe revelou?
	-	Nada de espantar. Ele deve ter-me achado um pouco tola 
porque logo a seguir foi-se embora. Declarei-lhe que s casaria com um 
perfeito homem de sociedade, com uma bela fortuna, gosto, esprito, 
uma educao perfeita e muitas relaes. O senhor Evans olhou-me com 
pouca estima e li nos seus olhos que me tomava por uma leviana. E 
pronto.
	Folentin pareceu ficar pensativo, depois disse:
	-	Fala-me apenas das suas qualidades morais. E como teria de 
ser fisicamente o candidato escolhido por si?
	-	Oh, no me interesso pela beleza. Bastar-me-ia que no 
fosse feio, que tivesse um ar distinto e nada mais.
	Folentin empalideceu um pouco, pareceu ter dificuldade em engolir 
e depois de fazer um esforo conseguiu acrescentar: - e quanto  
idade?
	-	A idade? Oh, isso dependeria da situao do pretendente.  
muito raro que um homem possa mostrar o que vale antes dos trinta 
anos.
	-	No  verdade? - perguntou Folentin, cujo rosto se 
iluminou. -  uma rapariga que compreende a vida! Que  um homem antes 
dos trinta... trinta e cinco anos de idade?
	Deitou um olhar a Rose, de soslaio. Ela no tinha protestado. No 
quis levar mais longe o seu exame de conscincia, e disse com 
jovialidade:
	-	Compreendo agora porque Condottier no teve nunca qualquer 
hiptese. Sim, o seu esprito lcido e firme d-se conta das 
necessidades sociais, para poder dar algumas esperanas a um belo 
rapaz, que no passa disso. Mas se encontrasse um pretendente que 
correspondesse ao seu programa, mais ou menos, porque a perfeio no 
 deste mundo, gostaria que ele se apresentasse?
	-	Como  isso, baro? O senhor, um celibatrio ferrenho, vai 
recrutar adeptos do casamento? Isso  conforme com os seus princpios? 
O casamento, mau para si,  no entanto bom para os outros?
	-	Quem me pintou a seus olhos com cores to falsas? - 
perguntou Folentin com um olhar lnguido. - Se fiquei solteiro foi 
porque nunca encontrei uma mulher que me agradasse. Mas considera-me 
fora do jogo?
	Rose colocou-se diante dele e observou-o com uma ateno cmica. 
Depois, fazendo um gesto de aprovao:
	-	Apto para o servio! Mas no tenha iluses, baro, est no 
limite.
	-	Ah! mas no do lado mau?
	-	No!
	-	Isso basta-me!
	Segurou a mo de Rose, passou-a novamente por baixo do brao e 
com passos firmes e triunfantes voltou a entrar no salo, onde as 
danas acabavam de recomear.
	No dia seguinte, quando o marqus saiu dos aposentos que ocupava 
na ala direita do castelo de Rocher, ao lado da irm, a condessa 
Grodsko, dirigiu-se para o gabinete onde o seu anfitrio trabalhava 
todas as manhs com o seu secretrio. As janelas encontravam-se 
abertas sobre o parque, e o gabinete estava vazio. Condottier, vendo 
um jardineiro que preparava um cesto com rosas, perguntou se o baro 
tinha sado.
	-	Sim, senhor marqus - respondeu o homem. - E saiu cedo. Foi 
com certeza a Tours. Vai voltar para almoar, pois o carro no 
apareceu...
	-	Muito bem - disse Condottier.
	Acendeu um cigarro, desceu para os magnficos jardins que se 
estendiam desde a fachada do castelo at aos terraos em socalcos das 
margens do Loire. Dali v-se um magnfico panorama do rio, prateado, 
que passa pelo vale verdejante e florrido, cercado de colinas coroadas 
de grandes bosques, no meio dos quais se vem, aqui e ali, os telhados 
pontiagudos e os torrees brancos das grandes manses senhoriais. No 
h regio mais frtil, mais ridente, com tantas manses, que so 
verdadeiras maravilhas da arquitectura antiga, enquadradas numa 
paisagem magnfica.  nesse jardim da Frana que a doura da vida se 
manifesta pela fluidez do ar, pela carcia do sol, pelo perfume dos 
campos.
	Caminhando sobre a areia tpida, ao longo das alamedas do jardim 
cheio de flores, Condottier sentia-se invadido por um langor que 
emanava do encanto das coisas. Esse parisiense deixava vaguear o seu 
olhar complacente sobre a beleza do local e fumando com uma grande 
sensualidade, no meio daquela natureza esplndida e poderosa, foi 
encostar-se  balaustrada de pedra olhando para o rio, onde os barcos 
passavam lentamente puxados por parelhas cujos guizos ritmavam a 
marcha pesada. Deixou-se ficar assim por uns momentos, com as costas 
ao sol, sonhando, num atordoamento maravilhoso, sentindo a frescura da 
brisa e o silncio do bosque. Sob os seus olhos, na confluncia do 
Vesgre e do Loire, via-se sair o fumo das altas chamins da fbrica de 
Beaumont, e mais adiante, num macio de rvores, comeo dos bosques 
que se estendiam at Blois, o telhado de ardsia do castelo de M. 
Prvinquires brilhava como uma lmina de prata. Condottier pensou em 
Rose e imaginou-a a percorrer  mesma hora o belo jardim e talvez a 
pensar nele. Voltou a v-la em pensamento tal como ela estava na 
vspera, animada pelo prazer da dana, desejosa de agradar e fugindo 
s suas declaraes, quando ele se esforava por lhe jurar que a 
amava. F-lo-ia por vaidade de mulher segura do seu poder ou por temor 
de revelar o seu segredo? No se mostrara to comovida como ele 
desejara, quando ele exibira todas as sedues de belo rapaz habituado 
ao triunfo. Demasiado despreocupada, por de mais alegre, sem 
suficiente gravidade, Condottier perguntava a si mesmo se devia estar 
to seguro dela como lhe dizia a irm, a condessa Grodsko. Quando, na 
vspera, perguntara a Folentin o resultado da sua entrevista com Rose, 
este respondera evasivamente:
	-	Estou a cair de cansao, se quer falaremos disso amanh de 
manh. Tenho muito a dizer-lhe.
	Durante os vinte minutos de trajecto de Beaumont a Rocher, o 
baro dormitara no fundo da carruagem, sem se preocupar com a condessa 
que ia sentada a seu lado, e, em vez de se apressar a pr o amigo ao 
corrente do que tanto lhe interessava, partia logo de manh, parecendo 
preocupar-se apenas com os seus negcios pessoais. O que  que 
significava aquele desinteresse e que auguraria ele?
	Dava o meio-dia quando o tilburi de Folentin surgiu diante dos 
portes do castelo. Com uma ligeireza juvenil, o baro saltou para a 
areia, enquanto o escudeiro segurava o cavalo. A condessa Grodsko 
apareceu no alto das escadas para receber o dono da casa. Este beijou 
a mo branca que se estendia para ele, e dando uma palmada amigvel no 
ombro de Condottier:
	-	Passaram uma boa noite depois das fadigas de ontem? Tive de 
sair quando ainda dormiam, porque fui chamado a Tours por causa de um 
negcio muito importante. Ao mesmo tempo tratei de outro... Creio que 
o senhor Bricard vai finalmente ceder-me um pequeno bosque que faz 
enclave no meio dos meus terrenos de caa... Mas venham... enquanto 
almoamos conto-lhes tudo isto... Confesso que morro de fome...
	O irmo e a irm trocaram um olhar entre si. A volubilidade de 
Folentin, o cuidado que ele tinha em demorar a dar-lhes notcias que 
lhes eram totalmente indiferentes em vez de abordar a questo 
essencial que abordara com a menina Prvinquires, tudo isso lhes 
inspirava suspeitas.
	Acompanharam-no at  casa de jantar e a, bem instalados, depois 
de as criadas terem levado o primeiro prato, a condessa perguntou:
	-	Ento, caro amigo, no nos contou nada do que resultou da 
sua interveno junto da bela Rose. No pde, durante o tempo que 
esteve a conversar com ela, conseguir fazer-lhe dizer o que ns 
tnhamos tanto interesse em saber?...
	Foletin pareceu engolir com dificuldade. Seria a torrada com 
caviar ou o que a condessa Grodsko acabara de lhe perguntar que o 
incomodava mais? Baixou os olhos para o prato, tomou um ar compungido, 
bebeu um grande gole e por fim, como se se decidisse:
	-	Devem estar admirados por eu ter tido pouca pressa em lhes 
dar contas da minha misso... pois se tratava de uma autntica 
misso...
	-	Diplomtica -, interrompeu Condottier -, e com plenos 
poderes para a realizar.
	-	Tratar... tratar... com uma pessoa to imaginativa como  
fcil!
	-	Foi ento repelido de mau modo?
	-	De modo algum. Ela mostrou-se at muito graciosa!
	-	No quis dar-lhe ouvidos?
	-	Ouviu-me, sim. Prestou-me at toda a ateno.
	-	Sobre o assunto que decidiu abordar?
	-	Sobre esse mesmo assunto.
	-	Ento deu-lhe uma resposta?
	-	Categrica. Mas que o no satisfar.
	-	Ela recusa ento tornar-se minha mulher?
	-	Peremptoriamente. Cobrindo ao mesmo tempo de flores aquele 
em cujo nome o pedido lhe foi feito.
	-	Bela coisa!
	-	No  verdade? Foi a derrota clssica: voc  agradvel de 
ver, encantador, tem um carcter alegre, um humor amvel,  o tipo de 
homem feito para lhe agradar... tudo isso... mas no ser sua mulher.
	-	E a razo? A razo que ela d? Deve haver alguma, no?
	-	D mesmo vrias.
	-	Isso  demasiado - interrompeu a condessa Grodsko -, uma 
bastaria.
	-Bem... o marqus no tem posio...
-	 evidente. No faz comrcio.
	-	No possui fortuna.
	-	Se a tivesse, no seria a herdeira de um fabricante de 
mquinas agrcolas que ele procuraria, mas uma filha da nossa 
categoria social...
	-	Os seus gostos no permitem esperar que ele consiga vir a 
ter uma situao criada pelos seus prprios meios.
	-	Que significa isso? Que no arranjar um lugar de deputado 
para ir para essa capoeira a que chamam o Palcio Bourbon? H com 
efeito grandes possibilidades de ele no se resignar a isso. Mas
poder-se- chamar ter uma situao, exercer uma profisso de malfeitor 
pblico? Ento tudo  profisso, desde fabricar moeda falsa a assaltar 
diligncias!
	-	Condessa, torna-se amarga.
	-	O mais evidente em tudo isso - disse Condottier com 
melancolia -  eu no lhe agradar.
	-	Agrada-lhe, mas no como marido!
	-	Ento como qu? - perguntou o marqus com vivacidade.
	-	Como danarino, como camarada, como flirt- respondeu 
Folentin. - Nesses aspectos no tem rival e triunfa.
	-	Sinto-me muito lisonjeado. Servi para distrair, durante um 
Inverno inteiro,  menina Rose Prvinquires, assegurei a sua 
supremacia sobre uma centena de outras jovens to encantadoras como 
ela, peguei-lhe nas luvas e no leque nos sales, na sombrinha durante 
os passeios, tudo isso para chegar a este resultado e ser despedido 
como um criado cujo servio deixou de agradar. Muito bem. So contas 
que tero de se ajustar entre essa bela e eu. Ela no me far 
impunemente uma tal ofensa!
	-	Marqus!
	Folentin via com inquietao que Condottier ficara plido de 
clera. Este moderou-se instantaneamente e, esforando-se por sorrir, 
disse numa voz j mais calma:
	-	No receie que eu lhe faa mal. Nem mesmo que eu fale dela 
com maldade. Isso seria indigno de mim. Mas dou-lhe a minha palavra de 
que me vingarei dela.
	-	Como?
	-	Isso, Folentin,  comigo.
	-	Quer um conselho? No se meta com essa jovem. Ela  mais 
forte que voc.
	-	Que lhe contou ento ela - perguntou a condessa Grodsko - 
para que lhe merea tanta estima?
	-	Ah! Ela explicou-me as suas ideias sobre a vida, os seus 
gostos, as suas ambies, as suas esperanas.  um esprito superior!
	-	Parece que o programa dela est de acordo com o seu - disse 
a condessa com um olhar desconfiado.
	O entusiasmo de Folentin desapareceu como por encanto. Arvorou um 
ar de indiferena, mas que no era de molde a enganar uma pessoa to 
astuta como a condessa Grodsko. Nas explicaes do baro e nas suas 
reticncias, a irm de Condottier notara desde o incio algo que soava 
a falso. Tinha a sensao de que o amigo os enganava, e que o papel 
que ele desempenhara no fora exactamente aquele de que o tinham
encarregado. Empenhados como estavam todos os trs no assunto, no era 
admissvel que a situao no fosse esclarecida. A condessa no deu 
tempo a Folentin para arranjar uma desculpa. Mal o deixou respirar.
	-	No lhe teria ela dito, por acaso, que no achava 
impossvel sacrificar as vantagens da pessoa  importncia da sua 
situao? Rose nunca se importou de dizer em frente de toda a gente 
que  assim que pensa. Eu tentei por vrias vezes faz-la compreender 
que a unio de uma rapariga com um homem maduro no  aconselhvel.
	-	E a condessa no casou, aos vinte anos, com um homem com o 
dobro da sua idade? - perguntou Folentin com um certo azedume.
	-	 isso que me permite falar com conhecimento de causa e 
citar-me como exemplo.
	-	No interesse do seu irmo!
	-	Naturalmente. No devia ser no interesse do gro-turco... 
Folentin, esta manh acho-o muito estranho, meu caro, no lho escondo. 
E fala deste assunto com uma tal vivacidade que pode levar a pensar 
que tem ideias que nos no quer revelar.
	-	Eu? - exclamou o baro, tornando-se escarlate.
	-	Sim, o baro! Em vez de tomar o partido do meu irmo, 
parece apoiar a menina Prvinquires. Deixa de ser o defensor de um 
para se tornar o aliado de outro... Ter voc feito um jogo duplo, 
Folentin? Tendo ido falar com Rose para defender os interesses do 
marqus de Condottier, ter decidido defender os do baro de Rocher?
	-	No! No! Nada disso - replicou o baro com energia. - Agi 
de boa-f. Pensava apenas em tratar do casamento de Condottier com a 
menina Prvinquires. Falei apenas dele. Mas fui categoricamente 
repelido...
	-	No ter querido saber se o que era recusado para o meu 
irmo no poderia ser obtido para si?
	-	Dou-lhes a minha palavra de honra que no.
	-	E isso no lhe ter sido oferecido?
	-	Ainda menos! Meu Deus, que esto a supor?
	-	Confesse, no entanto, que nessas famosas ideias sobre a 
vida havia algumas que se aplicavam exactamente ao seu caso 
particular.
	-	No o negarei.
	-	Est a ver!
	-	Mas note que nesse momento Condottier j estava fora do 
jogo. J se vira que ele no tinha qualquer possibilidade. E conceber 
esperanas pessoais no  trair.
	-	Folentin! - gritou com violncia o marqus, intervindo aps 
um longo silncio, em que estivera a observar o baro.
- Pensou, por um s momento sequer, em casar com a menina 
Prvinquires?
	-	Mas, caro amigo -, balbuciou o baro, perplexo.
	-	Responda claramente ou arrepender-se-!
	-	Ameaa-me?
	-	Sim, e tome cuidado se tentar enganar-me!
	Olharam-se um instante, perturbados pelo caminho que tomavam as 
coisas. Mas Folentin em breve recuperou o seu aprumo, e, apoiado no 
seu orgulho, no sentimento da sua superioridade e na confiana da sua 
grande fortuna, declarou:
	-	Eu nada disse, nada declarei, nada pedi, mas percebi pelas 
afirmaes da menina Rose que ela no hesitaria em dar-me a sua mo, 
se eu lha pedisse.
	-	Seria capaz de o fazer?
	-	Na verdade, caro amigo, hesito muito. Penso que tenho 
trinta e seis anos e que o casamento  um assunto muito srio. No 
entanto, a menina Prvinquieres  to sedutora e parece-me to 
razovel...
	-	No pense nisso. Vai ver o que lhe sucede. Voc no tem 
foras, Folentin, para casar com umajovem como aquela. Ela seria capaz 
de meter trs como voc no bolso. E sem parecer. Tenha cuidado.
Trata-se da sua tranquilidade, da sua sade, talvez mesmo da sua vida.
	-	Considera-me ento com to pouca resistncia?
	-	Penso que voc no duraria dois anos! Sem falar dos 
inconvenientes que teria de suportar durante esse lapso de tempo.
	-	Acha a menina Prvinquires capaz de enganar o marido?
	-	Isso depender daquele que com ela casar. Voc j no e 
novo, Folentin, toma grandes precaues para no engordar. Consegue 
ter boa aparncia, mas  custa de grande sacrifcio.
Mas ao natural est por assim dizer depenado. A acne ameaa-lhe o 
nariz...
	-	Mas voc deteriora-me de uma maneira feroz! - exclamou o 
baro. - Podia ao menos esperar que a condessa no estivesse presente!
	-	Acredite que ela no tem a mais leve iluso a seu respeito 
desde a altura em que comeou a cortej-la. Nathalie, diz-lhe o que 
pensas dele...
	-	Meu caro baro - disse a condessa Grodsko -, o senhor est 
a procurar desastres. Acredite que no  o homem adequado para 
caminhar na vida ao lado da encantadora Rose. Tenho grande amizade por 
si e conservo uma recordao comovida de todas as propostas desonestas 
que me tem feito...
	-	Mas, condessa... - interrompeu Folentin, com inquietao, 
indicando o marqus.
	-	O meu irmo conhece desde h muito as suas propostas. Mas 
sabe tambm que no teriam consequncias...
	-	No entanto... - protestou o baro, humilhado.
	-	Meu caro amigo, voc  muito amvel, um anfitrio 
agradvel, com belas coutadas, um mali com belos cavalos, que voc de 
resto conduz mal...
	-	Eu! - exclamou o baro, muito irritado, pois tinha grandes 
pretenses desportivas.
	-	Sim, voc. No nos ia fazendo virar na descida de
Saint-Cloud?
	-	Foi um dos cavalos que ficou sem uma ferradura!
	-	Em todo o caso, se no fosse o seu cocheiro deitar a mo s 
rdeas teramos ido todos para o fosso. Mas isso no  nada. Seria 
preciso ver como o baro conseguiria conduzir a sua unio conjugal. 
No creio que uma mulher possa lev-lo a srio, mesmo que seja uma 
mulher legtima... Sei que tem um amor-prprio excessivo e foi por a 
que a menina Rose o apreciou. Mas ser tambm por a que ela o far 
sofrer excessivamente.
	-	Nada est concludo. Ainda no me declarei. Tenho tempo 
para pensar.
	-	L chegar! Pelo que teve a coragem de fazer ao meu irmo, 
ao seu amigo, que confiava em si, v-se que  capaz de tudo. Mas no 
far um bom negcio, sou eu que lho digo, e ainda h-de sofrer com 
isso.
	-	E eu, Folentin - disse o marqus -, depois da maneira 
culposa como procedeu contra mim, julgo-me autorizado a tirar sobre si 
uma desforra...
	-	E qual?
	-	No disse impunemente que a menina Rose me achava 
encantador como flirt. Veremos o que pensar disso a baronesa de 
Rocher.
	-	Meu caro - replicou Folentin com uma audaciosa importncia 
-, esteja tranquilo. Se casar com ela, velarei. Conheo o mundo, tenho 
experincia da vida. E toda a gente sabe que no se engana Folentin! - 
Voltou-se para a condessa e acrescentou com galanteria: - V, no 
esteja zangada comigo. No tenho qualquer culpa do que est a suceder 
ao seu irmo. V que eu recebo as ameaas dele com um sorriso. 
Fiquemos bons amigos, como pessoas de esprito que somos. Seria 
absurdo zangarmo-nos por causa de um projecto que talvez nem se 
realize.
	Estendeu a mo a Condottier. Este apertou-lha com uma 
despreocupao fingida, e dirigindo-se  condessa:
	-	Est bem, Nathalie, no o executemos por agora. Teremos 
tempo quando ele prprio tiver posto a corda ao pescoo.



Captulo quarto

	O gordo Folentin, como chamavam irreverentemente ao baro de 
Rocher na Bolsa, herdara uma grande fortuna de seu pai, um dos chefes 
da casa bancria Ravenaud e Companhia. Alguns servios prestados, nos 
finais do reinado de Lus Filipe, pelo av de Folentin, tinham-lhe 
valido o ttulo de baro. Vitima dos gracejos dos amigos devido  
nobreza recente, o banqueiro declarara que, por si, no lhe dava 
qualquer valor, mas que o ttulo poderia vir a ser til aos seus 
filhos. Com efeito, durante a sua vida, que foi longa, visto ter 
morrido em 1870, na vspera da guerra, fez com que o tratassem apenas 
por Folentin. Seu filho, o pai do gordo Folentin, tambm no usou o 
ttulo, pois as suas ideias eram republicanas e ele era amigo de 
Gambetta e fora deputado por Beaumont, nas eleies que se seguiram  
paz com a Alemanha. Homem de negcios notvel, o deputado veio a ser, 
com Thiers, ministro das Finanas.
	Folentin prestou, nesse lugar, os maiores servios, contribuindo 
com uma sbia administrao para a liquidao da indemnizao devida 
ao vencedor. Veio a ser governador do banco e morreu tendo a reputao 
de financeiro de primeira categoria. Armand Folentin, que se fazia j 
tratar por baro, juntou ento ao seu nome o de uma terra, propriedade 
de familia h um sculo, e tornou-se, para o mundo da vida fcil, o 
gordo Folentin de Rocher. Era um bon vivant, muito alegre, muito 
disposto a divertir-se, mas no entanto calculista como Barme, e, 
mesmo nas grandes ocasies, no fazendo nunca grandes bcuras. As suas 
opinies, diametralmente opostas s de seu pai, eram reaccionrias e 
fortemente tingidas de orleanismo. Perdeu o seu lugar de deputado, que 
os eleitores deram a M. Prvinquires. Folentin no guardou rancor ao 
vencedor. Compreendera rapidamente que a corrente de opinio conduzia 
os republicanos para o socialismo e como tinha horror a tudo o que 
pudesse provocar uma modificao na ordem das coisas que lhe 
asseguravam a tranquilidade da vida, afastara-se da poltica.
	Tomava as suas precaues: colocava a maior parte da sua fortuna 
em Inglaterra, no banco Jarrett e Firms, do qual era correspondente, 
e, seguro de nada ter a recear dos furiosos que sonhavam em 
experimentar reformas que se arriscavam a arruinar a Frana, lanava 
aos seus perigosos sectrios sarcasmos e desafios. Ajudava 
financeiramente um jornal desportivo, o Gentleman, cujo redactor-chefe 
era legitimista e clerical. Nesse jornal defendia-se o papa e as 
apostas mtuas com a mesma competncia, e tambm o corpo de baile da 
pera, com o qual Folentin tinha razes especiais para se mostrar 
muito benevolente.
	O baro poderia portanto ter vivido muito feliz se no ti vesse 
um amor-prprio exagerado e at doentio, que o fazia julgar que tudo o 
que possua - coisas e pessoas - deviam ser superiores s dos outros. 
Da o excessivo esprito de comparao que fazia com que Folentin 
desejasse ter tudo o que visse nos outros. Um moralista teria 
qualificado esse estado de esprito de inveja. Nisso enganar-se-ia. 
Folentin no era um invejoso, era um requintado vaidoso. Desejava os 
xitos pela glria de os obter. E uma vez obtidos, fazia de boa 
vontade as honras aos outros.
	Uma das razes que o levara a no se casar era a incerteza em que 
se encontrava, at essa altura, sobre a superioridade das mulheres a 
quem poderia dar o seu nome. Valeriam realmente isso? No encontraria, 
depois de se casar, uma mais rica, mais bela ou mais espiritual? Era 
como a gara-real da fbula, que desprezara tudo de incio, carpa, 
tenca, barboto, procurando o melhor bocado, que realizaria todos os 
seus desejos. E essa irresoluo conduzira-o at aos trinta e seis 
anos. Para falar a verdade, nunca pensara em Rose Prvinquires, que 
conhecia h muito. Achava-a bonita, elegante, fina, mas s comeara a 
ach-la notvel ao ver que Condottier desejava to ardentemente casar 
com ela.
	Ora, o marqus de Condottier no era qualquer pessoa cujos gostos 
pudessem tratar-se levianamente. Era quem reinava sobre a juventude 
parisiense, dando-lhe o tom. Era um rbitro da moda e do chique. 
Folentin orgulhava-se de ser amigo dele. Outrora desejava imenso
ser-lhe apresentado e tornara-se amigo dele, embora houvesse entre os 
dois uma grande diferena de idade. Emprestara-lhe grandes quantias em 
diversas ocasies, quantias essas que o marqus lhe pagara 
escrupulosamente, depois de ganhar ao bacar o que ao bacar perdera. 
Para Folentin, o marqus era um ser de eleio, ao qual ele prestava 
homenagem e sobre o qual ele desesperava de ter alguma vez vantagem.
	Sem que ele prprio se apercebesse disso, no fundo do seu 
pensamento, o projecto de o suplantar junto de Rose Prvinquires, 
nascida da entrevista da vspera, tinha a sua origem no desejo latente 
de triunfar sobre o brilhante marqus. No o confessava a si prprio, 
mas quando Rose, recusando Condottier, lhe dera a entender que 
gostaria de casar com um homem srio, o gordo Armand estremecera, 
entrevendo a ocasio de uma vitria decisiva, deslumbrante, das que 
classificam um homem na primeira categoria. Grande honra, sem dvida, 
mas tambm grave perigo. Ultrapassar Condottier era alien-lo. Mas uma 
zanga seria a consagrao do triunfo. No entanto, desejava evit-la, 
porque se era glorioso tambm sabia ser prudente e no gostava de 
disputas desnecessrias. De momento, o perigo desaparecia. O marqus 
mostrava-se novamente afvel e sem falar nas ameaas que se podiam 
tomar por gracejos, aceitava com tranquilidade ser suplantado por 
Folentin.
	Mas era necessrio suplantar o marqus e o gordo Armand tinha 
muito a fazer para o conseguir, pois ficara visto que Rose 
Prvinquires no queria desposar Condottier, mas no ficara provado 
que Folentin tivesse melhor sorte. Era um pretendente do seu gnero e 
da sua importncia que a jovem descrevera como convindo-lhe mais. Mas 
seria ele, baro de Rocher e no um outro, que ajovem idealizara e 
cujas qualidades e mritos ela inventariara? Folentin no ia ao ponto 
de pensar que a jovem tivesse querido traar o seu prprio retrato 
para o levar a apresentar-se como seu pretendente. Isso seria 
literalmente lanar-se-lhe  cara. E por mais confiana que tivesse em 
si prprio, o baro no chegava a esse extremo.
	Meditara em tudo isso, pois era um esprito prtico e que se 
habituara a tratar todos os assuntos importantes com uma rapidez de 
deciso muito especial. Sabia que no se tiram vantagens com o tactear 
e que para transpor os obstculos no h como abord-los francamente, 
num salto. A sua sada dessa manh tivera por objectivo pr em aco 
um intermedirio cuja interveno lhe parecia capital. Fora contar os 
seus projectos a M. Pierqum, vigrio-geral do bispado de Tours, e 
pedir-lhe o seu apoio.
	Pierqum era parente da Sra. Prvinquires e seu conselheiro nas 
grandes ocasies. Possuia uma influncia considervel na famlia, 
mesmo sobre o livre-pensador deputado por Beaumont, a quem 
impressionava, apesar das suas veleidades de independncia, pela 
frieza dos seus modos e pela austera firmeza do seu esprito. 
Folentin, que defendia a Igreja e o rei no seu jornal, sabia que podia 
contar com a benevolncia do vigrio-geral, e por intermdio dele 
esperava poder conquistar a Sra. Prvinquires para a sua causa. Sabia 
que seria feito um pedido oficioso com a devida discrio para 
salvaguardar o seu amor-prprio. Nessa aventura matrimonial, era antes 
de tudo em poupar a si prprio qualquer humilhao, por mais ligeira 
que fosse, que o baro pensava. Ficara combinado que se as pretenses 
do baro fossem aceites por Rose e pela famlia, M. Prvinquires 
escreveria umas palavras ao seu vizinho, sem qualquer comentrio, 
convidando-o para jantar. Depois se explicariam abertamente. Mas o 
convite significaria desde logo: venha, ser bem recebido. O resto era 
com Folentin.
	O castelo de Rocher no dizia nada sobre esta combinao aos 
seus convidados. Era demasiado fino para lhes dar ocasio de o 
prejudicarem. Estava nos seus projectos dar a entender que em Beaumont 
lhe tinham feito sugestes muito claras, que o haviam levado a sair do 
seu papel de plenipotencirio. Deixava assim sobre os Prvinquires o 
descontentamento de Condottier e fazia da condessa Grodsko uma inimiga 
de Rose, tanto mais perigosa por querer ocultar os seus rancores.
	Nas conversas do marqus com a irm s se falava da inconcebvel 
traio de Rose, que julgavam to apaixonada, e era sobretudo contra 
ela que iam as suas recriminaes. Folentin era, para eles, apenas um 
tolo que essa rapariga astuta e ambiciosa tinha apanhado, como 
apanharia um mais rico, se o tivesse  mo. O baro deixava, 
suavemente, de ser um culpado para se transformar numa vtima. Mas 
Rose era uma ingrata, uma egosta, uma orgulhosa que queria conquistar 
a sociedade e que sacrificava todos os seus sentimentos  realizao 
do seu sonho.
	Entretanto, instalados no castelo de Rocher, vivendo junto de 
Folentin, numa intimidade completa, dissimulavam os
seus sentimentos, fazendo boa cara a tudo, e obstinavam-se a no 
deixarem o local antes de serem declarados os acordos entre os 
Prvinquires e o seu anfitrio. Os momentos que passavam junto do 
baro proporcionavam a uns e a outros a possibilidade de representar. 
Nem uma s palavra pronunciada por eles revelava o seu verdadeiro 
estado de esprito. Falavam de tudo com uma encantadora ligeireza 
mundana, mas, ouvindo-se reciprocamente podiam dizer: tu no dizes uma 
palavra do que pensas. Essa situao tinha talvez um certo encanto 
para eles. Punham nisso um certo virtuosismo e depois de terem passado 
um sero juntos, tentando dar troco uns aos outros, sem o conseguir, a 
no ser na aparncia, eram tentados a felicitar-se todos, declarando 
que tinham representado bem. A mentira dos sales florescia ali em 
toda a sua beleza, desabrochando largamente at ao dia em que Folentin 
recebeu uma carta de Beaumont em que M. Prvinquires convidava o seu 
amvel vizinho parajantar em sua casa "com o nosso excelente vigrio-
geral". Era significativo e dessa vez Florentin no pde esconder a 
sua satisfao. Teve a franqueza de dizer a Condottier e  condessa 
Grodsko:
	-  intil estarmos a enganar-nos mais tempo. H um acordo entre 
mim e os Prvinquires. Vou jantar amanh a casa deles.
	- E ns partimos esta noite para Paris - replicou a condessa.
	- Mas sem rancor, como prometido.
	- Claro que sim, caro amigo. Tudo foi franco e leal entre ns, 
no  verdade, caro amigo? S  preciso que assim continuemos. A minha 
irm e eu, no o duvide, assistiremos ao seu casamento. E seremos 
sempre, eu, seu amigo, e a minha irm, amiga de sua mulher.
	Folentin ouviu esses protestos de amizade sem prazer, mas 
prometeu mais tarde meter em boa ordem esses ardores de ternura. 
Mostrou boa cara aos seus convidados at  ltima hora, levou-os ele 
prprio  estao de caminho-de-ferro no seu mali e, no dia seguinte, 
foi jantar a Beaumont.
	Entretanto, em casa dos Prvinquires, a comunicao do
vigrio-geral provocara um efeito sensacional. No momento em que o 
industrial se lamentava por causa do prolongado celibato da filha, 
rebentava bruscamente a notcia do lisonjeiro pedido do baro de 
Rocher. Foi a Sra. Prvinquires que, com uma expresso radiante, 
entrara no gabinete do marido para lhe dar a novidade. Duburle 
acompanhava-a e Maurice fora chamado, como para um conselho de 
famlia. S a principal interessada fora deixada de lado, at haver 
mais informaes, segundo o protocolo habitual. A Sra. Prvinquires 
sentou-se em frente do intrigado marido, e destacando bem todas as 
palavras, afirmou:
	-	Acabo de receber uma carta que traz notcias muito 
importantes para todos ns e to lisonjeiras para Rose que no quero 
guardar segredo nem um minuto. O nosso caro vigrio escreve-me dizendo 
que o baro de Rocher pergunta se estaramos dispostos a concordar com 
o seu pedido...
	-	Folentin? - exclamou Prvinquires.
	-	Esse velhote! - exclamou Maurice.
	A Sra. Prvinquires deitou ao filho um olhar severo.
	-	Um partido magnfico. Uma situao fantstica, na provncia 
e em Paris.
	-	Diabo! Diabo! - disse Duburle. - No  um pretendente para 
desprezar, seja o que for que pense Maurice, com o belo desdm dos 
seus vinte e seis anos...
	-	Que idade tem Folentin? - quis saber Maurice. - Parece-me 
ancestral.
	-	Diz ter trinta e quatro anos...
	-	Bom. Fora os juros. A seis por cento...
	-	Enfim, tal como , apresenta-se muito bem. Tem bom p, bom 
olho, um excelente estmago...
	-	E na verdade no est mal de cabelos.  um agradvel 
destroo.
	-	Maurice, tu s insuportvel!
	-	No  o homem que eu teria sonhado para Rose... Um rapaz 
mais ou menos da minha idade era o que ela precisava!
	-	Um garoto que fizesse disparates? Fala-lhe nisso. Ela  
muito prtica, essa menina. E se ela casar com Folentin...
	-	Ser muito rica, mas h-de ganhar muito com isso!
	-	Este animal  verdadeiramente estpido! - exclamou 
Prvinquires, designando o filho com um gesto acabrunhado. - No 
contente de fazer apenas disparates por sua conta, no hesitar em 
aconselh-los aos outros. Atreve-te a repetir essas parvoices todas  
tua irm e ters de te haver comigo!
	-	Bem, bem. Ela  que se casa, no sou eu. Se Folentin lhe 
convm...
	-	Que linguagem essa. V l se te moderas.
	-	Eu, no fundo, at gosto de Folentin. Posso-lhe bater.
	-	Bela perspectiva. No te esqueas de lhe anunciar isso!
	-	Ento, pap, no te zangues. Primeiro  preciso saber se o 
baro de Rocher ser um pretendente que Rose considere aceitvel. No 
serve de nada estarmos a falar sem saber a opinio dela.
	-	A verdade  que at aqui todos os pretendentes que lhe 
apresentmos foram impiedosamente repelidos por ela.
	-	Deixa-me ser eu a falar com ela - disse a Sra. 
Prvinquires. - As mulheres entendem-se melhor.
	-	Est combinado. E tenta resolver esse assunto por bem. Pois 
em conscincia te digo que essa criana me desola com as suas ideias. 
Se ela recusar Folentin, no sei realmente quem poderemos propor-lhe 
para que ela se decida.
	-	Ela anda agora a passear no jardim; vou ter com ela.
	Rose viu a me dirigir-se para ela com uma certa surpresa. A Sra. 
Prvinquires nunca saa de manh para o ar livre, por causa da sua 
pele, que exigia tratamentos especiais. E agora via-a avanar, pela 
alameda, de cabea descoberta, sem se preocupar com o sol, cujos raios 
outonais eram ainda escaldantes. Ajovem, com um sorriso, abriu a 
sombrinha que tinha na mo e estendendo-a  me, disse:
	-	Que se passa para andares c fora antes do almoo?
	-	Coisas graves... Vem comigo.
	Levou-a at junto de um banco de mrmore colocado  sombra das 
rvores, e f-la sentar-se junto de si.
	-	Minha querida filha, sabes como o teu pai e eu nos 
preocupamos por tu no quereres casar, apesar de se terem apresentado 
numerosos partidos. Nunca quisemos influenciar-te e tiveste sempre 
toda a liberdade para escolheres... Hoje surgiu outro pretendente. E 
este recomenda-se  nossa ateno pelas numerosas vantagens que 
oferece...
	-	De quem se trata? - perguntou decididamente Rose.
	-	Do senhor baro de Rocher.
	O rosto de Rose Prvinquires iluminou-se com um sorriso.
	-	Ah, sim? Esse celibatrio endurecido deixa-se convencer? 
Tens razo, mam,  um partido que no  para desprezar...
	-	No  verdade? Trata-se de um homem de sociedade, muito bem 
visto pelos prncipes, com relaes directas com o papa... Uma fortuna 
magnfica... Que lhe falta?
	-	Uma mulher que saiba tirar partido dessa situao.
	-	E essa mulher, minha Rose, sers tu?
	-	Talvez!
	-	Oh! No recusas desde logo, como tens feito at aqui. Ests 
disposta a examinar a pretenso do nosso vizinho?... J  quase uma 
causa ganha.
	-	No vamos to depressa, mam. Outro dia falei muito 
seriamente com Folentin. Ele veio falar-me por causa de um dos seus 
amigos e acabou por me falar de si mesmo...
	-	Como?
	-	Sim. Ele veio advogar a pretenso do marqus de Condottier 
e defendeu calorosamente a sua causa. No sei como  que a conversa 
correu, mas percebi que ele esteve a dois passos de pedir a minha mo 
para si prprio. Compreendi ento que ele estava  minha disposio e 
que a diligncia que acabas de me anunciar no tardaria a ser feita.
	-	E no nos disseste coisa alguma?
	-	E se ele tivesse mudado de ideias e persistisse no seu 
celibato? O que pensariam de mim? Que era um pouco inconsequente, no 
 verdade? Era prefervel ter pacincia e deixar a borboleta fixar-se. 
Ele est seriamente decidido? Quem  o intermedirio dele?
	-	O nosso caro vigrio-geral.
	-	Oh, ento  a srio. No se desautoriza um futuro bispo, 
quando se tem as ideias de Folentin de Rocher.
	-	Como tu raciocinas! Surpreendes-me verdadeiramente. No te 
julgava to avisada...
	-	Porque no sou to tola como a maioria das raparigas 
casadouras. De que me serviria ter examinado tantos pretendentes se 
no tivesse adquirido experincia? O casamento  um negcio em que a 
maior parte das vezes um d e outro recebe.  preciso tentar no ser 
tola. Condottier queria casar comigo porque me acha a seu gosto e sou 
rica. Que me oferecia ele em troca? O seu ttulo de marqus e as 
hipotecas que pesam sobre a sua casa patrimonial. Recusei. E no 
entanto 
bastante sedutor e da melhor linhagem. Mas eu seria tola. No o quis. 
Nunca o quereria!
	-	Com o baro de Rocher...
	-	Ah! Com o baro de Rocher  outra coisa. Esse d, 
materialmente, pelo menos tanto como recebe. No h tolice. A menos 
que a felicidade me fuja e que por ter sacrificado demasiado  razo, 
eu no obtenha as satisfaes de corao que tenho o direito de 
esperar... Mas porque seria assim? O baro  um homem galante, parece 
bom. Se me pede em casamento  porque lhe agrado. Espero que ele saiba 
fazer-se amar. Tenho ouvido dizer muitas vezes que os casamentos com 
grandes paixes levam quase sempre a lares infelizes. Talvez se algum 
tivesse sabido inspirar-me uma grande paixo, eu me tivesse afastado 
dos meus sensatos princpios. Mas confesso que isso no sucedeu, pois 
nunca o meu corao foi perturbado. Irei pois, com confiana, para o 
futuro que se prepara para mim...
	-	Posso portanto anunciar a teu pai que tu concordas com o 
pedido do baro?
	-	Sim, mam, podes dizer que no me oponho  pretenso do 
baro, pois ela est conforme com o programa que eu tracei. De resto, 
o senhor Folentin fez-me um interrogatrio que o esclareceu 
completamente...
	-	 portanto com conhecimento de causa que ele se apresenta?
	-	Com efeito, por saber com o que h-de contar  que ele se 
apresenta como pretendente  minha mo.
	-	Bem, vem falar de tudo isso com o teu pai. Vai ficar bem 
contente! Sentia-se to preocupado por ver que tu no te casavas...
	-	No havia perigo pela demora. Agora compreendes porqu.
	-	Sim, mas no podamos adivinh-lo.
	Na noite em que Folentin se apresentou em Beaumont, oficialmente 
recebido como noivo de Rose Prvinquires, estava ainda inseguro de 
si. Depois de ter passado por um perodo de satisfao extrema, 
pensando que triunfara do marqus de Condottier, voltara a sentir 
inquietao, perguntando a si prprio se no estaria prestes a cometer 
um grande disparate. Apresentou-se a esse jantar, por assim dizer, 
como um co chicoteado. Se no devesse encontrar-se tambm ali o 
vigrio-geral, talvez Folentin tivesse tomado o partido de se meter na 
cama, alegando uma forte constipao. Mas no ousou faz-lo e 
apresentou-se  hora marcada com o rosto enrugado pelas preocupaes.
	Se tivesse sido acolhido com uma marcada deferncia, talvez as 
suas apreenses se tivessem fortificado ao ponto de se decidir a 
inventar um pretexto para voltar atrs. Mas encontrou os Prvinquires 
muito calmos, o irmo um pouco hostil, e Rose to tranquila como uma 
rapariga segura de si se pode mostrar. Em vez de ter de sofrer o 
assalto das atenes de todos, Folentin teve de se esforar por obter 
as boas graas da famlia. Ficou a pensar se estariam to dispostos a 
aceit-lo como ele julgara. Recebiam-no sem qualquer espcie de 
familiaridade e, por instantes, at com indiferena. A arrogncia de 
Folentin abateu-se. Sentia-se como um rapazinho diante de Rose, que o 
tratava de alto, como uma verdadeira soberana. Viu-se na obrigao de 
se mostrar atencioso, e, desde ento, ficou preso ao encanto da altiva 
jovem.
	Ela no tardou a perceber a situao, com aquele tacto to fino 
das mulheres que lhes permite compreender, nos mais pequenos 
pormenores, o verdadeiro estado das coisas. Rose apercebeu-se tambm 
da capitulao do adversrio e aproveitou-se imediatamente disso. 
Colocada ao lado dele na mesa, mostrou-se de uma amabilidade 
deliciosa, com um cambiante de altivez que dava  sua boa disposio o 
verdadeiro valor. Estava vestida com uma elegncia requintada na sua 
simplicidade e pareceu a Folentin absolutamente deslumbrante. Ficou, 
durante esse primeiro sero, perdidamente apaixonado. O homem calmo, 
que s fizera pelas mulheres loucuras de amor-prprio, tornava-se 
ardente e desejava essa jovem, sorridente e coquete, que se recusava e 
se oferecia ao mesmo tempo, levando o capricho at  paixo. No a 
deixou um s instante, depois do jantar, seguindo a sua saia ondulante 
e perfumada, respirando os seus ombros brancos e devorando com o olhar 
os seus belos olhos, a sua boca fina e os seus cabelos louros. Teve a 
atitude de um colegial e no se preocupou em ter outra diferente.
	Estava, como depois confessou, "totalmente seduzido" e no se 
importava nada com o que pudessem pensar ou dizer. S queria saber do 
que lhe agradava e isso era, justamente,
esquecer tudo por amor dessa bela rapariga, cuja posse ele antevia. s 
onze horas da noite foi preciso quase p-lo fora. Ficaria 
indefinidamente em Beaumont. Os seus belos cavalos, com a sade dos 
quais tanto se preocupava, relinchavam h uma hora, no ptio, debaixo 
de uma chuva miudinha muito propcia s bronquites, sem que ele 
pensasse em lev-los para casa. Rose teve de lho lembrar para que ele 
se acautelasse. Nesse momento ergueu-se vivamente, como atingido por 
uma pancada, e disse com um ar perturbado para a jovem:
	-	Vou-me embora. Tem razo. Preciso de ir... Mas permite que 
eu volte amanh?
	-	Amanh e todos os dias, est combinado.
	-	Est combinado, no  verdade? - perguntou para o ouvir uma 
segunda vez, como se no estivesse bem seguro.
	-	Sim - disse Rose, olhando-o com ar imperioso. - A no ser, 
senhor, que me d motivos de descontentamento.
	-	Tenho apenas um sonho - protestou Folentin. -  agradar-
lhe.
	Ela mudou de atitude, comeou a rir e disse gentilmente:
	-	No duvido.
	Estendeu-lhe a mo, que ele beijou demoradamente. Depois 
despediu-se com cerimoniosa delicadeza e retirou-se.
	No dia seguinte de manh, Rose passeava  beira do canal, 
dirigindo-se para a fbrica, e para abreviar caminho passou pelo 
jardim de Valentin Raynaud. No mesmo momento, o director saa de casa. 
Parou para cumprimentar a jovem e ficou muito admirado quando ela lhe 
disse:
	-	Preciso de lhe contar uma novidade que no quero que venha 
a conhecer por acaso e pela boca de qualquer pessoa: estou noiva do 
baro Folentin de Rocher desde ontem.
	Valentin no fez um gesto. A sua fisionomia permaneceu 
impassvel. Disse apenas: "Ah!" Depois, como se tivesse querido dar 
tempo  reflexo, acrescentou friamente:
	-	 um excelente partido. Felicito-a.
	Ela insistiu:
	-	Sim,  um excelente partido, no  verdade?
	Valentin olhou-a com assombro:
	-	Est a pedir a minha opinio?
	-	Sim. Pergunto-lha. Tenho muita confiana em si. Sei que tem 
amizade pelos meus e que se interessa por mim...
	Ao ouvir essas palavras, Valentin empalideceu. As lgrimas 
subiram-lhe aos olhos. Voltou-se um pouco. Mas Rose no o olhava. Com 
a ponta da sombrinha traava sinais na areia, toda entregue  sua 
preocupao, sem se inquietar com as impresses daquele a quem se 
dirigia.
	-	Se tivesse m opinio acerca do senhor Folentin, estou 
certa de que teria a franqueza de ma dizer, para me impedir de vir a 
ser infeliz mais tarde... Estarei enganada?
	Valentin teve de responder. E f-lo com a voz abafada pelas 
violentas pulsaes do corao:
	-	No, no se engana. Nada me pode ser mais precioso que a 
sua felicidade. Devo tanto reconhecimento  sua famlia que se fosse 
preciso escolher entre...
	No concluiu. Mas o fim da frase pareceu a Rose de tal modo 
inesperado, e o tom em que ele falara to singular, que ergueu os 
olhos para ele. Mas Raynaud j recuperara o equilbrio e continuou:
	-	Pode e poder sempre contar comigo. Contra para com os 
seus uma dvida que me ser difcil pagar.
	-	O qu? Por o pap o ter posto na direco da fbrica? 
Segundo o tenho ouvido dizer, ele  que lhe deve muito a si. Est 
muito desolado por o ver partir. No falemos, pois, de reconhecimento, 
mas simplesmente de afeio.
	-	Sim, da minha afeio,  a mais profunda - retorquiu ele 
com voz comovida. - Quando fiquei rfo, foi o seu pai que me criou, 
como se eu fosse filho dele. Permitiu-me crescer na vossa casa, junto 
de si e do seu irmo, dando-me a preciosa iluso de no estar s no 
mundo e de ter uma famlia: benefcios inestimveis. Pois o isolamento 
para um corao de criana, e o abandono, traz, mais tarde, frutos bem 
amargos. Ah! Esses anos da juventude, em que eu me sentia livre de 
preocupaes e isento de ambies, foram os mais felizes da minha 
vida. Nunca me recordarei deles sem alegria e seja o que for que o 
futuro me reserve, a doura desses tempos ser um auxlio contra os 
desencantos e os aborrecimentos.
	A fisionomia de Valentin, de sbito animada, reflectia os 
sentimentos que ele exprimia com um ardor que ele j no controlava. 
Subitamente, mudara de atitude, e Rose, surpreendida, deixou de ver na 
sua frente o subordinado de seu pai, tmido e voluntariamente apagado. 
Era um homem de rosto msculo, de olhar brilhante. A sua estatura 
parecia at maior, como se o sentimento da sua independncia 
recuperada o tivesse tornado mais alto. Rose no via o Valentin 
Raynaud que se habituara a ver e que tratava com a familiaridade de um 
antigo companheiro de brincadeiras, e as boas graas que se tm para 
com um subalterno til. Involuntariamente, fez-se uma comparao, no 
esprito da jovem, entre aquele rapaz robusto e inteligente e os 
brilhantes, elegantes e fteis jovens que faziam parte da sua 
convivncia habitual. O jovem marqus de Condottier, apertado no seu 
casaco que lhe fazia uma cintura de vespa, com os seus cabelos 
correctamente penteados e formando uma onda na testa, surgiu-lhe como 
um manequim encimado por uma bela cabea de cabeleireiro. O prprio 
Folentin apareceu diante dos seus olhos um pouco barrigudo, amaneirado 
e um tanto manaco. Eram, no entanto, os homens que ela tantas vezes 
declarara serem os nicos com que ela poderia casar, porque pertenciam 
 alta sociedade, e que, fora desse meio convencional e artificial, 
no havia existncia aceitvel para ela. Valentin Raynaud encarnava 
justamente a categoria de pessoas que ela julgava impossveis, porque 
a existncia junto deles seria de tranquilidade fecunda e de feliz 
obscuridade.
	Nesse mesmo instante, Rose perguntava a si mesma, com uma sbita 
clarividncia, se no estaria a iludir-se e se as suas apreciaes no 
seriam erradas, e se os homens de vida brilhante e de prazeres 
ruidosos no seriam muito inferiores aos homens de labor produtivo e 
de coragem paciente. As discusses ouvidas entre o pai e a me, sobre 
a distino das castas e o valor dos indivduos, cristalizaram-se num 
instante e ela sentiu um aperto no corao, pensando: se eu me 
enganasse. Queria ouvir, sobre essa questo to grave para ela, a 
opinio de um homem como Raynaud. Considerava-o bastante honesto e 
dedicado para dizer a verdade. E resolveu perguntar-lhe a opinio 
dele. Retomou a conversa no ponto em que Valentin a deixara e 
caminhando lentamente ao lado dele disse-lhe:
	-	At hoje ignorei desencantos e desgostos. Tornaram-me a 
vida to suave, to igual, que s tenho conhecido satisfaes. Talvez 
isso no seja bom, pois no posso imaginar que um dia no seja assim. 
Mas um marido no  a mesma coisa que um pai ou uma me. E se eu for 
ter uma desiluso? Desejo que a minha vida continue como tem sido at 
aqui. Isto parece-me a felicidade.
	Valentin abanou a cabea.
	-	A felicidade! Bem ousado seria quem tentasse formular uma 
definio absoluta. Ela  aquilo que cada um deseja para si prprio.  
uma questo de temperamento e sobretudo de inteligncia.  muito 
possvel que o baro Folentin a faa muito feliz se s lhe pedir o que 
ele tiver para lhe dar.
	No se pode descrever o desdm com que Valentin pronunciou estas 
ltimas palavras. Rose estremeceu. Sentia-se atingida no mais profundo 
do seu orgulho. Replicou vivamente:
	-	Tenho curiosidade em saber como  que compreende a 
felicidade.
	Valentin abanou a cabea e disse sorrindo:
	-	Se quiser que eu lhe explique o que  uma
ceifeira-debulhadora f-lo-ei da melhor vontade.  a minha profisso e 
poderei falar sem receio de dizer disparates. Mas pedir ao pobre 
mecnico que fale de teorias filosficas  pregar-lhe uma partida.
	Rose olhou-o de uma certa maneira  qual nunca vira ningum 
resistir, ergueu o seu dedo branco com ar de autoridade e disse:
	-	 preciso no entanto que o faa. Levantou dvidas no meu 
esprito. Quero que as dissipe.
	-	E se as agravar?
	-	Veremos.
	-	E se for demorado?
	-	Tenho tempo.
	Sentou-se num banco de pedra e fez-lhe sinal para se sentar junto 
dela. Depois disse num tom desptico.
	-	V. Estou a ouvi-lo.
	-	Bem - comeou Raynaud com ar decidido -, se quisesse
ocupar-me da minha prpria felicidade, eis como a compreenderia. 
Aquela que eu amasse no seria uma rapariguinha de alma simples e 
branca, cheia de doura e de obedincia. Gostaria de associar o meu 
destino a um ser de vontade e de energia, cujas ideias no fossem 
exactamente iguais s minhas, porque eu sentiria uma felicidade 
infinita em faz-la compreender o que  bom e razovel e em formar-lhe 
o esprito com a
prpria experincia da vida. Queria que ela fosse bela, porque o 
encanto da mulher ilumina e aquece a alma do seu companheiro, impele-o 
para concepes mais altas e d-lhe a coragem de as realizar, mesmo 
que seja apenas pela honra de triunfar diante dela. Se tivesse 
encontrado essa mulher, t-la-ia amado e servido como a uma rainha. 
Tudo o que ela pudesse desejar de maravilhoso e de deslumbrante, eu 
encontraria em mim foras para o realizar. Para lhe dar uma 
satisfao, para lhe assegurar o xito, seria capaz de dar a volta ao 
mundo. Quereria chegar aos primeiros lugares, pelo meu valor, para lhe 
fazer sentir melhor o que a elevao dela tinha de pessoal e de raro. 
Ador-la-ia s a ela. Seria o meu pensamento constante e veria, em 
todas as horas da sua existncia, a certeza de que eu trabalhava para 
ela ser, entre todas as mulheres, um ser digno de inveja.
	Calou-se um momento e depois, com uma expresso dolorosa, 
prosseguiu:
	-	Mas que estou eu a dizer? Tudo isto  um sonho. Onde 
encontrar a mulher que adivinhe um tal amor? Seria preciso exprimir-
lho para ela acreditar na sua existncia. E como ousar falar diante 
dela com tal atrevimento? Foi preciso que me impelisse a falar sobre 
um assunto que a diverte, para eu sair da minha reserva. E peo-lhe 
perdo.
	Rose fez um gesto vago com a mo. No respondeu. Pensava no 
sentido misterioso que descobria nas palavras de Valentin. Era uma 
revelao para ela. Era impossvel enganar-se. Tudo o que acabara de 
lhe dizer dizia respeito a ela e a ele. A mulher independente e 
altiva, cuja conquista devia ser uma alegria triunfante, era ela. O 
homem enrgico e apaixonado, que se sentia com foras para erguer o 
mundo para lhe provar o seu amor, era ele. Ento ele amava-a 
secretamente, desejava-a e aproveitara a ocasio para lho dizer. Rose 
franziu o sobrolho. Tanta liberdade para com ela parecia-lhe 
atrevimento. Disse ento:
	-	Acaba de me descrever minuciosamente o que poderia ser a 
felicidade de um homem apaixonado por uma mulher cuja categoria 
social, se no me enganei, fosse superior  dele?
	-	Muito superior - respondeu Valentin com humildade.
	-	Acolh-lo seria ento, para ela, uma espcie de degradao?
	-	Sem dvida; presentemente, sim. Seria preciso que ela 
tivesse coragem para se resignar a isso. E  o mais difcil.
	-	Apercebe-se disso?
	-	Como no havia de me aperceber. Todos os dias vejo a 
distncia imensa que separa a fortuna adquirida, a categoria social 
possuida, da riqueza em formao e da situao disputada. Mas sei 
tambm que aqueles que sobem ao assalto podem apoderar-se da praa e 
expulsar aqueles que a detm. Bem precrio  o poder daqueles que so 
apenas os herdeiros da conquista. S existe grandeza e verdadeira 
fora entre os conquistadores.
	-	Nos tempos em que vivemos, os conquistadores chamam-se 
arrivistas.
	-	No pronuncie essa palavra com desprezo. Os arrivistas so 
os reis do mundo. So a aristocracia do trabalho e do dinheiro, que  
a nica que hoje conta verdadeiramente. Os arrivistas so a lite do 
pas, pois representam nele a produo viva. O riqussimo Evans, que 
est em minha casa,  um arrivista. E todos os milionrios da Amrica, 
que fazem a grandeza e a fora do Novo Continente, so arrivistas. No 
creio que haja um ttulo de que uma pessoa se possa orgulhar tanto, 
pois significa que, partidos do nada, chegaram a tudo.
	-	Sim, mas essas pessoas viveram, durante a maior parte da 
sua vida, nos estaleiros, nas fbricas, a bordo dos navios ou levados, 
de um extremo ao outro da Terra, em comboios rpidos. E qual foi o 
destino das mulheres deles durante esse tempo?
	-	As mulheres deles guardavam e criavam os filhos, que  a 
funo de todas as mulheres que o so verdadeiramente.
	O olhar de Rose ocultou-se atrs das suas pestanas louras, ela 
sorriu hesitantemente e disse:
	-	E as que no se contentam em ser donas de casa e amas, que 
so ento, segundo a sua opinio?
	Raynaud respondeu com rudeza:
	-	Ah! So amveis e encantadoras bonecas, que passam no palco 
do mundo como actrizes numa comdia, com atitudes preparadas e uma 
linguagem combinada. Tm a cabea vazia e o corao seco. A sua 
principal ocupao  usarem chapus novos e vestidos inditos. Quando 
tm filhos  um incmodo
para elas. E o marido  apenas um companheiro de prazer, ou um caixa 
encarregado de pagar as despesas delas...
	Os olhos de Rose fitaram bruscamente Valentin. Ela interrompeu-o 
com um gesto:
	-	Estamos muito longe do nosso assunto. O que eu queria saber 
era se fazia bem em casar com o baro Folentin de Rocher.
	-	Parece-me - disse ele - que no falmos de outra coisa.
	Dessa vez, Rose admirou a audcia dele e quis lev-lo at ao 
ltimo reduto.
	-	Declarou-me ao princpio que era um excelente partido.
	-	E . No me desdigo.
	Raynaud olhou-a por sua vez profundamente:
	-	Entendamo-nos. Se o que procura  um companheiro de 
prazeres ou um fornecedor de dinheiro, no poderia arranjar melhor. Se 
quer encontrar um marido a quem possa confiar o seu futuro, sem recear 
que ele a abandone nas horas tristes, ou fraqueje nos momentos graves, 
no  a escolha a fazer.
	Ela esforou-se por rir para ocultar a sua perturbao.
	-	Voc leva tudo para o trgico, Valentin...
	-	 porque h na vida mais horas amargas do que alegres e  
na dor que as verdadeiras afeies se apreciam.
	-	No quero ver o futuro com cores sombrias.
	-	No se trata s de querer.  preciso poder. No pode 
dirigir o futuro conforme os seus caprichos.
	Ela ergueu a testa e sorrindo com orgulho:
	-	Falou-me h pouco de homens que so conquistadores e que se 
apoderam da sociedade pela sua energia e pelo seu valor. No haver 
mulheres que sejam tambm conquistadoras e que possam subir  primeira 
categoria? No ser uma bela ambio e que ultrapassa a sua concepo 
de mulher reduzida ao papel de dona de casa?
	-	Conheo mulheres que se elevaram  primeira categoria, como 
diz, pela fora do seu talento ou do seu gnio. So nobres excepes 
que todos admiram. Mas no  pelo prestgio do luxo, do esprito e da 
beleza que a mulher deve conseguir essa vitria bem precria. So 
esses triunfos de vaidade com que sonha? Ento no hesite e estenda a 
mo quele que lhe pode proporcionar esse triunfo, o baro Folentin de 
Rocher.
	Rose levantou-se. O tom de Valentin, os seus gestos, tudo o que a 
sua fisionomia exprimia, a tinham ferido. Bateu no solo com a ponta da 
sombrinha:
	-	Agradeo-lhe o seu conselho. Julgo-o bom e segui-lo-ei. 
Casarei com o baro de Rocher.
	Inclinou ligeiramente a cabea para ele e com passos tranquilos 
saiu do jardim.



Captulo quinto

	No Clube dos Campos Elseos representava-se a revista anual. A 
sala de festas, esplndida, com a sua bela decorao Lus XVI, os seus 
camarotes cheios de espectadores vestidos a rigor, a sua plateia, onde 
estavam reunidas as mulheres mais elegantes de Paris, oferecia um 
espectculo nico. Em cena as personagens do prlogo movimentavam-se, 
com essa mmica expressiva que caracteriza os comediantes da 
sociedade. Nos sales reservados, a fim de respirar e de se sentar, 
tinham-se refugiado alguns membros do clube. Os sons da orquestra, 
enfraquecidos pela distncia, chegavam ali em surdina, e, no meio do 
fumo dos charutos, jovens e velhos conversavam animadamente:
	-	O nosso amigo Condottier  bastante fraco no seu desempenho 
- disse La Brde. - Teima em fazer papis cmicos e no tem jeito 
nenhum para isso!
	-	 uma questo de contrastes! Se faz o papel de apaixonado 
na vida real, no o quer representar no teatro...
	-	Quem  que te disse, Tremblay, que ele no representava 
papis de apaixonado no teatro? Se a pequena Nini Bral te ouvisse 
garantia-te que as tuas informaes eram falsas.
	-	E se a bela baronesa Folentin estivesse a, que  que 
pensaria?
	-	Mas - disse Termont - a senhora nada tem a ver com tudo 
isto. Condottier faz-lhe a corte, como tu, como eu, como outros. A 
nossa bela baronesa, graas a Deus, no  exclusiva, e aceita todas as 
homenagens. Mas com a condio de no favorecer ningum.
	-	Viram-na esta noite? Est esplndida... e arranjada com um 
chique!
	-	Vestida pelo Doucet! Ele  nico.
	-	Folentin arranjou maneira de se sentar junto dela.
	-	Para melhor gozar os seus triunfos...
	-	Pode-se dizer que gasta bem o seu dinheiro, esse.
	-	Ele no o lamenta!
	-	 doido pela mulher!
	-	A  que te enganas - disse Termont.
	-	O qu? Ele no adora a baronesa?
	-	Sim, adora-a. Mas tem uma maneira muito sua de a adorar. 
Quando a v num quadro de luxo, num ambiente de seduo, deslumbrante, 
atraindo todos os olhares e todas as homenagens, exulta e no trocaria 
o seu lugar nem com o presidente da Repblica. Mas quando est em 
casa, de manh,  hora do pequeno-almoo, na bela casa dejantar dos 
Campos Elseos, em frente da mulher, mostra-se muito calmo, muito 
calmo mesmo. Pensa nos seus negcios, na Bolsa, para onde se vai 
dirigir, no emprstimo blgaro. A baronesa s lhe interessa com todas 
as velas desfraldadas, triunfante e conquistadora.  preciso que ela 
tenha todos os homens de Paris  volta dela, para ele apreciar a sua 
felicidade. Creio que chega ao ponto de preferir que a mulher tivesse 
amantes do que no tivesse admiradores!
	-Exageras... - replicou Tremblay -, mas h alguma verdade no teu 
paradoxo. Mas Folentin, e v l explicar isto, ao mesmo tempo que fica 
lisonjeado por ver a mulher receber homenagens, tem cimes daqueles 
que lhas prestam. A  que Termont se engana. Se a baronesa pudesse 
enganar Folentin sem que o mundo o soubesse, ele talvez se acomodasse 
 sua desgraa, mas se o menor ridculo diminusse o seu prestgio... 
Oh, creio que perderia a cabea!
	-	No falemos mais disso!
	Um barulho ensurdecedor interrompeu os que conversavam. No 
vestbulo a multido dos espectadores espalhava-se para ir ao bufete. 
Os trs amigos de Folentin, libertos de terem de ouvir pouco que fosse 
da pea, sairam do camarote reservado e misturaram-se com os 
convidados. Encontravam-se ali em grupos, conversando, rindo,
abanando-se com os seus leques, no meio das atenes de parentes e 
amigos. O presidente do clube, que se reconhecia facilmente pela sua 
grande estatura e pelo seu ar de grande senhor, dava o brao  
embaixatriz de Inglaterra, enquanto uma alteza imperial tratava dos 
assuntos financeiros do seu pas, prodigalizando atenes  mulher de 
um financeiro rico. Era uma mistura de sociedades e de castas, 
resumindo de forma excelente aquilo a que costuma chamar-se o tout 
Paris. E, dominando a assistncia, motivo de todas as curiosidades, 
conquistadora como desejara
s-lo, a baronesa de Rocher reunia  sua volta uma corte de aduladores 
e de admiradores.
	Era muito bonita e o casamento fizera-lhe bem: a sua beleza loura 
desabrochara e parecia ter aumentado o sentimento de poder. Sabia-se 
admirada e oferecia-se aos olhares dos admiradores com uma altiva 
tranquilidade. Decotada, tanto quanto se pode estar quando se tem a 
certeza da perfeio daquilo que se mostra, tinha a garridice de no 
se encher de jias: uma simples fieira de prolas, mas magnficas, em 
volta do pescoo. Nos belos cabelos, naturalmente ondulados, uma nica 
pluma cor-de-rosa, do mesmo tom muito plido do vestido. Encontrava-se 
assim, no meio do vestbulo, num crculo familiar, radiante de 
satisfao, to deslumbrante pela sua graa e pelo seu brilho que 
todos os olhares se voltavam instintivamente para ela. Folentin, a dez 
passos, encostado a uma coluna de mrmore, conversava tranquilamente 
com amigos, como se estivesse completamente despreocupado dos actos e 
gestos da sua mulher e a deixasse livre e senhora das suas aces. 
Essa desenvoltura e essa segurana davam ao casal um certo domnio, 
uma marca de superioridade.
	Houve ento um movimento sbito na multido e as atenes 
desviaram-se por momentos de Folentin e da baronesa. gil, esbelto e 
sorridente, Condottier aproximava-se de Rose. Tirara o traje com que 
representara e agora, de fraque, com uma flor na lapela, recebia as 
felicitaes de todos os seus amigos, pois terminara o seu papel e da 
em diante seria apenas espectador. Mas todos os elogios que lhe faziam 
o deixavam indiferente. Ouvia-os com um sorriso distrado, mostrando 
bem que para ele s uma aprovao contava. E era a da rainha da festa. 
Chegou por fim junto dela, agarrou na mo que se estendia para ele, 
beijou-a com uma elegncia ligeira, depois inclinando-se diante do seu 
juiz:
	-	Ento? Est satisfeita? Divertiu-se?
	-	Oh, a vossa peazinha no faz mal a ningum. No entanto, 
foi preciso muito trabalho para conseguirem realizar este espectculo. 
O marqus esteve esplndido. Cantou o seu rond com um aprumo 
admirvel!
	-	Oh, estava nervosssimo!
	-	Ningum deu por isso!
	-	Acha ento que me poderiam contratar para o Variedades?
	-	Para falar verdade, no creio que seja como actor que possa 
vir a ganhar a vida.
	-	Ento desespero de vir alguma vez a ganh-la!
	-	Sim, no estou a v-lo entre os homens teis. Contente-se 
em estar entre os agradveis.
	-	, quanto a si, a minha nica ambio.
	-	Est bem. Oferea-me o brao para ir ao bufete. Morro de 
calor.
	Puseram-se em movimento, seguidos por um cortejo, atravessando 
pelo meio da assistncia que se afastava como para dar passagem a uma 
rainha.
	H dois anos que casara com o baro de Rocher e desde ento Rose 
aplicara-se, com uma tenacidade e uma habilidade notveis, a realizar 
o seu programa de existncia. Tornando-se mulher de Folentin, 
arranjara um poderoso aliado para ir  conquista do mundo. O banqueiro 
pusera ao servio dela a sua fortuna, a sua categoria social, as suas 
relaes de famlia. Rose tirara partido de tudo isso. Em poucos 
meses, a casa deles tornara-se uma das mais agradveis de Paris. Os 
jantares que oferecia agradavam totalmente ao marido, que a 
encontrava satisfao para a sua gulodice e para a sua vaidade. Alm 
disso, no tardou em verificar que os negcios se tratavam muito 
melhor nos sales que no seu gabinete. E como os seus interesses 
coincidiam com os seus prazeres, impelira a mulher para uma via que 
ela j sentia grande disposio para percorrer.
	A jovem baronesa, que possua modos perfeitos e uma conduta 
impecvel, concitara as simpatias das pessoas mais exigentes da alta 
sociedade. E a lua-de-mel com essa sociedade fora deliciosa. Fizera-se 
aceitar logo  primeira vez e sem resistncia. Nem sequer a tinham 
discutido. O seu xito fora completo e definitivo. No fim do primeiro 
Inverno, as suas recepes encontravam-se entre as mais procuradas e 
ela podia ousadamente convidar as mais altas personalidades sem que 
houvesse a mais pequena dvida de que o convite seria aceite. A casa 
dela no era daquelas em relao s quais as pessoas diziam: irei? Iam 
mesmo.
	Rose sentira-se um pouco entusiasmada, de incio, por um xito 
to raro e to deslumbrante. Folentin achara isso muito
natural. A ideia extraordinria que tinha de si mesmo legitimava a 
seus olhos essa ascenso vertiginosa para a notoriedade. Pensava que 
isso lhe era devido, no poderia ser de outra maneira, e que a 
baronesa de Rocher, muito naturalmente por ser sua mulher, devia ser 
uma dona de casa fora do vulgar. Fora devido  sua unio com ele que 
adquirira todos esses mritos, e na boa opinio que formava dela 
entravam trs quartos de apreo por si prprio.
	Um homem assim constitudo devia ver, sem sombra de apreenso, os 
homens mais elegantes e mais amveis de Paris rodearem a sua mulher 
para lhe fazerem a corte. As tentativas feitas contra a virtude da 
baronesa eram consideradas por Folentin como uma homenagem devida  
sua superioridade. E no encontrar um grupo de admiradores sempre 
junto de Rose, aproveitando todas as oportunidades para lhe agradar, 
seria uma decepo para esse marido to extraordinariamente convencido 
do seu mrito. Quanto  baronesa, aps um perodo de embriaguez, no 
tardara a dar-se conta de que toda essa glria no deixava de ter uma 
certa monotonia, e que os seus triunfos, como as ementas dos jantares, 
eram mais ou menos sempre parecidos.
	Um esprito to fino como o seu no podia ter iluses durante 
muito tempo a respeito de Folentin. A correco do baro mal encobria 
as suas limitaes intelectuais; a ternura pela mulher era apenas a 
exacerbao do seu amor-prprio. Comeou a v-lo tal como ele era: 
egosta, nulo, pretensioso, com uma boa disposio fictcia que 
ocultava uma dureza normanda. Foi-lhe impossvel am-lo, embora se 
tivesse esforado por isso. O glorioso Folentim iludiu-se, como se 
iludia no resto, e aceitou a passividade da mulher como o abandono 
admirativo de uma mulher perante o seu vencedor. Julgou-se to seguro 
dela que no lhe prestou a menor ateno. Se lhe tivessem dito: 
"Baro, a sua mulher engana-o", ele teria sorrido com ar superior e 
responderia: " impossvel!" Encontrava-se assim nas condies ideais 
para que tal acontecesse, mas Rose de modo algum pensava nisso.
	Depois do casamento, Condottier partira com a irm para o 
Oriente, passando pela Hungria, onde o conde Grodsko exigira que ela 
fosse, sob pena de lhe cortar todo e qualquer subsdio. E os modos de 
Condottier no produziram sobre a baronesa nenhuma impresso de 
fascnio. Representara o seu papel de mulher de sociedade,
esforando-se por encontrar prazer nisso e apercebendo-se que, uma vez 
passada a atraco da novidade, s encontrava agora cansao e um 
incurvel aborrecimento. Girava, todos os dias, no mesmo crculo de 
ocupaes fteis, recomeando no dia seguinte o que fizera na vspera. 
E o aparato, a etiqueta e a solenidade da sua vida mundana acentuavam 
desesperadamente o vcuo.
	No princpio, algumas jovens senhoras tentaram arrast-la para um 
grupo que causava um certo escndalo pela liberdade dos seus 
divertimentos e pela ligeireza dos seus costumes. Ela afastou-se disso 
com um bom senso notvel. Souberam-no e ela tirou da srias 
vantagens. Passou por ser rgida, o que permite, em certos momentos, 
deixar correr sem riscos. Dizia-se dela: " O seu esprito vivo leva-a 
algumas vezes a ter modos um pouco livres, mas isso no tem 
importncia, pois sabe-se que  uma mulher honesta." Teve assim o 
direito de falar com os seus amigos e dar largas  sua fantasia sem 
que a censurassem. Foi uma das boas coisas da sua situao e ela 
aproveitou isso, pois conversar com pessoas divertidas passou a ser 
uma das suas verdadeiras distraces.
	Estavam as coisas nesse p quando Condottier, bronzeado, mas no 
desfeado pelas suas peregrinaes asiticas, reapareceu no Faubourg 
Saint-Germain. Desde ento, afirmou-se como um outro homem. O jovem 
marqus, brilhante e leviano, deu lugar a um Condottier mais grave, 
mais tranquilo, mas igualmente elegante. Podia-se julgar que o 
prncipe da juventude deixara toda a sua loucura nas estradas. Rompeu 
com os seus antigos companheiros de folia, arranjou outras relaes e 
viveu de outra forma, que foi considerada boa. No mais foi visto  
mesa do bacar, deixou de atirar aos pombos, desligou-se de uma 
sociedade para jogar nas corridas, com Raimond de Thalin, e mostrou a 
inteno de fazer economias. Para qualquer outro teria sido funesto: 
pensariam que estava arruinado. Da parte dele, as pessoas achavam 
graa. Mas os curiosos tiveram em breve outros motivos de espanto. O 
marqus de Condottier passou a fazer parte dos conselhos de grandes e 
graves negcios e deu provas de aplicao e de bom senso. Folentin, 
que o encontrou  volta de uma mesa verde, na administrao dos 
Caminhos de Ferro da Tunsia, contou que ficou assombrado com os seus 
modos e at com a sua inteligncia.
	-	 incrvel - declarou  mulher - a que ponto este rapaz 
mudou! Outro dia, com o seu grande chique e a sua desemvoltura, a 
falar de finanas, deu-me a impresso de se tratar de Morny. Julgo-o 
apto a tudo. E se ele quiser dar-se ao trabalho,  capaz de fazer 
agora uma fortuna. Conseguiu reconciliar a irm com o conde Grodsko e 
 certamente com os capitais do magiar que ele se meteu nos grandes 
negcios. Esse Grodsko  extraordinariamente rico. Se vier instalar-se 
em Paris, como se diz, para ali viver uma parte do ano, a situao de 
Condottier vai transformar-se.
	-	Isso  muito bom para ele - disse Rose. - Tal mudana deve 
surpreend-lo, pois outrora no tinha, segundo me lembro, uma opinio 
muito boa sobre o marqus.
	-	E como havia de ter outra? Ele s fazia loucuras!
	-	Queria casar comigo!
	-	Essa era a maior de todas!
	-	Realmente?
	-	No era nada, mas nada, a mulher que lhe convinha. No 
teria conseguido dar-lhejuzo e ele t-la-ia arrastado para o 
desastre.
	-  possvel - disse pensativamente Rose. - Mas como se ter 
tornado sensato sozinho?
	-	A solido, a reflexo, os grandes espaos, o afastamento de 
Paris... Enfim,  um Condottier novo! Ele diverti-la-. Vai ver que 
no o vai conhecer!
	O marqus voltou a ver Rose. Ela reconheceu-o perfeitamente, mas 
achou-o melhor. Quanto  condessa Grodsko, tudo o que pudesse 
subsistir de aborrecido na sua amizade com Rose - desde quando ela era 
rapariga - desaparecera ao encontrar a baronesa Folentin. Tornaram-se 
ntimas e ningum pensou em se admirar com isso, Condottier menos que 
ningum. At M. Prvinquires, que nunca testemunhara muita simpatia 
pela condessa, se sentiu reconhecido.
	No momento em que o marqus e a irm voltaram das suas 
peregrinaes, Maurice estava, pela sexta vez pelo menos, prestes a 
preparar-se para casar com uma mulher de quem era amante. Era uma 
viva de trinta anos, extremamente bonita, e que, cada na misria, 
comeara a vender bibelots numa loja da Rua Caumartin. Morena, de 
olhos azuis e uma pele nacarada, redonda como uma codorniz, a Sra. 
Wessel era belga e mostrava-se exmia em conseguir vender a um amador 
um falso marfim do Renascimento, ou uma pea alem do sculo xvi, 
fabricada em Belleville. Vendia tambm tapearias de ponto antigo e 
tecido moderno.
	Maurice Prvinquires entrara um dia, por acaso, na loja dessa 
encantadora mistificadora, para comprar uma bonbonmre destinada  
irm. A pequena Sra. Wessel vendera muito caro a esse belo rapaz um 
bibelot sem valor, e na mesma altura tirara-lhe o corao. A partir 
desse instante, Maurice passou a frequentar a loja, na qual comprara 
numa semana, por uma dezena de milhares de francos, objectos de arte 
que o baro declarara no valerem ao todo dez luses. Depois, 
bruscamente, a vendedora recusara-se a vender-lhe mais coisas e pusera 
na rua Maurice Prvinquires, declarando que a sua contnua presena 
na loja afastava a clientela. Era preciso que ele se fosse embora para 
salvaguardar a sua reputao e tambm o negcio.
	Maurice, exasperado, recorreu ao seu mtodo habitual. Declarou  
comerciante de bibelots que a adorava e como ela respondesse que isso 
no era razo suficiente para a arruinar, props-lhe casar com ela. A 
amvel belga, ao ouvir essa proposta inesperada, adoou, e desde ento 
Maurice teve o direito exclusivo de se sentar num grande cadeiro Lus 
XIII em tapearia antiga, enquanto a Sra. Wessel fazia as suas contas.
O casal Prvinquires, consternado, tinha j recebido um respeitoso 
pedido de consentimento para o casamento, por parte do filho, e tudo 
levava a prever que esse jovem leviano ia prender-se, quando a 
condessa Grodsko chegou inopinadamente a casa de Rose, enquanto ela 
tentava, por todas as maneiras, fazer com que o irmo raciocinasse.
	Ajovem senhora meteu-se na conversa, como uma familiar da casa, 
troou alegremente de Maurice, pintou um quadro ridculo da vida a 
dois numa loja da Rua Caumartin, deu a entender que um homem tinha 
todo o direito de fazer disparates, mas que no devia cometer uma 
vilania, que a pequena Wessel tinha uma reputao duvidosa como 
comerciante e que tornar-se seu guarda-livros podia trazer-lhe 
consequncias piores do que ele pensava. Foi brilhante, convincente, e
perturbou seriamente Maurice, que fez entre as condessas hngaras e as 
comerciantes belgas comparaes vantajosas para a Hungria. A condessa 
Grodsko continuava a "bater" na Sra. Wessel e o volvel Maurice s 
pensava agora em renovar o seu flirt com a condessa. Como fumo que o 
vento dissipa, o amor que sentia pela comerciante de bibelots, a sua 
resoluo de casar com ela, a sua obstinao em resistir aos pais, 
tudo desapareceu. E passou a ocupar-se apenas de uma boca sorridente, 
de dois belos olhos negros e de uma cintura delicada vestida pelos 
melhores costureiros. A condessa Grodsko ficou uma hora em casa de 
Rose e quando partiu levava, no seu coup, Maurice, que aceitarajantar 
com ela em vez de ir ter com a sua boa amiga no meio dos seus falsos 
bibelots.
	Todo o trabalho merece salrio. E o servio que a irm do 
Condottier acabava de prestar  famlia Prvinquires valia bem um 
pouco de reconhecimento. Estabeleceram-se relaes muito cordiais 
entre as senhoras Grodsko e Prvinquires. Duburle fez notar que era a 
segunda vez que Maurice era salvo de situaes dificeis pelo irmo e 
pela irm. O marqus arrancara- s garras da menina Amdine de 
Narbonne e a condessa acabara de estragar os projectos da Sra. Wessel. 
Prvinquires foi obrigado a reconhecer a importncia da sua dvida. 
Teve de reconhecer tambm que seu filho adquirira o hbito de seguir a 
Sra. Grodsko para toda a parte e que com ela o jogo do casamento no 
podia recomear. O industrial era obrigado a reconhecer que se essa 
situao era fortemente imoral, ela no deixava de ser de grande 
comodidade. A sua conscincia gemia com isso, mas a razo dominava e 
ele fazia de conta que nada sabia.
	Quanto a Folentin, no se mostrava nada impressionado pela 
assiduidade de Condottierjunto da mulher. Convidara-o para sua casa, 
de maneira a fazer-lhe crer que tinha prazer com a sua presena. O 
marqus abusara imediatamente, mas a maneira de se comportar com Rose 
era muito diferente dos modos antigos. J no era o mesmo apaixonado 
de antigamente, como no era o mesmo homem. E era preciso concordar 
que as mudanas tinham sido para sua vantagem. Mostrava-se agora 
discreto, reservado. A corte que fazia jovem senhora era cheia de 
cambiantes e no se diferenava muito de uma amvel camaradagem. 
Informava, guiava, esclarecia a Sra. Folentin, em todas as 
circunstncias, com um tacto perfeito. Ela chamava-lhe 
prazenteiramente o seu conselheiro ntimo e dizia, rindo:
	-  de uma severidade incrvel comigo.
	Na realidade, Condottier impedira Rose de cometer alguns erros de 
etiqueta, que poderiam ser-lhe prejudiciais, e a sua censura fora to 
justa que Folentin lhe ficara agradecido. A extrema fatuidade do 
marido, fortificada pelo reconhecimento, dera a Condottier uma 
situao excepcional na casa. Mas com um engenho e uma pacincia 
notveis, fazia o possvel por no magoar o amigo. Dir-se-ia que ele 
levava a peito fazer esquecer as suas antigas ameaas e dar-lhe uma 
segurana completa. Conseguia-o completamente. Folentin parecia j no 
se lembrar que fora o rival de Condottier, que ferira o seu amor-
prprio da maneira mais violenta e que este declarara vingar-se.
	Folentin sentia grande prazer em encontrar o marqus em sua casa. 
Levava-o a Chantilly para ver galopar os seus cavalos, no organizava 
uma caada em Rocher sem que o amigo estivesse presente, e quando no 
o encontrava nos sales da baronesa censurava-a. Qualquer outro que 
no fosse Condottier ficaria esmagado por tais demonstraes de 
simpatia e de confiana. Mas ele, sorridente, calmo, aceitava a 
situao com um perfeito -vontade e prestava a Rose todas as 
homenagens. No a deixava nunca, acompanhando sempre a irm, e a sua 
presena era constante junto das duas jovens senhoras. No havia 
situao mais favorvel, pois dava a pouco e pouco confiana a Rose, 
deixando-a exercer uma autoridade com a qual se comprazia, esperando 
ver chegada a sua hora e decidido a agir segundo as circunstncias. 
Julgava-se senhor do terreno, pois lidava com um marido cujo 
diletantismo roava pela cegueira, com um irmo que estava conquistado 
para a sua causa, quando se deu um facto aparentemente vulgar e que 
provocou alteraes nos planos to habilmente preparados por ele.
	Encontrava-se uma tarde, por volta das seis horas, com Rose e 
Maurice num dos pequenos sales dos Campos Elseos, muito ocupado a 
discutir as peripcias de uma corrida de automveis, quando Folentin, 
que nunca vinha a casa entre o almoo e ojantar, apareceu com ar 
satisfeito. Como o amigo se levantasse para lhe apertar a mo, fez um 
gesto de protesto:
	-	No se incomode! Se causo o mais pequeno incmodo vou-me 
embora. De resto, estou apenas de passagem... Soube que Maurice se 
encontrava aqui e foi para o encarregar de uma pequena misso que aqui 
vim... Eis do que se trata: recebi h pouco, no meu escritrio, a 
visita de um dos vossos amigos, que acaba de chegar da Amrica e que 
tem um crdito considervel aberto sobre a minha casa...
	-	Quem  o nababo?
	-	Um homem que conhecem bem e que o vosso pai vai certamente 
ficar contente por voltar a ver: Valentin Raynaud...
	-	Fez ento fortuna do outro lado do mar?
	-	Segundo o pouco que me contou, teria comprado, com o seu 
amigo Evans, campos petrolferos, e a sorte favoreceu-os ao ponto de 
tirarem dos seus poos lucros que nem ouso enumerar, de tal modo so 
fantsticos.
	-	Ah! Esse bom Valentin! - exclamou Maurice. - Teve sorte em 
deixar Beaumont. Mas tanto dinheiro para um homem que no tem 
necessidade dele!  a cegueira da fortuna! A mim  que me devia cair 
em cima da cabea uma telha de ouro como essa.
	-	Seria preciso comear por ir para o pas das telhas de 
ouro...
	-	Onde , que eu vou j para l?
	-	Pois , nunca se sabe antecipadamente.  justamente por 
isso que h algum mrito em descobri-lo.
	-	Quer fazer o favor de avisar o seu pai de que o senhor 
Raynaud se encontra em Paris e tenciona ir visit-lo brevemente? E com 
isto volto para o meu trabalho e deixo-os entregues aos vossos 
prazeres. At logo.
	-	Tente descobrir uma mina de petrleo, Folentin - disse 
Maurice -, e meta-me l dentro.
	-	No h s minas de petrleo - respondeu o baro - E se 
quiser tornar-se srio, Maurice, terei muito prazer em o receber na 
minha casa...
	-	O qu! Para errar as contas e cercear os cus? No, prefiro 
uma especulao imediata, um golpe d'As Mil e Uma Noites, como o de 
Valentin Raynaud... Que sorte!
	-	Sim, um milagre!  muito raro, caro amigo. Geralmente s se 
enriquece com muito trabalho e ainda mais pacincia... Ento, at 
logo... Fazem-me conversar...
	Apertou a mo a Condortier, beijou muito burguesmente a mulher e 
partiu. Rose, entre Condottier e seu irmo, ficou sonhadora. Os 
gracejos de Maurice, as amabilidades de Condottier no conseguiram 
faz-la descontrair-se. Vendo isso, os dois despediram-se com tacto e 
deixaram a jovem senhora entregue aos seus pensamentos. O brusco 
reaparecimento de Valentin Raynald perturbava-a. H dois anos que ele 
desaparecera e ela s ouvira falar vagamente dele. Sabia que o pai 
recebia regularmente notcias do seu antigo contramestre. Mas o pai 
nunca entrava em pormenores sobre a situao de Valentin. Por seu 
lado, Rose tambm o no interrogava. No lhe era agradvel recordar a 
entrevista decisiva que tivera com Raynaud e durante a qual ela 
descobrira tantas coisas que ele tentara ocultar-lhe.
	A sua memria no lhe dava a iluso de ter levado a melhor nessa 
discusso de princpios com o seu companheiro de infncia.
Revia-alternadamente grave e apaixonado e voltava a sentir a sensao 
de espanto, quase irritado, que sentira ao ver-se dominada por aquele 
a quem ela sempre considerara como um subalterno. Desconfiara ter-se 
enganado sobre o valor dele, mas era ento demasiado tarde para 
modificar as suas ideias e os seus projectos. No podendo fazer-lhe 
justia, tentara rebaix-lo, a fim de salvar pelo menos o seu
amor-prprio. E agora ele reaparecia, possuidor, segundo o que dissera 
Folentin, de uma das duas foras que, a seus olhos, se afirmavam 
indispensveis  soberania mundana: uma grande fortuna. Pensou que era 
justo e at que no era surpreendente que assim fosse. Valentin, para 
a ter dominado moralmente, mesmo apenas durante uma hora, tinha de ser 
um esprito superior, e a jovem senhora sentia uma certa satisfao em 
que um homem, que ousara erguer os olhos para ela, se revelasse digno 
de ter tido essa ousadia. Concluiu que gostaria de voltar a
encontrar-se na presena dele e esperava esse momento com curiosidade.
	Raynaud no parecia ter pressa em a satisfazer. H quinze dias 
que Folentin anunciara a sua chegada, h dez dias que Prvinquires 
recebera a visita do seu antigo contramestre, e Rose estava ainda  
espera da visita que desejava. Ao princpio, admirara-se com a sua 
falta de pressa. Depois, reflectindo, achou que s o receio de se 
encontrar em frente dela mantinha Valentin afastado. Essa timidez 
divertiu-a. Ela pensara, desde o primeiro instante, que o empregado de 
M. Prvinquires, forte com a sua riqueza recentemente adquirida, ia 
apresentar-se com ares triunfantes. Propunha-se trat-lo de alto para 
lhe mostrar que o poder do dinheiro no era tudo. E longe de a 
desafiar, Valentin fugia-lhe.
	Comeou a sentir-se despeitada. E s boas intenes que ela 
comeara por sentir, sucederam-se ms disposies. Mas quer fosse para 
bem ou para mal, a verdade  que Valentin ocupava muito o esprito da 
baronesa. E talvez a irritao que se apoderava da jovem mulher 
nascesse dessa constatao que no podia deixar de fazer. Uma manh, 
enfim, seu pai disse-lhe pelo telefone:
	-	Esta noite Valentin Raynaud vemjantar connosco. Queres vir 
tambm, com o teu marido?
	Rose estava comprometida h quinze dias, mas a tentao era 
demasiado forte. Aceitou imediatamente, sem mesmo consultar Folentin. 
Por precauo, perguntou:
	-	Vai muita gente ou  um jantar em famlia?
	-	S estar presente Duburle, alm de ns e do teu irmo. No 
precisas de grande toilette.
	-	Precisam de me aceitar em grande toilette. Vou depois a uma 
festa em casa dos Roccanera...
	-	Vem como quiseres!...
	Rose no tencionava ir ao sero dos Roccanera, onde se aborrecia 
cordialmente, pois o salo do duque reunia uma das sociedades mais 
moderadas e mais graves de Paris. Mas decidira, desde o primeiro 
instante, mostrar-se a Valentin Raynaud em todo o seu esplendor. 
Chegou tarde, porque quis, para fazer a sua entrada, que j l 
estivesse toda a gente, e ao primeiro olhar viu-o colocado 
modestamente a um canto do salo, de p e conversando com o baro 
Duburle. Dirigiu-se imediatamente para ele, de mo estendida, com uma 
expresso radiosa. Ele inclinou-se num cumprimento cerimonioso e mal 
tocou nos dedos que um Condottier teria levado aos lbios. Ela falou:
	-	Estou muito contente por o voltar a ver, senhor Valentin. E 
sei que o pap est felicssimo... Parece que teve sorte... H-de 
contar-me isso, no  verdade? Deve ser interessante...
	Ele decidiu-se a responder.
	-	No o creia, senhora.  tudo muito prosaico e ficou a
dever-se ao acaso. Procurvamos, o senhor Evans e eu, terrenos para 
construo, e ao remexermos o solo encontrmos petrleo. Nada mais.
	-	 verdadeiramente curioso que essas coisas nunca sucedam a 
imbecis. E so abundantes, os poos?
	-	Se o seu dbito no baixar encontram-se entre os mais 
produtivos que existem.
	-	Bravo! Isso  bom para os automveis.
	Eram oito horas. Foram para a mesa. E Rose pde examinar 
demoradamente Raynaud. Achou-o mudado para melhor. Arranjara um bom 
alfaiate e vestia com sbria elegncia. Parecia mais delgado. O vento 
das savanas e o ar do mar tinham-no bronzeado. Usava os cabelos curtos 
e parecia mais novo do que quando partira. Falou pouco, durante 
ojantar, e apenas quando o interrogavam. Prvinquires olhava-o com 
uma satisfao misturada de melancolia e, quando os seus olhos 
pousavam em Folentin, era fcil ver a comparao que ele fazia entre o 
seu antigo contramestre e o seu genro, e que essa vantagem no era 
favorvel a este ltimo. Mas as lamentaes eram suprfluas. No se 
podia voltar atrs. Ele era seu genro. Depois do jantar, os homens 
passaram para a sala de fumo, e Duburle, que tinha horror ao tabaco, 
ficou com as senhoras. Rose interrogou-o.
	-	Explique-me l, padrinho, o que  um negcio de petrleo.
	-	Bem, minha cara,  muito simples. Tomemos como exemplo a 
Rowland Oil Company, que est dividida em aces de vinte e cinco 
francos. Cada aco rende quatro ou cinco francos por ms, conforme o 
rendimento.
	-	Mas so duzentos e cinquenta por cento.
	-	Como fazes bem os clculos, mulher de banqueiro...
	-	Seja delicado, sim? Ento quando, em vez de ser dividido em 
aces, umajazida petrolfera  explorada pelo seu ou seus 
proprietrios...
	-	So milhes de rendimento por ms. Ultrapassa o das minas 
de ouro.  o que se conhece de melhor para fazer uma fortuna enorme e 
rpida, neste momento.
	-	Ento Valentin Raynaud?
	-	No sei qual  a sua participao na Evans Oil...
	-	Ento chama-se Evans Oil? E por que no Valentin Oil?
	-	Delicadeza para com o associado indgena, sem dvida. Mas, 
segundo o que se sabe na Bolsa, a carteira do rapaz deve estar bem 
recheada.
	-	Isso no o mudou.
	-	Que querias que ele fizesse? Raynaud no  louco. No vai 
usar botes de diamante na camisa. Vive no Palace Hotel, mas procura 
uma casa para comprar... Dizia-o no momento em que chegaste.
	-	Vai ento fixar-se em Paris?
	-	Isso  certo.
	-	Com a idade dele pensa em descansar?
	-	Porque h-de descansar? Trabalha-se menos em Paris que 
noutro stio qualquer? Trabalha-se de outra maneira, eis tudo. Um 
homem como Raynaud, habituado aos negcios, tem mil maneiras de se 
ocupar utilmente. Algum a quem o dinheiro nada custa, e  o caso 
dele, pode prestar servios imensos ocupando-se de obras sociais. 
Nessa ordem de ideias est tudo por fazer. Seria indispensvel que um 
soberano se ocupasse de realizar essas reformas que so necessrias. 
Mas os soberanos esto muito ocupados a defender o seu trono para 
terem tempo de fazer a felicidade dos seus sbditos. Ser preciso que 
um filantropo riquissimo tenha um dia a fantasia de empreender esse 
trabalho formidvel e esplndido. Um Carnegie j o comeou, na 
Amrica... Seria necessrio um Raynaud em Frana.
	-	Mas, padrinho, que sucederia ao Partido Socialista?
	-	Cairia totalmente no ridculo e isso no deixaria de ser um 
motivo de alegria para mim. Sim, ver um capitalista, um burgus, um 
patro, comear a aplicar as reformas que os tagarelas, esses 
incapazes, prometem, quando esto na oposio, e se apressam a deixar 
no esquecimento, quando chegam ao poder. Que espectculo!
	-	Oh, vejo que  um reaccionrio furioso!
	-	Ento, minha filha, com a minha idade, os meus gostos e as 
minhas tradies, no querias que fosse um partidrio da diviso dos 
bens.
	Os fumadores regressavam. A conversa mudou. Prvinquires 
interrogou com curiosidade Raynaud sobre a indstria americana. Este 
respondeu calmamente, com clareza e sem qualquer exagero nos elogios e 
na crtica, mas com uma justeza de vistas que Folentin apreciou. 
Quanto a Maurice, falou com loquacidade do desejo que sentia de ir 
visitar o Novo Mundo. E como o pai, assombrado, no encontrava uma 
palavra para dizer, ele espraiava-se em consideraes que levaram um 
sorriso aos lbios de Valentin.
	-	Pois bem, Maurice, se quer realmente partir e se a sua 
famlia no se ope a isso, nada mais fcil do que ir juntar-se ao 
senhor Evans, em Pittsburg. Ele receb-lo- com muito prazer e se 
quiser dedicar-se aos negcios, ser-lhe- fcil dirigi-lo...
	-	Ah! Se isso fosse possvel! - exclamou Prvinquires com 
entusiasmo. - Isso seria prestar-me um servio inestimvel! Arrancar 
este rapaz  ociosidade, fazer dele um homem como deve ser, faz-lo 
assumir o seu destino, que  o de trabalhar como todos aqueles cujo 
nome ele usa.
	-	Mas no  a mesma coisa - disse Maurice. - Aqui nunca me 
falaram seno de entrar para os escritrios ou de vigiar os operrios 
na fbrica... Mas num pas novo, ocupar-me de grandes trabalhos, com 
uma actividade incessantemente renovada... Acho que merece a pena 
tentar...
	-	Ele j partiu! - disse Rose com um sorriso. - Quando 
embarcas?
	-	Quando Valentin quiser. Levo aqui uma vida de imbecil. 
Estou pronto a provar que no sou mais parvo do que qualquer outro!
	-	Qual outro? - perguntou Folentin, com ar de troa.
	-	Que voc, por exemplo - replicou Maurice.
	Folentin fez uma careta. Gostava de proferir uma impertinncia, 
mas detestava que lha retribuissem.
	-	E quem o comanditar, meu caro? - perguntou Folentin, 
esperando recuperar vantagem no campo das finanas.
	-	Raynaud, estou certo disso! - exclamou o jovem.
	Uma onda de sangue invadiu o rosto de Valentin. Voltou-se para 
Maurice e com uma voz que a emoo fazia tremer:
	-	Agradeo-lhe, Maurice, a confiana que deposita em mim. 
Gostarei muito, com efeito, de lhe dar, e muito facilmente, um pouco 
do apoio que eu e os meus sempre recebemos da vossa famlia. O que sou 
 a seu pai que o devo. Nunca o esquecerei. E faa o que fizer para 
lhes ser til, no conseguirei pagar-lhes tudo o que lhes devo.
	-	Bem, voltaremos a falar de tudo isto.  preciso que a 
resoluo de Maurice no seja um capricho. Um pouco de reflexo dar 
mais consistncia e fora aos seus projectos. Escusado ser dizer que 
aceito o seu oferecimento, meu caro Valentin, mas financeiramente 
bastarei para as necessidades da situao. No teremos necessidade de 
ningum...
	Dizendo estas palavras, deitou um olhar de censura a Folentin. 
Mas este nunca percebia seno aquilo que lhe era agradvel entender. 
Voltou-se para Rose e disse:
	-	Minha querida, se quer ir passar uma hora a casa dos 
Roccanera  tempo de partirmos...
	-	Oh, no - respondeu Rose com ar resoluto. - Aborrecemo-nos 
mortalmente em casa dos Roccanera... Sinto-me muito bem aqui e 
acabaremos o sero por c. Senhor Valentin, conte-nos como foi levado 
a comprar os terrenos em Chiquito. Porque  em Chiquito que ficam os 
poos, no  verdade?
	-	Minha cara - interrompeu Folentin com azedume -, abusa da 
complacncia do senhor Raynaud. Fala apenas dos petrleos dele. Daqui 
a pouco vai pedir-lhe aces...
	-	Com que as pagaria eu? - replicou alegremente Rose. - Terei 
dinheiro? Logo que possuo algum, vou gast-lo na minha modista... Ah, 
o meu marido tem toda a razo, senhor Raynaud - suspirou Rose. - Teria 
grande necessidade de descobrir uma mina... Vou associar-me a 
Maurice... E quando ele tiver ganho milhes, dar-me- a minha parte.
	-	Quem a ouvir - interrompeu novamente Folentin - julgar que 
lhe falta tudo. Felizmente conhecem-me. E sabem que eu lhe dou...
	-	Rigorosamente o suprfluo!... - Fez um gesto para impor 
silncio ao marido e, voltando-se para Raynaud, disse com ar atento: - 
Ento, senhor Raynaud, escuto-o.



Captulo sexto

	-	Sabes, meu caro, que a bela Folentin  muito capaz de te 
pr de lado!
	-	 a primeira curiosidade suscitada por Valentin Raynaud. 
Isso passa-lhe.
	A condessa Grodsko, sentada no seu quarto de toillette, esfregava 
as unhas com um polidor de pele embebido num creme cor-de-rosa e, 
abanando a cabea, olhou o irmo com ar preocupado.
	-	No te apercebes bem da situao. Eu, que conheo bem Rose, 
asseguro-te que ela est mais interessada do que tu pensas...
	-	Por esse rapaz?
	-	Por esse rapaz.
	O marqus de Condottier esboou um leve sorriso.
	-	Seria ento a segunda vez que ela me pregaria a partida? 
Com Folentinj foi de mais! Mas com o senhor Valentin Raynaud seria 
demasiado forte! Tenho de me precaver.
	-	 altura de o fazeres, aviso-te.
	-	Considera-la capaz de enganar Folentin com o antigo 
empregado do senhor Prvinquires?
	-	No! Mas acho-a muito capaz de nunca mais querer ouvir 
falar em o enganar contigo, o que iria dar ao mesmo.
	-	Ento esse Valentin prestaria, sem o saber, um grande 
servio ao nosso amigo?
	-	Sem o saber? Achas isso?
	-	Estiveste sempre convencida de que Raynaud se interessava 
pela nossa amvel Rose...
	-	Basta v-lo na presena dela para se perceber que esse 
interesse s aumentou...
	-	E em que se traduzir isso?
	-	Segundo observei, creio que da parte dele se traduzir por 
uma paixo platnica intensa. Quanto a ela... No sei... Ser preciso 
ver... Acho-a muito agitada... No anda to aborrecida. E s por isso 
tu perdes cinquenta por cento das tuas possibilidades... Toda a 
questo consiste em saber se, no caso de a ocasio se apresentar, esse 
senhor ser pessoa para a aproveitar. No o creio.  um desses homens 
que respeitam o objecto do seu amor e que julgaria cometer um 
sacrilgio dando satisfao a uma mulherzinha que no deseja outra 
coisa. A pior espcie de galanteadores... feitos para inspirarem, no 
primeiro momento, uma admirao que se transforma, ao fim de cinco 
minutos, em despeito, e ao fim de um quarto de hora, em desdm!
	-	Que psicologia!
	-J no acredito nos anjos-da-guarda. Esto fora de moda. Mas 
seria realmente pouca sorte se encontrasses um pela frente.
	-	Regressado da Amrica!
	-	Penso, portanto, que se o senhor Valentin Raynaud se 
limitar a dar bons conselhos  baronesa Folentin, na altura em que ela 
parece desejar receber apenas maus, se desacreditar rapidamente. 
Ento aquele que estiver por perto, para dar realizao ao capricho 
no satisfeito, ter muitas possibilidades de ter xito. No digo que 
aps o primeiro atordoamento no oua dizer frases prprias de quartos 
actos de peas em que as mulheres cometem disparates mais por causa da 
cabea do que por causa do corao. "Oh! Deixe-me! Causa-me horror!" 
Mas depois de cometido o horror, o beneficirio ter apenas de ter um 
pouco de pacincia e a dama acalmar-se- e pedir uma segunda prova do 
horror em questo. Da a gostar do seu cmplice vai apenas um passo. E 
se for o marqus de Condottier que estiver metido no caso, o senhor 
Folentin ser castigado por aquilo em que pecou.
	-	Tu s extraordinria. Admiro-te...
	-	Beija-me e vai-te embora. Preciso de acabar de me vestir. E 
abre os olhos para as manobras da tua bela amiga.
	Se a condessa Grodsko, com a sagacidade de uma mulher que julga 
as outras por si mesma, via claro nos sentimentos da baronesa 
Folentin, fazia tambm uma apreciao justa sobre as intenes de 
Valentin Raynaud. Este, voltando a Frana com a convico de que Rose 
era feliz, ficara assustado ao constatar que no o era. Oito dias 
tinham sido suficientes para ele se aperceber do que havia de fictcio 
na brilhante situao dajovem senhora. Em casa do seu antigo patro 
apercebera-se bem disso. E Prvinquires, em poucas palavras, fizera-
lhe perceber mais do que ele precisava de saber:
	-	Sim, a minha filha  uma das rainhas de Paris. Mas isso 
serve-lhe de grande coisa! No tem vida ntima; todas as suas 
satisfaes so exteriores. O marido  um rapaz encantador, que leva o 
seu amor-prprio ao ponto de no se ocupar dela. Cada um tem a sua 
liberdade. E no tm filhos ao fim de dois anos de casamento. So os 
novos costumes. Est tudo muito bem, de momento. Mas dentro de dez 
anos, quando chegar a maturidade, que suceder ao casal que s pensa 
agora em exibir-se nos sales? A casa estar vazia, o lar ser triste. 
Ah, quando digo estas coisas chamam-me velho, rococ, antiquado, que 
isto  teatro de Scribe, vaudevilie, eu sei l... E riem. Mas mais 
tarde no ho-de rir, quando tiver passado ajuventude e no tiverem 
com que se consolar... No era isso que eu tinha sonhado, Raynaud. A 
minha filha assim o quis. Ela ser a primeira a sofrer.
	Valentin no encorajou as suas confidncias. Sentia que se 
dissesse uma palavra mais, Prvinquires lhe diria: "Porque no o 
escolhi eu favoravelmente quando me confessou o seu amor, porque no o 
impus  minha filha? Era a si que eu devia ter aceite. Mesmo sem os 
milhes do petrleo valia mais que Folentin. E agora que comparao 
ser possvel?"
	No queria ouvir esse mea culpa, a sua delicadeza repelia esse 
triunfo intil. Para qu uma desforra? O seu amor-prprio no a pedia. 
E quanto  sua ternura por Rose, ela era demasiadamente profunda para 
que ele pensasse em alegrar-se por a ver mal-casada ej desiludida com 
o que poderia esperar do futuro. Interrompeu as queixas de 
Prvinquires.
	-	Creio que exagera, senhor, os pequenos inconvenientes de 
uma posio magnfica. Nada  completo neste mundo e a felicidade 
menos que tudo. O casal Folentin pareceu-me muito satisfeito com a sua 
sorte, e no  preciso sermos mais exigentes que eles prprios.
	Prvinquires suspirou, abanou a cabea e falou de outra coisa. 
Nos meios industriais, onde encontrou numerosos amigos, Valentin no 
pde fugir to facilmente s confidncias. Ali as coisas eram 
ampliadas e ele ouviu contar que a filha do seu antigo patro era 
amante do marqus de Condottier. Riam desse "imbecil Folentin" que no 
via mais longe que a ponta do nariz e se dava ares gloriosos quando 
era ultrajosamente enganado pela mulher. Em vo Valentin tentou 
contestar, mas replicavam-lhe com certezas. O marqus e a baronesa no 
se largavam. Os encontros tinham lugar em casa da condessa Grodsko, 
que se prestava  intriga com uma complacncia perfeita. Os pormenores 
foram to completos, de tal modo circunstanciados, que Valentin sentiu 
abalar-se a confiana na virtude de Rose. Afinal de contas, porque 
haveria ela de poupar esse tolo que se pavoneava, fingindo no dar 
qualquer importncia ao comportamento da mulher? No lhe dava ele 
licena de fazer o que lhe agradasse?
	Foi um cruel tormento para Raynaud. No podia esquecer as 
impresses da infncia e da juventude e de formar outra opinio sobre 
Rose, diferente daquela que tivera toda a vida. Via-a apenas fresca, 
pura, risonha, como ele a amara. E, no entanto, lembrava-se de uma 
outra Rose, com a qual tivera uma conversa no jardinzinho da fbrica 
de Beaumont, conversa essa que fora cheia de revelaes inesperadas. 
Nesse dia ouvira-a desenvolver um programa de ambio e de vaidade, 
pronta a tudo sacrificar s aparncias, pondo de lado a ternura, a 
coragem, a inteligncia e colocando acima de tudo a categoria social e 
a fortuna. Essa Rose, que o desencantara to duramente, no seria 
capaz de se tornar a grande mundana desdenhosa da opinio dos outros, 
sem respeito pela f jurada e pronta a lanar-se nos braos de um 
amante brilhante e lisonjeador? Que diferena haveria entre a jovem 
que casara com Folentin, porque ele lhe facilitava a conquista da 
sociedade, e a jovem mulher que se dava ao marqus de Condottier por 
ele ser o rapaz mais em moda de todos os do seu gnero?
	Raynaud sofreu de tal modo por pensar que aquela que ainda 
adorava tivesse cado a tal ponto que sentiu dio por Folentin, por 
ter permitido a sua queda, e por Condottier, por se ter aproveitado 
dela. No entanto, convidado para jantar por Folentin, depois do 
encontro em casa de Prvinquires, apesar de sentir desejos de 
recusar, recuando diante das hipocrisias e das mentiras, aceitou. 
Estremeceu ao pensar que Condottier estaria presente. Sabia bem que 
no o conseguiria evitar sempre e que qualquer tentativa para afastar 
o momento em que se encontrariam frente a frente seria pueril. Mas 
poderia impedir o seu sangue de ferver e o seu corao de bater? Era 
um homem do povo, com o vigor e a sade de um campons. E as suas 
cleras no eram frias e racionais, mas sim tumultuosas e violentas, 
prontas para atacar.
	Dirigiu-se para a casa dos Campos Elseos cheio das mais vivas 
apreenses. Mas compreendeu, desde os primeiros instantes, que a 
frvola despreocupao daqueles a quem ele receava dar a perceber a 
sua perturbao, o protegiam de qualquer surpresa. As suas observaes 
superficiais no lhes permitiam analisar os sentimentos - to 
cuidadosamente ocultos - de Valentin. S a condessa Grodsko, 
clarividente por hbito da intriga, devia discernir o que havia de 
forado na reserva do antigo empregado de Prvinquires, e o que havia 
de inusitado nas atenes de Rose para com um homem que no pertencia 
ao seu nvel social. Foi sem comoo que Valentin foi apresentado ao 
marqus de Condottier. Ficou at surpreendido por no o achar 
desagradvel. O marqus, geralmente amvel, mostrou-se cheio de 
atenes para com o viajante que voltara da Amrica. A gravidade de 
Raynaud, que apesar dos desvelos da senhora Folentin, permaneceu num 
canto a falar com Prvinquires, agradou ao astuto marqus. Este 
catalogou Raynaud de "homem srio". E como at ento, para ele, um 
homem srio era o contrrio de um homem mulherengo, no prestou a 
mnima importncia s atenes com que a dona da casa rodeava a calma 
personagem. Era, no entanto, visvel que Rose o notava muito 
especialmente e lhe dirigia todos os seus sorrisos. Duburle, que era 
um Condottier maduro, no se iludiu. E no dia seguinte mesmo, quando 
se encontravam ambos numa tribuna de concurso hpico, disse a Rose:
	-	Que tens tu com o Raynaud desde que ele voltou com a sua 
grande fortuna? Queres dar-lhe volta  cabea?
	-	Eu, padrinho? E para qu?
	-	Para lhe fazer andar a cabea  roda.  uma distraco que 
as mulheres apreciam, sem objectivo, apenas pelo prazer de o fazer. 
Como se atira ao alvo apenas para mostrar a destreza.
	-	Oh, eu no me divirto com essas bagatelas. Tenho outras 
coisas a fazer. Olhe, o senhor Condottier acaba de entrar na pista com 
a sua gua Bar-maid... Monta bem, disso no h dvidas...
	-	Sim, sim, monta bem. Far o percurso sem faltas? Tem apenas 
um concorrente a recear, que  o belo Kersaint.
	-	Est a ver como a condessa Grodsko conversa com Kersaint. 
Se ela pudesse hipnotiz-lo, sugestion-lo para ele perder...
	-	Como  que ela no se encontra hoje a teu lado?
	-	Veio com a senhora Valauris, que no me suporta... J se 
desculpou por isso e mais tarde h-de vir ter connosco...
	-	Ainda dura, a disputa com a senhora Valauris?...
	-	Ela  to tola, essa mulher seca, de cabelos pintados e 
olhar parado... Eu nada lhe fiz... nem a conheo.
	-	Mas ela conhece-te. E  esse o seu desgosto. Devolve-lhe 
Condottier e ela gostar de ti.
	-	Eu tirei-lho? - replicou Rose, que se fez vermelha de 
irritao. - Condottier pode ir para onde lhe apetecer. No anda com 
uma coleira ao pescoo...
	-	Ah, quinze dias antes no dirias isso!
	-	Porqu?
	-	Porque nessa altura querias trazer Condottier pela trela... 
Hoje nem sequer o observas a fazer o seu percurso... Olha,
cumprimenta-te... Bom dia, marqs, muito bem,  um admirvel saltador.
	-	Que quer dizer com isso? - perguntou Rose com um sorriso.
	-	Quero dizer que ele salta de todas as maneiras - replicou 
tranquilamente Duburle. - V, salte, marqus... Salte pelo rei da 
Prssia!... Ah, se fosse Valentin Raynaud era outra coisa!
	-	Certamente que seria outra coisa, e nada banal. Est a 
imaginar o senhor Raynaud, com um casaco vermelho, nessa pista, 
rodeado de tribunas, e fazendo de mestre de equitao de circo para 
divertir todos os imbecis que o olhassem...
	-	Tu s dura para ns.
	-	Mas eu tambm sou desses imbecis.
	-	Julgavas todas estas coisas de modo bem diferente ainda h 
pouco. Como  que o ouro puro se pode ter mudado em chumbo vil? 
Amrica e mistrio!
-	O padrinho  insuportvel!
	-	 o que se diz geralmente s pessoas cuja clarividncia 
embaraa.
	Dessa vez Rose zangou-se e, olhando Duburle de cima, disse:
	-	Acha que estou apaixonada por Valentin Raynaud?
	-	No iria jurar que no.
	-	Quem lhe pede para jurar? Deixe-se estar sossegado e no 
faa suposies.
	-	Zangas-te? Grave sintoma!
	-	Veja, o marqus de Condortier acabou o seu percurso e 
dirige-se para ns a galope...
	-	Ah, bem pode galopar!  a altura de o fazer.
	A condessa Grodsko, como se tivesse pressentido que a sua 
presena era necessria, deixara a Sra. Valauris e ia parajunto de 
Rose. Apertou a mo  amiga e a Duburle e perguntou:
	-	Montou bem, no  verdade?
	-	Devia ter as orelhas a arder - disse Duburle, com gravidade 
-, porque s falmos dele.
	-	O meu padrinho  espantoso! - exclamou Rose, olhando para 
Duburle com ar trocista.
	A Sra. Grodsko observou Duburle e Rose, para tentar compreender o 
sentido misterioso daquelas palavras. Viu ambos imperturbveis e 
seguiu-os atravs dos grupos. As trompas de caa soavam sob a cpula 
de vidro, que o Sol incendiava com os seus raios oblquos. Uma poeira 
de ouro subia no ar e a elegante assistncia, que assistia quele 
espectculo, movimentava-se. Na extremidade da pista surgiu outro 
cavaleiro, montado num cavalo cinzento, que comeou a saltar 
sistematicamente os obstculos.
	De sbito ouviu-se um grande grito de susto. Braos agitaram-se e 
alguns espectadores levantaram-se. O cavalo cinzento voltou a 
aparecer, sozinho, avanando pelo meio da pista.
	-	Oh! O cavaleiro caiu no rio! - exclamou Duburle.
	-	 o senhor Kersaint - disse a condessa Grodsko, rindo. - 
Era o rival do meu irmo! Acabou por tomar um banho e isso tira-lhe as 
peneiras...
	-	Fala bem - retorquiu Rose -, mas se tivesse sucedido ao 
marqus...
	-	Minha cara, essas coisas no sucedem ao marqus.  o que 
mostra a sua superioridade sobre os outros.
	Condottier, que via bem ao longe, seguira o movimento de sada da 
irm e de Rose. Desceu do cavalo e atravessou a pista. Cumprimentou a 
baronesa e apertou a mo a Duburle. Tinha
realmente uma boa aparncia, com o seu casaco vermelho, calas brancas 
e botas Chantilly. Parecia mais alto e mais vigoroso. Com o seu stick, 
batia ao de leve na palma da mo esquerda, enluvada, e, sorridente, 
comeou a andar ao lado de Rose:
	-	Vai-se j embora? Nem sequer assiste s provas de quatro... 
Esse pobre Kersaint  capaz de desorganizar a nossa quadrilha... Est 
num belo estado. Poder voltar a montar amanh?
	-	Logo que esteja seco, fica bom.
	-	Quer passar pelas cavalarias? Mostrar-lhe-ei os quatro 
cavalos do drag de Storlocki. Percorreram quatrocentos quilmetros em 
oito dias e esto to frescos...
	-	Como o senhor Kersaint...
	-	Ah!  cruel, baronesa. Esse pobre rapaz que tanto danou 
consigo durante o Inverno...
	-	Vai defend-lo?
	-	Esprito de corpo! Quem me diz que um dia destes no me ir 
tratar tambm assim?
	-	Comece por no cair!
	-	Ah! Quando uma mulher nos quer ver por terra, por mais 
slido que se seja, acaba-se sempre por cair...
	-	Que filosofia. E pensa que eu tenho to negros desgnios a 
seu respeito?
	-	At aqui no o pensei. Mas quem pode responder pelo futuro?
	Rose achou Condottier muito clarividente. Sorriu-lhe e disse com 
confiana:
	-	Contente-se com o presente. - Depois, despedindo-se: - 
Tenho o meu carro  porta. Levo a sua irm para dar uma volta pelo 
Bois... Encontrar-nos-emos no Palace s seis...
	-	Est combinado.
	Voltando-se e dirigindo-se para as cavalarias, onde devia 
esperar o momento de voltar a aparecer na pista, Condottier dizia para 
consigo: " evidente que alguma coisa mudou. O que ontem agradava  
bela baronesa parece desagradar-lhe hoje. Abandona o concurso hpico 
onde se encontram todos os nossos amigos para ir passear de carruagem 
para o Bois, a uma hora a que no est l ningum. Isso no  natural. 
Ser por causa desse pesado novo-rico que ela voltar as costas a 
tudo o que at aqui lhe agradava?  de uma inconstncia fabulosa! H 
aqui qualquer coisa que no se percebe. Esse Raynaud deve servir de 
biombo a qualquer capricho misterioso. A escolha dele seria excelente. 
O imbecil no se preocupar com um homem que no inquieta o seu 
snobismo. E  custa desse flirt disfarado, a nossa pequena Rose 
poder fazer o que muito bem lhe parecer. Mas eu porei cobro a isso. 
Vou observar com cuidado todos os que andam  volta dela. No ser 
inutilmente que passei um ano a afastar todos os possveis 
concorrentes. Tenho de me vingar dela e de Folentin. E seja de que 
maneira for, preciso de a ter."
	Resolvido isto, Condottier no pensou mais no caso e dedicou-se a 
concentrar todos os seus esforos para continuar a ser o primeiro 
cavaleiro da Frana. Ao mesmo tempo que Condottier fazia essas 
reflexes ameaadoras para a tranquilidade de Rose, esta passeava de 
carruagem pelos Campos Elseos, acompanhada pelo padrinho e pela 
amiga. No falava e deixava vaguear os olhos pela verdura dos 
castanheiros, que se esforavam por manter a sua fama de precocidade, 
cobrindo-se de tmidas folhas. O Sol, j quente, tornava o ar tpido; 
transeuntes despreocupados caminhavam no asfalto da avenida e as 
crianas, libertas das precaues do Inverno, recomeavam a brincar 
sob os olhares das governantas, reunidas em grupos para conversarem.
	Embalada pelo movimento da carruagem, ajovem senhora tentava 
analisar os seus sentimentos e definir as suas intenes. Debatia-se 
numa tal incoerncia que sentia como que uma lassido cerebral, 
preldio de qualquer grave doena mental. No se reconhecia a si 
mesma. Parecia-lhe que a tinham mudado e que era outra pessoa que agia 
ao contrrio dos seus gostos, dos seus hbitos, saindo bruscamente da 
linha de conduta que ela prpria traara e que seguira at ento, no 
s com regularidade mas tambm com satisfao. E de repente parecia-
lhe absurdo tudo o que achara encantador e odiava aquilo que fizera 
com entusiasmo. Operava-se nela uma reviravolta absoluta e ela 
apercebia-se disso com um espanto que a paralisava.
	Mas porqu essa mudana to radical? Que se teria passado que 
modificasse to profundamente o decorrer da sua vida, e para ela 
sentir uma repulsa to violenta pela ideia de continuar
a fazer no dia seguinte aquilo que a seduzira na vspera? Pois era 
obrigada a constatar que no sentia qualquer prazer em subir a Avenida 
dos Campos Elseos, na bela carruagem puxada por dois cavalos que 
despertavam a admirao dos transeuntes e diante dos quais os homens, 
que regavam as ruas, paravam de executar o seu trabalho. Termont 
acabava de passar por eles, conduzindo o seu dezoito-cavalos, sem que 
o cumprimento desse gentil-homem, coberto de peles e com um enorme par 
de culos, lhe arrancasse um sorriso. O drag de Joseph Saintr, que se 
dirigia para o concurso hpico, passara com um tilintar de guizos e o 
baro erguera bem alto o seu chapu para cumprimentar a linda mulher, 
sem que Rose deixasse de ter a mesma expresso pensativa. As 
homenagens que a sagravam conquistadora j no lhe pareciam 
deliciosas. Desprezava-as at. Vendo que Rose continuava muda e 
enterrada no fundo da carruagem, com os olhos semi-fechados, o 
padrinho perguntou-lhe.
	-	Ests to quieta e to calada. Estars doente, minha 
Rosette?
	-	No, padrinho, no estou. Peo desculpa. Tive uma pequena 
ausncia.
	-	No precisa de se incomodar connosco, minha querida - disse 
a condessa. - Eu pessoalmente no sou muito amiga de conversar quando 
ando de carro... -se obrigado a falar mais alto. Isso cansa. O 
passeio chega, como distraco.
	-	Evidentemente que no se pede um discurso - replicou 
Duburle -, ... mas umas pequenas reflexes, de quando em quando. No 
cansa e  gentil... d uma certa animao!
	-	Voc  um antiquado, Duburle - exclamou a condessa. - 
Pertence  escola amvel de falar para nada dizer. Profere palavras 
para quebrar o silncio; gosta de falar pelo prazer de se ouvir...
	-	Na minha juventude - declarou Duburle -, um homem 
considerar-se-ia indelicado se no conversasse com as senhoras que 
acompanhava. Seria confessar que no tinha nada a dizer-lhes. E o que 
, pergunto eu, um homem que nada tem a dizer s mulheres?...
	-	Bem, no acha que uma mulher pode muito bem no ter nada 
para dizer a um homem?
	-	Dantes no creio que isso sucedesse. Sou obrigado a 
confessar que, hoje em dia, os homens e as mulheres permanecem de boa 
vontade indiferentes uns aos outros... Isso no torna a sociedade 
muito requintada... As pessoas so apenas polidas... O marido deixa a 
mulher  rdea solta. No se ocupa dela. Mostra mesmo desinteressar-se 
do seu comportamento... Acha isso conveniente?
	-	Cmodo - replicou a Sra. Grodsko.
	-	O que  cmodo tem por vezes falta de elegncia. Mas essa 
elegncia  tambm antiquada, no , condessa?
	-	No seja azedo, Duburle. Voc  ainda um homem que usa 
colete branco, gravata com pintinhas azuis e polainas de camura... 
Sentir-se-ia desonrado se arregaasse as calas... Encarna toda uma 
sociedade anterior ao telefone e ao automvel...
	-	Um ser pr-histrico!
	-	Ns, os desta gerao, desagradamos-lhe, e o senhor
espanta-nos. Sabe, meu caro baro, cada poca tem os seus hbitos e os 
seus costumes.
	-	H-os bons e maus.
	- Os bons so os que parecem teis queles que os adoptam.
	-	Na vida no h apenas utilidade, bela condessa. Hoje em 
dia, fazem tbua rasa das tradies, dos usos e dos costumes, de tudo 
o que constitui o cdigo, lentamente elaborado, do saber viver.  bem 
evidente que pr de lado tudo o que incomoda  rpido e fcil. Mas 
trata-se de prticas brbaras que destroem aquilo que no esto em 
condies de apreciar.  certo que  mais simples assoar-se aos dedos 
do que tirar um leno do bolso e faz-lo com asseio. Mas existe, em 
todo o caso, uma grande diferena entre o assoar-se aos dedos e o 
requinte do leno. Pois bem, condessa, hoje, em matria de arte, de 
literatura, de poltica, de educao e do resto, estamos na prtica 
dos dedos!... E duas bonitas senhoras na carruagem com um velho senhor 
acham muito natural que esse velho senhor no faa um esforo para 
fazer esquecer a sua velhice por meio da sua amabilidade. Eu, dig-
lhes: acho isso muito triste.
	-	 a decadncia, Duburle!
	-	Perfeitamente. Mas preste ateno que a todas as 
decadncias correspondem revolues. A sociedade no pode contentar-se 
com a decadncia, assim como a Natureza no pode
aceitar a esterilidade. O mundo no pertence aos impotentes,  o 
domnio dos laboriosos. Se ns e os nossos semelhantes deixarmos de 
servir para coisa alguma, seremos substituidos por outros, que sero 
capazes de qualquer coisa.
	-	Duburle, est a fazer-me pele de galinha. Faz a apologia do 
socialismo. Que tem o seu padrinho, Rose? Est a tornar-se num 
energmeno! E tudo isso porque voc no abriu a boca durante meia 
hora. Fale com ele, minha cara, ou ele ir certamente fazer uma 
desgraa.
	Rose pareceu despertar. Endireitou-se e olhando para a amiga:
	-	No perdi uma s palavra da vossa conversa, que me 
interessou muito. O meu padrinho tem razo. A nossa sociedade est 
mais que metade apodrecida. E sem darmos por isso ns vivemos no meio 
das runas. Os que so realmente interessantes so os que criam.
	-	Oh, meu Deus, vou repetir essas palavras a seu pai e ao seu 
marido. Eles vo ficar doidos. Foi a sbita metamorfose do seu irmo 
Maurice em homem de trabalho que lhe deu volta  cabea?
	Rose corou, viu naquilo a aluso do regresso a Frana de Valentin 
Raynaud. Apressou-se a cortar a palavra  sua amiga:
	-	No, no! Tranquilize-se. No penso em perturbar a 
sociedade. Perguntou-me o que pensava das opinies do meu padrinho; 
respondi-lhe. Nada mais.
	-	Respondeu-me que partilhava essas opinies. Foi como se 
tivessem feito perguntas  princesa de Lambale a respeito de Marat e 
ela tivesse respondido: acho-o agradvel.
	-	Marat! - exclamou Duburle, sufocado. - Marat! Compara-me 
com Marat?... Ah, condessa, isso passa de gracejo!...
	A indignao do baro pareceu to cmica s duas jovens que no 
puderam deixar de rir. A carruagem entrava na Avenida das Accias. 
Rose deu ordem ao cocheiro para parar. Apearam-se e comearam a falar 
de outra coisa.
	Aquele que causava tanta perturbao ao esprito de todos esses 
mundanos, obrigados subitamente a reflectir, no se encontrava muito 
mais calmo e o seu primeiro impulso foi escrever ao seu amigo Evans, 
que ficara em Chiquito. A fria razo do americano exercia sobre a 
imaginao ardente de Valentin uma influncia decisiva. Tinha, no 
grave momento da crise passional atravessada por Raynaud, sabido 
inspirar firmes resolues que fizeram com que o director da fbrica 
deixasse Beaumont. Era para ele, naturalmente, que Valentin se voltava 
na sua perturbao. Mas Evans encontrava-se a milhares de lguas, e 
era necessrio esperar a resposta que o navio traria e essa espera era 
mortal. Os negcios, pois no fora para seu prazer que Raynaud 
regressara a Frana, absorviam-lhe os dias. Mas  noite ficava s e 
apesar de no querer ver Rose no tinha foras para no a ver. As 
ocasies tinham sido primeiro dificeis de encontrar. O engenheiro no 
pertencia ao mundo em que vivia a triunfante baronesa. Mas Folentin 
tomara amizade pelo scio de Evans e patrocinava-o com um zelo, que 
lhe fizera abrir muitas portas.
	Apresentara-o no seu clube e como Valentin era rico e pouco 
conhecido, fora recebido sem dificuldades. Na alta sociedade catlica, 
Folentin falara do engenheiro como promotor de negcios imensos, nos 
quais seria possvel obter participaes muito lucrativas. Raynaud
viu-se procurado por pessoas que nem sequer teriam olhado para ele se 
no possusse os petrleos de Chiquito. E convidado, acarinhado, 
Valentin, que outrora teria fugido desses lugares onde se pavoneava, 
"flirtava" e intrigava a Paris luxuosa, encantadora e intil,
deixava-se arrastar para a, porque era onde Rose triunfava.
	Era o que ele contava com toda a sinceridade a Evans nas cartas 
que lhe escrevia para lhe falar dos negcios. Pois, por mais 
apaixonado que estivesse, Valentin no esquecia os imensos interesses 
que fora representar  Europa. E a felicidade que sentia em seguir 
Rose no o fazia perder de vista as negociaes de que o seu scio o 
encarregara. E eram de importncia capital. Com efeito, se Valentin e 
Evans falavam dos poos de petrleo descobertos nos terrenos da 
Califrnia, no diziam uma palavra, nem um nem outro, de uma 
descoberta singularmente mais importante, no s do ponto de vista 
financeiro, mas tambm do ponto de vista cientfico.
	Perfurando poos no solo vulcnico da sua propriedade, entre os 
minerais Valentin encontrara sinais de um metal desconhecido que, 
depois de analisado, se assemelhava ao rdio. Pesquisas mais 
minuciosas tinham revelado a presena desse metal em grande 
abundncia. E, com uma alegria extrema, os dois amigos haviam 
verificado que possuam uma jazida, talvez nica, dessas substncias 
to raras e to caras que servem para os sbios fazerem experincias 
de laboratrio. Valentin, animado por essa descoberta, submetera os 
elementos desse solo extraordinrio a diversas anlises. E reconhecera 
sucessivamente a presena, no solo de Chiquito, de matrias de valor 
imenso, das quais a mais banal era o topzio e a mais preciosa o rubi. 
Logo que chegara, o engenheiro entrara em contacto com a mais alta 
personalidade cientfica francesa, o ilustre Marcelin. Indicara a esse 
grande homem, que dotou a humanidade de riquezas inestimveis, sem 
consentir em enriquecer-se a si prprio, todo o partido que os sbios 
poderiam tirar de substncias semelhantes ao rdio, vulgarizadas e 
comercializadas. O qumico sorrira e dissera suavemente:
	-	Os nossos jovens sbios so felizes, os senhores abrem-lhes 
um maravilhoso futuro de descobertas...  um homem de dinheiro, senhor 
Raynaud? Pode fazer uma bela fortuna...
	Valentin explicou que tinha apenas um objectivo: servir a causa 
da cincia. A sua fortuna estava j feita e muito para alm dos seus 
desejos. O grande homem ouvia-o de cabea inclinada, como se estivesse 
a ouvir a sua prpria conscincia. Pediu em seguida a Raynaud que lhe 
enviasse amostras dos seus produtos. E como este tirasse uma caixa de 
safiras e rubis em estado bruto...
	-	Oh! - exclamou Marcelin. - Vi outrora Frmy fabricar rubis 
como estes, e s tinham um defeito, custar mais caro do que na loja. 
Tudo se pode recompor na Natureza, senhor Raynaud. Excepto o homem, 
contudo, e ainda bem - acrescentou sorrindo. - Existem bastantes 
homens na Terra, apesar das estatsticas afirmarem que a natalidade  
decrescente... H tanta concorrncia vital que no domnio da cincia 
todos so obrigados a especializar-se e os conhecimentos gerais em 
breve deixaro de existir... Eu serei um dos ltimos a ter uma noo 
sobre tudo. Mas depois de mim...
	O sbio fez um gesto vago e a sua cabea inclinou-se um pouco 
mais. Depois disse a Raynaud:
	-	V falar com o senhor Curie.  um homem que d as mais 
belas esperanas... Ficar bem contente se puder fornecer-lhe rdio. 
Poder expandir as suas experincias. E obter certamente resultados 
notveis.
	Folentin, que sabia obter a confiana das pessoas junto das quais 
o seu instinto lhe fazia pressentir ocasies de lucro, trabalhara to 
bem Raynaud que este lhe dera alguns esclarecimentos sobre a jazida de 
Chiquito. O banqueiro, perturbado pelo que compreendera e sobretudo 
adivinhara nas explicaes de Valentin, entreviu novas. Avaliou o que 
poderia receber, como beneficios de todos os gneros, de uma sociedade 
com Raynaud e Evans. Prop-la ousadamente a Valentin. Ele seria o 
representante dos associados e, no caso de uma constituio em 
sociedade, teria a promessa de ser ele a realizar o negcio. Ao propor 
isso, achou o engenheiro subitamente evasivo. Tentou as suas malcias 
habituais. No tiveram efeito. Raynaud tornou-se fechado e 
circunspecto. Na realidade, nada queria fazer sem o acordo de Evans e 
duvidava que o amigo estivesse disposto a dar ao empreendimento a 
forma de uma sociedade. Folentin, admirado com a reserva de Raynaud, 
acabara por se inquietar. Perguntava a si prprio se o engenheiro no 
estaria a querer dar-lhe um concorrente, negociando com uma importante 
casa inglesa. Uma palavra no ar, dita por Prvinquires, fora a 
causadora da emoo do banqueiro. O sogro dissera-lhe:
	-	Valentin vai a Londres. Vai consultar um dos mais hbeis 
prospectores das minas de frica, Mikael Springfield...
	No fora preciso mais para fazer trabalhar o crebro de Folentin, 
e, muito perplexo, abrira-se com a mulher. Entrara uma manh no seu 
quarto de toilette e sentara-se junto dela, enquanto ela limava as 
unhas com uma pequena lima de ao.
	-	Minha cara, estou preocupado com as minhas relaes com o 
senhor Raynaud... Gostaria que fossem mais ntimas... Tenho 
importantes razes para tratar o melhor possvel esse amigo da sua 
famlia, e
acho-a pouco simptica para ele. Se quiser ser-me agradvel, convide-o 
para nossa casa, mostrando-lhe mais amabilidade...
	Ao ouvir estas palavras, a vermelhido subiu s faces da jovem 
senhora. Olhou para o marido com uma expresso irritada:
	-	Penso que est a perder o juzo, para me fazer tal 
pedido... Irei agora servir-lhe de batedor nos negcios?... Se tem 
algo a negociar com o senhor Raynaud, tem um escritrio para o l 
fechar... Mas o meu salo no deve servir para esse gnero de coisas.
	-	Para o fechar? - perguntou Folentin. - Por pouco no dizia 
roubar! Fico muito lisonjeado com a ideia que parece fazer dos meus 
progressos em matria comercial. Ser a mulher de um gatuno?
Desengane-se, que no se trata disso. No lhe peo para deitar 
narcticos no ch que oferece ao senhor Raynaud. Exprimo-lhe apenas o 
desejo de o ver mais frequentemente convidado por si.
	-	Quer que eu o convide? Muito bem, convid-lo-ei.
	-	Bom. Mas que no tenha o ar de se desempenhar de uma 
tarefa. Receba-o com a amabilidade que a distingue, quando isso lhe 
agrada...
	-	Receb-lo-ei com todas as boas graas. Mais alguma coisa?
	-	No. Dou-me por satisfeito.
	-	Ainda bem.
	Com viva alegria, Rose viu-se assim intimada a receber Valentin 
na intimidade. Apressou-se imediatamente a cumprir a promessa feita ao 
marido. Mas, com grande surpresa, deparou com uma resistncia muito 
ntida da parte de Raynaud. Convidado com todas as boas graas 
requeridas por Folentin, o engenheiro balbuciava desculpas, dava 
pretextos, no aceitava. Parecia ter tomado a firme resoluo de no 
se tornar comensal do marido de Rose. Este viu a frieza com que 
Raynaud acolhia as tentativas da baronesa. S se preocupou do ponto de 
vista dos seus negcios. As suspeitas que tivera de uma ingerncia 
estrangeira nas operaes de Evans e de Raynaud tornaram-se ainda mais 
fortes no seu esprito. E, em vez de aceitar essas recusas,
encarniou-se mais em venc-las. Rose, no entanto, fortalecida pelos 
desejos do marido, prodigalizara atenes a Valentin, mas parecia que 
quanto mais amvel ela se mostrava menos ele parecia reconhecido. Foi 
ento que, mudando de mtodo, Rose deixou de se ocupar de Raynaud e 
voltou a mostrar-se coquette com Condottier.



Captulo stimo

	Certa manh, Raynaud, ao voltar ao hotel, encontrou uma carta de 
Evans. Era a resposta aos seus queixumes.
	"Meu caro Valentin, tudo o que me conta da sua existncia em 
Paris me prova que no teve razo em me deixar e regressar ao vosso 
pas. Para tratar dos nossos negcios, na Europa, bastava-nos enviar 
Sambeli, que fala todas as lnguas, e que teria sido um correspondente 
admirvel. Mas sem ousar confessar-mo, voc morria de desejos de 
voltar a ver Rose. -. Pois bem, viu-a mais bonita e mais sedutora que 
nunca. E o que sei de si causa-me a mais viva das inquietaes pela 
sua tranquilidade. Uma mulher que se atira assim  cara de um homem s 
pode ser uma coquette, a no ser que esteja sinceramente apaixonada. 
At prova em contrrio, considero-a uma coquette. E ento, pobre 
Valentin, para onde h-de fugir? No sabe o que lhe reserva um pequeno 
monstro perfumado, ondulado, vestido de sedas e de rendas, que 
brincar com o seu corao ingnuo e o dilacerar com as suas garras, 
pelo prazer de o ver palpitar diante dos seus olhos. Como pensar que 
essa Rose possa ter por si mesmo uma sombra de um sentimento 
afectuoso, visto depender dela ser sua mulher? Ela percebeu que a 
amava e deixou-o partir! No, meu amigo, perca toda a esperana de 
recuperar essa mulher. Ela  daquelas que conquistam, mas no daquelas 
que se dominam- O orgulho parece-me ser o mbil de todas as suas 
aces, e no h nada de mais temvel porque no h nada que o possa 
enfraquecer ou moderar.
Lembre-se do que eu lhe disse, uma noite, em Tampico, enquanto vamos 
danar os ciganos ao som dos tambores e dos bandolins. Uma dessas 
raparigas ciganas enfeitiou-se bruscamente por si, e por entre as 
lascivas excentricidades do flamengo ela lanava-lhe os olhares mais 
ardentes e os sorrisos mais doces. Voc no lhes prestava ateno e 
fumava distraidamente, quando, louca de despeito, ela correu para si, 
com uma pirueta, e lhe apoiou o estilete  garganta. Pois bem, essa 
morena mexicana, na sua brutalidade amorosa, era mil vezes menos 
perigosa que a sua Rose, com as suas sbias restries e as suas 
provocaes disfaradas. Quando essa jovem francesa lhe perguntava se 
devia casar com Foentin, era mais agressiva que a mulher do estilete 
que lhe dizia: ama-me ou mato-te. E tudo o que voc me explica dos 
manejos do banqueiro, marido dela, para o atrair para as suas 
armadilhas financeiras, lana uma viva claridade sobre as tentativas 
que querem fazer consigo. Tenho a impresso de que o baro e a 
baronesa so coniventes para tentarem meter as mos nos negcios de 
Chiquito. Mas alto l! Desta vez a coisa toca-me directamente e eu 
prprio sou visado. E deve compreender que eu queira intervir. Por 
aqui vai tudo bem. Os nossos engenheiros so pessoas competentes e 
conduzem as nossas empresas de tal modo que a minha presena no  
necessria. Vou portanto apanhar o navio para Nova Orlies e da, 
depois de ter falado com Simpson, que prope vinte e cinco milhes de 
dlares pela extraco do cobre, embarcarei para Frana. Espere 
portanto ver-me chegar trs semanas aps a minha carta. Quero gozar um 
pouco de bom tempo e passarei as minhas frias junto de si. Esperemos 
que elas no sejam demasiado tristes. Caro companheiro da minha idade 
madura, de quem gosto como um amigo de infncia, deixe-me esperar que 
no v
encontr-lo infeliz. Consegui uma vez anim-lo com as apaixonantes 
aventuras do trabalho. Estarei destinado  tarefa dolorosa de o 
consolar mais uma vez, e de me desolar consigo? Tenho quarenta anos, 
Valentin, vi muita coisa na minha existncia to agitada e to cheia. 
Pois bem, juro-lhe que no h uma nica mulher na Terra que merea o 
desgosto que se sente por ela. Dir-lho-ei de viva voz de um modo mais 
convincente. Entretanto, no se atorm'ente demasiadamente. E creia que 
se for apenas preciso dar milhes para que voc fique satisfeito, nada 
poder impedir-me de assegurar a sua felicidade. Seu do corao 
Evans."
	A carta de Ralph reconfortou Valentin. Disse a Folentin:
	-	Nada posso concluir consigo na ausncia do senhor Evans, 
mas aviso-o da sua prxima chegada. Ele prprio lhe explicar as 
intenes que tem.
	-	Fico encantado por saber que ele vem ter consigo. No sei 
tratar de negcios  distncia. Tenho a certeza de que numa hora de 
conversa nos compreenderemos melhor que em trs meses de 
correspondncia. Vou anunciar o senhor Evans  minha mulher. Ela 
ficar encantada por lhe fazer as honras de Paris.
	A baronesa pareceu muito menos encantada do que o banqueiro 
previa. Respondeu ao marido:
	-	Vai ter de enfrentar um adversrio difcil, previno-o. Esse 
Ralph Evans, que eu vi em Beaumont em casa de meu pai,  um homem 
muito forte, muito frio, que no se deixar levar por si...  pessoa 
para o meter no bolso, pode crer...
	-	Julga-me ento tolo? Aquele que enrolar Folentin ainda 
est para nascer, esteja certa disso... Veremos a fora desse famoso 
Evans quando o tiver no meu gabinete, a ss comigo...
	-	Que obteve do senhor Raynaud at aqui?
	-	Ah! Raynaud no  um homem de negcios...  um 
industrial... Nada compreende de combinaes financeiras... Se deixa 
as suas mquinas no  nada... Mas Evans  um grande manejador de 
capitais... H-de compreender-me quando lhe explicar os meios de 
decuplicar os seus fundos...
	-	Duvido que ele esteja  sua espera para o saber...
	-	Pois bem, ele no sabe tudo. Eu tenho os meus processos... 
Receba Evans como tem recebido Raynaud e deixe o resto comigo.
	-	Muito bem. Eu continuo a pr a isca na ratoeira... mas no 
ficaria muito admirada se os dois associados comessem a isca sem se 
deixarem apanhar!
	-	Confie em mim. Se conseguirmos entrar nos negcios que eles 
tm na Amrica, dar-lhe-ei como comisso as mais belas prolas que se 
possam encontrar em Paris e em Londres.
	-	Ah! Se me paga no pode ter dvidas do meu zelo! - exclamou 
a baronesa com um sorriso desdenhoso.
	Nessa noite, numa soire em casa de Rothsweiller, encontrou 
Condottier e  vista de Raynaud mostrou-se extremamente provocante. 
Chegou a assombrar at a condessa Grodsko, que no pde deixar de 
dizer ao ouvido do irmo:
	-	Que tem ela esta noite? Est de cabea perdida! 
Aproveita...
	O marqus, frio e sagaz, tirava as suas vantagens, impunha-se  
jovem mulher, fazia um vazio  volta dela e comprometia-a to 
completamente quanto lhe era possvel. Depois, de repente, a 
disposio da baronesa mudou. Deixou o lugar onde Condottier a tinha 
colocado para um flirt decisivo e, passando diante dele, dirigiu-se 
para Valentin, que, encostado a uma porta, assistia com profunda 
tristeza s excentricidades daquela que amava. Rose atravessou o salo 
no meio de um preldio musical e chamou, com um gesto imperioso do seu 
leque, o engenheiro para junto de si. Depois deu-lhe o brao e levou-o 
para um canto, fazendo-o sentar junto dela, enquanto o quarteto 
executava um andante de Mozart. O marqus ainda no voltara a si do 
espanto e os assistentes da surpresa por Rose ter iniciado com Raynaud 
um dilogo to animado como tivera instantes antes com Condottier:
	-	Gostaria de saber por que motivo me foge - disse ela ao 
antigo empregado de seu pai. - Finge no me ver. No  muito amvel.
	Ele esboou um gesto de protesto:
	-	Estava to ocupada com o marqus de Condottier...
	-	Era preciso ir livrar-me dele...
	-	Poderia eu supor que isso lhe agradava?
	-	Acaba de ter a demonstrao disso.
	-	 caprichosa, eis tudo.
	-	Se for para seu proveito, de que se queixa?
	Rose olhou-o de uma maneira  qual, desde h muito, ele no sabia 
resistir.
	Valentin baixou os olhos com tristeza.
	-	Porque se diverte a atormentar-me?
	-	Ocupar-se com as pessoas  atorment-las? Muitos daqueles 
que aqui esto correriam a ser atormentados. Mas eu no os 
consideraria muito de lamentar.
	Rose mudou de tom e com uma gravidade afectuosa:
	-	Porque est preocupado? Tem aborrecimentos?
	-	Como  que hei-de ter aborrecimentos? No me interesso por 
ningum, nem por coisa alguma.
	-	Est a tornar-se misantropo.
	-	Na verdade, se no estivesse antecipadamente resignado a 
todos os horrores da humanidade, poderia tornar-me misantropo.
	-	Acha assim to horroroso o espectculo que tem diante dos 
olhos?
Abriu bruscamente o seu leque de plumas pretas, dizendo estas 
palavras, e abanou-se com ele, batendo no peito branco. Raynaud no 
podia desviar o olhar dos ombros sinuosos dela, emergindo das rendas 
do vestido. No! No achava horroroso o espectculo que se lhe 
deparava. Mostrou- com uma admirao to pouco disfarada que a 
coquene se ps a rir, fechou o leque que sublinhava todas as suas 
belezas, parecendo ocult-las, e batendo suavemente na mo trmula de 
Raynaud:
	-	Parece que o seu amigo Ralph Evans vem ter consigo...
	-	Quem lhe disse isso?
	-	Meu marido, muito simplesmente. Ele espera brilhantes 
resultados de negcios consigo. Eu penso que se quiser fazer a fortuna 
de algum aqui, se deve ocupar do meu irmo e no do meu marido... O 
baro de Rocher no precisa de si para ganhar dinheiro.  extremamente 
rico, enquanto o pobre Maurice no tem nada... O pap aperta muito os 
cordes  bolsa com ele. Se no fosse a mam e eu para lhe enchermos a 
bolsa de tempos a tempos, ele ficaria muitas vezes muito mal visto...
	-	No procure enternecer-me para com Maurice explicando-me 
que ele vive apenas dos vossos subsdios. Estaria muito mais disposto 
a ajud-lo se me dissesse que ele se tinha metido em negcios 
dificeis...
	-	A bela esperteza de se meter em negcios dificeis. Isso 
est ao alcance de toda a gente. Conto consigo para lhe arranjar 
negcios excelentes. Recusar-me- ajudar o meu irmo?
	O tom em que ela fazia esse pedido, a expresso do seu rosto, 
tudo era to acariciador e meigo que Valentin estremeceu. E disse com 
voz alterada:
	-	Sabe bem que por causa do seu pai no poderei deixar de 
ajudar Maurice.
	-	Ah!  ento por dever que o far?  verdadeiramente pouco 
delicado! Foi na Califrnia, nas margens do Cobrado, que aprendeu 
essas maneiras? Pois so detestveis! Talvez queira dar-se ares 
obstinados de homem novo e fazer de campons do Danbio? Aviso-o de 
que  preciso ser ainda muito mais rico do que voc  para se permitir 
mostrar-se dessa maneira!
	-	Sabe bem que sou um antigo operrio, sem educao e sem 
estar habituado a modos requintados - replicou com amargura.
	-	No se gabe disso. No h de qu. E v-se bem de mais.
	-	Queria que corasse? - replicou Valentin rudemente.
- Eu parti do nada. As amabilidades de que me rodeiam so miserveis e 
parecem-me cnicas. Sei bem que s posso ser motivo de riso para as 
pessoas da alta sociedade,  qual a Rose pertence. Se no tivesse 
comigo o reflexo de todas as riquezas que deixei na Amrica, e que 
exageram, como de costume, estaria aqui neste salo aristocrtico, no 
meio desta reunio de brilhantes senhores bem vestidos, bem penteados, 
que dizem tolices e que tentam arrastar para o mal as bonitas senhoras 
que os escutam? A prpria baronesa dar-se-ia ao trabalho de conversar 
comigo, mesmo para me tratar mal, quando eu ouso afirmar a minha 
personalidade, depois de me ter dito palavras afveis para eu ajudar o 
seu irmo? Porque hei-de ento preocupar-me com pessoas que me poriam 
na rua se no pensassem em roubar-me? Posso fazer outra coisa seno 
pagar desprezo com desprezo? Sim, no fundo das suas conscincias, eles 
dizem para consigo: que humilhao tolerar este pretensioso no meio de 
ns! E eu respondo-lhes: que repulsa assistir s patetices de todos 
estes vaidosos! Estamos portanto quites e acredite: querer rebaixar-me 
por capricho, depois de me ter levado ao pinculo por interesse,  
degradar-se a si prpria!
	Ela observara-o sorrindo, durante essa violenta apstrofe. 
Abanava a cabea sem o interromper, parecendo dar-lhe razo quando ele 
apreciava to duramente as pessoas que formavam a sociedade a que ela 
pertencia. Dir-se-ia que ela o escutava com extremo prazer. Deixou- 
acabar e replicou alegremente:
	-	 certo que voc  incrivelmente mal-educado. A menos que 
tenha uma razo oculta para maltratar as pessoas que o recebem com 
tanta delicadeza,  inadmissvel que fale delas desta maneira. Tem 
alguma razo? Diga-a, se tem alguma. Gostaria de a conhecer.
	Ele teve vontade de lhe gritar: "Dilacero toda a gente porque a 
Rose a preferiu a mim. Odeio-a porque a Rose a ama. E o seu amor  que 
me tornou desesperado." Mas conservou o auto-domnio suficiente para 
se calar, fingindo rir.
	-	Isto  bem prprio de uma mundana. Arranja-me uma reputao 
de originalidade. E logo que eu tenho a infelicidade de pensar de 
maneira diferente da desses belos manequins, que so os seus 
companheiros habituais, acusa-me de ser um selvagem. Mas se sou um 
selvagem no tenho a menor razo para atrair as suas atenes e as dos 
seus amigos. Volto para a minha savana, para o meu petrleo e para os 
meus dlares.
	Rose olhou-o com uma ateno profunda, como para perceber o que 
havia de verdade nas palavras dele; depois, muito gravemente:
	- Valentin, faz mal em jogar esse jogo comigo. Faria melhor em 
tratar-me como amiga, como outrora, em recordar-se que crescijunto de 
si, e que, nas circunstncias mais graves da minha existncia, sempre 
me aconselhei consigo. E se fosse franco comigo, eu teria confiana em 
si. Talvez eu esteja numa altura em que precise que me aconselhem. No 
v nada do que se passa  nossa volta?
	Rose estava sinceramente comovida ao pronunciar estas palavras e 
o seu olhar fixara-se no belo Condottier, que os observava, do outro 
lado do salo, com um ar inquieto e descontente. Raynaud baixou o 
rosto plido, soltou um suspiro angustiado e depois em voz muito 
baixa:
	- Senhora, honra-me muito tratando-me de uma maneira to 
privilegiada. Mas da nossa juventude s restam recordaes.  a mulher 
do baro Folentin e eu no tenho de intervir, de modo algum, na 
direco da sua existncia. A baronesa tem, de resto, um esprito 
muito decidido e clarividente para ter necessidade de me consultar, a 
mim menos que a qualquer outro. Em qualquer outra circunstncia, creia 
que me encontrar sempre s suas ordens como um humilde servidor.
	Inclinou-se diante dela e afastou-se de olhos baixos. Ouviu-a 
ento dizer nas costas dele, um pouco alto de mais:
	- Est bem. Foi voc quem assim o quis!
	Quando chegou  extremidade do salo, junto da porta da sada, 
Raynaud voltou-se e viu Rose, que ria com o marqus de Condottier. A 
partir desse dia, a atitude de Rose mudou completamente em relao a 
Valentin. No o procurou mais. Ele pareceu tornar-se-lhe indiferente. 
Quando ele se encontrava diante dela, parecia trat-lo at com uma 
certa hostilidade. A sua amabilidade para com o marqus de Condottier 
redobrou at se tornar quase irritante. Quando Valentin a via assim, 
excitada, rindo, falando alto, e se lembrava das palavras trocadas na 
ltima conversa, perguntava a si mesmo se ela no o teria querido 
ameaar de se entregar ao belo rapaz que a seguia por toda a parte. 
sem a deixar nunca. E com uma profunda amargura pensava que Rose s 
intervinha na vida dele para a perturbar. Que significavam essas 
reviravoltas que levavam ajovem senhora dos extremos do rigor aos 
excessos da benevolncia? E seria aceitvel ouvir dizer: seja o meu 
confidente e o meu conselheiro, ou lano-me nos braos de um amante?
	Tornar-se seu confidente e seu conselheiro! Haveria algo de mais 
tentador, e ao mesmo tempo mais perigoso? Amando Rose com todas as 
foras do seu ser, poderia viver junto dela numa intimidade afectuosa 
sem sofrer cruelmente? Era demasiado inteligente e sensato para 
perceber que no podia haver pior situao do que a sua. Se se 
calasse, sofreria uma tortura de todos os instantes. Se falasse... 
Nesse ponto no ousava tirar concluses, to enigmtica lhe parecera a 
jovem baronesa. Se falasse, arriscar-se-ia a ser posto no seu lugar, 
com dureza? Ou ento, e isso parecia-lhe ainda mais temvel, que faria 
se Rose consentisse em ouvi-lo? Sentia por ela uma ternura de tal modo 
pura que qualquer falha dela, mesmo em proveito dele, seria para ele 
causa de desespero. E apesar de tantas razes para se afastar dela, de 
fugir  tortura de a ver enfrentar as ms-lnguas e provocar a 
calnia, seguia-a com o olhar, ouvia-a rir, falar, embora isso o 
fizesse sofrer.
	Um dia que se encontrava no gabinete de Folentin, e que o acaso 
levara o nome da baronesa a ser mencionado na conversa, Raynaud no 
pde deixar de fazer uma aluso ao nervosismo da jovem. Folentin 
comeou imediatamente a fazer recriminaes.
	-	Verdadeiramente, caro senhor Raynaud, no sei que fazer 
para a contentar. Nada lhe agrada, tudo a aborrece. Torna-se 
impossvel viver com ela. Sabe que eu no sou um marido exigente. Dou 
 minha mulher inteira liberdade. Intervenho apenas junto dela para 
satisfazer os seus desejos. Pois bem, apesar de toda a minha boa 
vontade no consigo tornar-lhe a vida agradvel. Ela mostra-se 
aborrecida, triste ou ento demasiado exuberante. Est  merc dos 
nervos. Estou verdadeiramente desolado. Receio que ela caia doente. 
Falei do estado dela ao meu mdico que abanou a cabea e falou de 
neurastenia.  o que esses senhores da faculdade dizem quando no 
sabem o que ho-de dizer  vago e cmodo Mas como cur-la? Tm todos 
um mtodo diferente que conduz sempre ao mesmo resultado negativo. 
Falei com a minha sogra, que me disse que a filha era uma tola. Elas 
duas nunca se entenderam muito bem. Quanto ao meu sogro, disse-me que 
a culpa era minha e concluiu: "Faa-lhe um filho!..." Isso  bom de 
dizer. Pedi-lhe que falasse com a filha. Seria bem recebido. Um filho! 
E o tempo para o ter no meio das festas, das deslocaes, das inmeras 
ocupaes que devoram a vida. E, no entanto, talvez ele tenha razo. 
Se eu tivesse um pouco de resoluo, partiria com a minha mulher para 
Blois e iria fechar-me, durante um ano, no Rocher. Com o telefone e o 
caminho-de-ferro havia de me arranjar, e  possvel que Rose se 
sentisse melhor. No entanto, ela aceitaria acompanhar-me?
	-	O que tem a fazer  perguntar-lhe. Saber logo com o que 
contar.
	-	Creio que ela se riria de mim. E se o fosse contar s 
amigas dela, eu tornar-me-ia ridculo.
	-	Que diferena lhe faria?
	-	O senhor fala como um homem que chega das pampas.  cem 
vezes prefervel ser odioso que ridculo!
	Valentin no replicou. Olhou com tristeza para aquele homem que, 
podendo sem dvida assegurar a sade da mulher por um acto de 
franqueza e de energia, no o fazia por motivos de uma vaidade pueril. 
Receava que gracejassem  custa dele. Preferia mostrar-se indiferente 
e talvez tornar-se culpado. Qual seria o destino da pobre Rose, 
apanhada entre esse fantoche imbecil e o perverso e cauteloso 
Condottier? Como fugiria aos perigos que lhe eram criados pela 
palermice de um e pela duplicidade do outro? Na sua alma e 
conscincia, Raynaud encontrou, nesse instante mesmo, circunstncias 
atenuantes para o comportamento da jovem mulher. Lamentava-a 
sinceramente e perguntava a si mesmo se teria feito bem, quando os 
seus protectores naturais, pai, me, marido, a abandonavam, e no lhe 
davam assistncia. Afinal, ela aproximara-se dele procurando um apoio 
enrgico e se ele a repelia no se iria ela perder? Tomou a resoluo 
de a vigiar e de a defender, se fosse possvel, com risco da sua 
prpria tranquilidade. Decidiu
sacrificar-lhe o seu repouso, o que era um supremo sacrifcio. E isso 
sem pensamentos reservados de ternura egosta, sem especulaes sobre 
o reconhecimento que ela lhe ficaria a dever pela sua dedicao. 
Folentin, admirado com um to longo silncio, deu uma pancadinha com 
um pesa-papis sobre o tampo da secretria.
	-	Isto p-lo pensativo, meu caro Raynaud - disse o banqueiro 
-, e tem motivos para isso. E aconselho-o a que, se ceder s 
indicaes de pessoas bem-intencionadas que, sem dvida, ho-de querer 
cas-lo, no escolha uma mulher de sociedade. Prefira uma rapariga 
simples e sem ambies. As mulheres que atraem os olhares, pelo seu 
brilho, pelo seu encanto e pela sua beleza, so maravilhosas no meio 
das festas, mas insuportveis na intimidade. No tenha uma mulher para 
os outros, senhor, tenha uma mulher para si!
	-	Fico-lhe muito agradecido pelos seus conselhos - respondeu 
Valentin -, mas tomei a firme resoluo de no me casar nunca.
	-	Oh! Oh! No deve ter mais de trinta anos, calculo eu. Teve 
ento uma decepo amorosa. Compreendo agora a viagem  Amrica. 
Caramba! Mas essa mulher cruel acabou por o beneficiar. Sem a recusa 
dela, o senhor no teria ido a Chiquito e passaria ao lado da fortuna.
	-	No o lamentaria.
	-	Ento esse belo negcio no lhe interessa?
	-	Sim, como organizao industrial, sim. Mas como rendimento 
financeiro no me interessa nada.
	-	Oh, como ns somos diferentes! Eu apaixonar-me-ia pelas 
especulaes que se poderiam fazer a partir desse empreendimento... 
Quereria tirar dele tudo o que fosse possvel, quanto a produtos 
explorveis, em seguida decuplicar o seu valor, por meio de aces.  
uma sensao deliciosa trabalhar um negcio, alarg-lo, faz-lo inchar 
como um balo gigantesco, lan-lo depois o mais alto que ele pudesse 
ir, vendo-o depois planar, colossal, no ar. E pensar: todos os que o 
olham, de nariz no ar, e que o admiram, dizem para consigo:
' Folentin o promotor desta obra gigantesca", e invejar-me-iam. Eis 
uma bela iguaria para o amor-prprio, um prazer para o orgulho. Eu 
conheo-me bem.
	Valentin sorriu:
	-	Com efeito, ns no vemos as coisas pelo mesmo ngulo. Eu 
s tenho prazer em organizar, em assegurar o andamento regular, 
mecnico, por assim dizer automtico, de uma empresa e em obter o 
rendimento mximo. Uma vez feito isso, partilharei de boa vontade os 
lucros obtidos com os colaboradores, contramestres ou operrios que me 
tiverem ajudado a realiz-los.
	-	Mas, meu caro - exclamou Folentin -, voc  um abominvel 
socialista! O qu? Partilhar os lucros, dar o produto do seu engenho, 
do seu saber, queles que s contriburam com a fora bruta. Atribuir 
aos braos e s pernas um valor igual ao do crebro? No pense nisso!
	-	Penso assim mesmo, e Evans tambm.
	-	Mas so as pessoas como vocs - replicou Folentin com 
desolao - que pervertem a conscincia humana, afastando-se dos 
princpios sociais estabelecidos e dando  classe operria uma 
esperana que no poder realizar-se. Por lhe agradar entregar-se a 
tais fantasias econmicas,  justo que o mundo capitalista seja 
abalado pela cobia que vocs despertam no crebro obscuro dos 
trabalhadores? Tudo isso  quimrico, deixe-me dizer-lhe, e agir como 
sonha fazer seria de uma imprudncia louca. Arriscam-se, abrindo a 
comporta aos apetites das massas, a provocar uma inundao que atinja 
a sociedade inteira. No podero voltar a fechar a barragem e ns 
tambm no. E seremos submersos! Eis como tudo se compromete e se 
perde, meu caro senhor, por culpa de filantropos que, com o pretexto 
de melhorarem a sorte da humanidade, provocam o regresso dos Jacques!
	-	Acalm-se, senhor baro - disse gravemente Raynaud. Ns s 
operamos na Amrica. Tero tempo de se prevenir em Frana.
	-	Seria melhor deixar-me criar uma sociedade com cinco 
financeiros que eu conheo, para pr Chiquito em aco. Esta soluo 
seria mais vantajosa para toda a gente.
	-	Fale nisso a Evans.
	-	Ele vem passar algum tempo a Paris?
	-	Creio que se fixar aqui. Encarregou-me de lhe arranjar 
casa.
	-	O que  que ele deseja? Um prdio inteiro? Num bairro novo? 
Algo de muito moderno?
	-	No, uma casa antiga, com umjardim, num bairro tranquilo...
	-	No Faubourg Saint-Germain, ento? Condottier quer vender a 
casa dele... Seria um bom negcio para ele.
	Raynaud franziu o sobrolho. Folentin apercebeu-se disso:
	-	No gosta do marqus? Compreendo isso. Ele  to diferente 
de si... Mas no  mau rapaz... um pouco leviano. Tem muita 
necessidade de dinheiro. Seria excelente para ele.
	-	No tenho qualquer razo para me opor a esse negcio.
F'-lo-ei de muito boa vontade.
	-	Ainda bem. Eu falo-lhe... se assim o desejar...
	-	Como queira.
	Raynaud deixou Folentin com esta aquiescncia e no pensou mais 
na proposta que lhe fora feita. Mas trs horas mais tarde, ao passar 
nos Campos Elseos, cruzou-se com o marqus de Condottier, que descia 
a avenida conduzindo o seu faetonte. O marqus fez parar o carro, 
deixou-o ficar junto do passeio e, entregando as rdeas ao cocheiro, 
saltou para o solo. Valentin tinha parado. O marqus dirigiu-se a ele, 
de mo estendida, sorridente, com a sua amabilidade habitual:
	-	No o incomodo? No est com pressa?
	-	No. Voltava para casa. Mas no tenho pressa.
	-	Ento  o seguinte: Folentin falou-me do projecto do seu 
amigo, o senhor Evans, de vir para Paris morar numa casa prpria, num 
bairro tranquilo. Tenho justamente uma casa onde vivo sozinho, desde 
que a minha irm, a condessa Grodsko, se instalou na Rua de Tilsitt, 
para receber o marido.  uma casa antiga, demasiado grande para mim. 
Para lhe dizer a verdade, aborreo-me ali e preferia viver para os 
lados do bosque de Bolonha.
	-	Mas no possui, em sua casa, importantes coleces de 
objectos de arte?
	-	Restam-me quadros e belos mveis. Fiz j, h dois anos, um 
leilo dos meus bihelots do sculo dezoito. Se os quadros e os mveis 
agradarem ao senhor Evans, ceder-lhos-ei ao mesmo tempo que a casa. 
Tenho umas tapearias que foram oferecidas pelo regente ao marechal de 
Condottier... Tm um grande valor. Atingiriam um alto preo em venda 
pblica, mas seria uma pena tir-las do lugar.
	-	Muito bem! Irei ver a casa e os mveis. Pedirei ao senhor 
Folentin para me acompanhar.
	-	Ele no percebe nada disso. A mulher  que sim.
	Caminhavam, enquanto conversavam, na avenida, dirigindo-se para 
os Campos Elseos.
	-	Pede muito pela casa? - perguntou Valentin.
	-	Deixar-lhes-ei tudo por dois milhes e quinhentos mil 
francos.
	-	Isso  muito mais do que o conjunto vale - replicou 
friamente o engenheiro.
	-	Ah! - exclamou o marqus, com um sobressalto -, toma-me por 
um negociante?
	-	No, com um comerciante seria menos caro.
	Condottier comeou a rir.
	-	Bem,  preciso aceit-los tal como so, a vocs, homens de 
negcios.
	-	Exactamente como ns os aceitamos a vocs, homens de 
sociedade.
	-Julgam-nos piores do que somos. Mas falemos francamente, acha 
que para um americano se instalar na casa dos Condottier, nos mveis 
onde Filipe de Orlees se sentou, olhar-se, ver-se aos espelhos que 
reflectiram os rostos das senhoras de Phalaris e de Parabre, no deve 
pagar um preo suplementar?  preciso pagar a origem, senhor Raynaud, 
e o gosto! Uma pessoa no se aloja no Faubourg Saint-Germain, numa 
velha casa ancestral, como se instala num hotel qualquer em 
Cincinnati.
	-	Senhor marqus, quando se tem com que pagar a casa 
ancestral, os mveis histricos, as recordaes e o resto, instala-se 
 sua vontade e pe-se os ps em cima das cadeiras do regente. No  
mais do que uma questo de dinheiro, num pas onde tudo se compra, 
porque tudo se vende.
	Condottier olhou Raynaud, espantado com a rudeza da rplica dele, 
depois fez um gesto de despreocupao e com um sorriso:
	-	Ento, meu caro senhor,  preciso pagar sem regatear.
	Cumprimentou o engenheiro e acrescentou:
	-	Estarei  sua disposio para o receber quando lhe agradar. 
Basta prevenir-me na vspera. Mas, acredite, pea  baronesa de Rocher 
que o acompanhe. Ela f-lo- apreciar o valor do que vir.
	Fez sinal ao cocheiro para parar e, subindo para o assento do 
faetonte, partiu ao trote cadenciado dos dois cavalos. Raynaud, plido 
de emoo contida, viu-o afastar-se, elegante e despreocupado. Pensou: 
"Este homem  singularmente mais senhor desi que eu de mim. Mostrei-me 
agressivo, quase insolente com ele, e pareceu no se aperceber disso. 
-me superior nesse aspecto. Que progressos terei ainda de fazer para 
no parecer um rstico sem educao?" Teve um gesto de furor: "Ser 
preciso assemelhar-me a este palhao gracioso e frvolo para agradar a 
Rose? Eis a espcie de homem a quem ela presta ateno. Oh, antes 
nunca contar para ela do que ter por modelo este imbecil."
	Nessa mesma noite, na pera, durante a representao de 
L'tranger, no momento em que a admirvel Breval, com a sua voz 
quente, cantava a bela frase do mar, Condottier entrou no camarote de 
Folentin. Apertou a mo ao baro, inclinou-se diante de Rose, que, com 
o leque, lhe designou o lugar junto dela, e sem o mnimo respeito pelo 
prazer dos espectadores vizinhos, comeou a conversar com os amigos, 
em voz baixa:
	-	Encontrei o senhor Raynaud e propus-lhe a compra da minha 
casa. Ir v-la, e ao seu recheio, um dia destes. No  amvel, 
decididamente, esse estimvel proletrio.
	-	No tem necessidade de ser amvel - resmungou Folentin. -  
milionrio...
	-	Meu caro, raciocina como um caixa - disse Rose. - A fortuna 
no pode ser desculpa para se no ser educado. Um homem rico que no 
seja amvel  o tipo perfeito do grosseiro. Mesmo assim acho que o 
marqus est enganado a respeito do senhor Raynaud...
	-	Minha cara baronesa, peo-lhe que no preste qualquer 
ateno ao que eu disse. Sei que a pessoa em questo tem a sorte de se 
encontrar nas suas boas graas...
	-	Engana-se. Estamos praticamente zangados...
	-	Desde quando? - perguntou Folentin com inquietao.
	-	Desde a ltima vez que conversmos.
	-	Minha cara, pedi-lhe para ter todas as atenes para com o 
senhor Raynaud. Veja como acede aos meus desejos... Enfim, felizmente 
tenho muito boas relaes com ele. Isso compensa.
	-	Realmente! - disse Rose com um sorriso irnico. Depois 
voltou-se para o marqus: - Vai ento ver as suas coisas? Ainda tem 
algo de apresentvel?
	-	Claro que sim. Tenho peas fora de srie... Se tivesse 
querido ir a minha casa t-las-ia mostrado... E muitas outras coisas!
	-	Tem o descaramento de dizer isso em frente do meu marido!
	-	Que  que quer que eu lhe faa? Oh, Folentin est muito 
tranquilo...
	-	Muito - disse o banqueiro. - V a casa de Condottier, minha 
cara. Com Raynaud ou sozinha, se preferir... Ser menos um andar que 
para ir a casa da condessa...
	-Mas...
	Rose calou-se. Preparava-se para dizer a Folentin: "Mas a 
condessa no vive j na casa Condottier, h um ms que se instalou na 
Rua Tilsitt." Um olhar do marqus fechou-lhe a boca. Corou por se ver 
interrompida e quis continuar a sua explicao, pois receava mostrar 
demasiadas precaues contra Condottier. Por orgulho calou-se. O acto 
terminava. Folentin saiu deixando a mulher a ss com o amigo.
	-	Folentin vai ao palco - disse Condottier com ar trocista.
	-	Faz bem, se isso o diverte - replicou friamente Rose.
	-	Isso no a aborrece?
	-	Que quer que isso me faa? Continua a ser aquela bonita 
morena que dana com Zambelli, na Maladetta, a amante dele?
	-	Sim, a pequena Giulietta Ferico...  o que temos de melhor 
no nosso corpo de baile, neste momento... Vinte anos, um colo de 
mrmore, olhos azuis e a arte de se servir deles...
	-	Imagino que o baro seja enganado, como convm?
	-	No tanto como merece! A justia imanente conta consigo 
para isso.
	-	Insolente!
	-	Bem, no pensa certamente que a dvida que Folentin tem 
para com a sociedade, por ser dono e senhor da mais deslumbrante 
mulher de Paris, seja paga apenas por a pequena Ferico se ter 
divertido com o jovem Croix-Dieu...
	-	Ah!  Croix-Dieu...
	-	De momento...
	-	S ele?
	-	Sim, essa bailarina quer proceder como dama da sociedade, e 
s quer um amante de cada vez!
	-	 a sorte do meu marido... tudo lhe corre bem!
	-	No entanto, a baronesa nada fez para que no seja assim!
	-	A culpa no  sua!
	-	Pode diz-lo!
	O marqus aproximou-se e, falando muito perto da jovem senhora:
	- Vejamos, Rose, sejamos srios.  altura de ter pena de mim, o 
meu suplcio j durou o suficiente. H trs anos que tenho o bico na 
gua...
	-	Oh, tem-no tirado um pouco de l...
	-	Apenas o necessrio para no enferrujar... Mas a senhora 
baronesa, que faz da sua juventude e da sua beleza? Sabe bem que 
Folentin casou consigo apenas por vaidade. Tem por si unicamente uma 
ternura legal e uma afeio notarial... Isso chega-lhe?
	-	Muito bem!
	-	E eu? E eu?
	-	Que tem o marqus a reclamar? Sou muito gentil para 
consigo, muito amvel, muito expansiva. Distingo-o entre todos os seus 
concorrentes. No posso, quando a bailarina do meu marido se conduz 
como mulher da sociedade, conduzir-me eu como uma bailarina?
	-	Ficaria to bem assim vestida!
	-	Como sabe?
	-	Bem, conheo-a. Decota-se suficientemente para no haver 
enganos possveis.
	-	S por cima.
	- Outro dia, ao descer do drag de Thiblin, mostrou-me as pernas 
at s ligas... Ah! Como eram bonitas!
	-	As minhas ligas?
	-	No, as suas pernas.
	-	Senhor Condottier,  insuportvel!
	-	No quero ser suportado. Quero deixar-me ir, sem nada que 
me retenha e sem freio. E dizer-lhe horrores que predispem  luxuria.
	-	 louco! - disse a baronesa, rindo.
	-	Sim, sou louco- Sei-o, sinto-o, mas no coro, porque
 por sua causa. Oua-me durante cinco minutos e ver como
a amo. Todas estas coisas que digo se destinam a ocultar a
minha verdadeira emoo. Nunca adorei outra mulher. No posso 
aproximar-me de si sem tremer de desejo... A sua imagem, que enche o 
meu corao, repele todas as recordaes felizes... Reina solitria no 
meu corao e sofro dobrosamente por a desejar apaixonadamente e no 
conseguir possu-la.
	Ajovem senhora voltou-se um pouco e olhou para o rapaz que lhe 
falava to ternamente.
	-	Dir-se-ia que pensa o que diz, na verdade.
	-	Se penso! No julgue que no. Vejamos, Rose, seja boa para 
mim. Que espera? O seu marido desdenha-a e atraioa-a, mas isso no 
tem importncia.  o costume. Que compensao pode obter da vida? J 
se encontra cansada dos seus triunfos mundanos. J se apercebeu da sua 
inutilidade. So sempre as mesmas lutas de elegncia e de beleza. 
Sempre as mesmas vitrias, sem segurana e sem repouso. Girar sempre 
no mesmo crculo de festas e prazeres, como um cavalo de circo, ao som 
das fanfarras e dos aplausos, para voltar depois  obscuridade e ao 
silncio. Quartos de hora de satisfao e dias inteiros de cansao, de 
vazio e de enervamento.  assim que vai passando a sua juventude e, 
infelizmente, tambm a minha. No quer uni-las numa afeio 
verdadeira, segura, que ocupar todos os momentos, que no reclamar a 
existncia pblica que ambos levamos? Seria to doce, uma felicidade 
oculta, misteriosa, pondo os nossos coraes e a nossa inteligncia em 
comum, e que nos permitiria esperar, com serenidade, o futuro e as 
suas decepes. No  uma ligao de um dia que lhe ofereo, a minha 
fidelidade passada  uma garantia da minha constncia futura. 
Terminaremos a nossa juventude juntos, Rose, e quando o prazer nos 
tiver abandonado, restar-nos- a afeio sincera e a confiana mtua. 
No o quer assim?
	Era bem sedutor e convincente nesse momento, que ele sentia ser 
decisivo, o belo Condottier. Nunca ele se entregara assim, com esse 
entusiasmo e esse ardor. Na alma dolorosamente entristecida de Rose as 
palavras dele eram um renovar de esperanas. A jovem senhora teve a 
iluso de que as promessas que lhe eram feitas to meigamente poderiam 
realizar-se. Prestou mais ateno s palavras capciosas que ouvia. O 
marqus sentiu que obtinha vantagens, que era a altura propcia e que 
talvez no tivesse outra igual durante muito tempo. Redobrou de 
esforos:
	-	Desejava convenc-la que se ilude a si prpria, e aos 
outros, recusando todas as alegrias que a vida lhe oferece. Est a 
preparar desgostos e h-de vir a amaldioar a sua cegueira. O momento 
de ser feliz  to fugidio! Sabemos ns o que o futuro nos prepara? E 
no ser a pior das condies envelhecer sozinha, sem um amigo fiel, 
com o corao vazio e seco? Quem lhe agradecer a sua resistncia?
Ter-me- causado um desgosto cruel e que benefcio ter para si? O seu 
marido sab-lo- sequer? E, se vier a sab-lo, no achar a sua 
imolao muito natural? Talvez at se ria dela, quem sabe!
	Condottier calou-se. Acabava de constatar com surpresa que Rose 
no o ouvia. Uma s frase bastara para quebrar o entendimento que ele 
soubera criar entre si e a jovem baronesa. Dissera: "Quem agradecer a 
sua resistncia?" E bruscamente o rosto grave e pensativo de Raynaud 
surgiu perante os olhos de Rose. Iria expor-se a corar diante dele? 
Que importava que Folentin no apreciasse a rigidez dos seus 
princpios? Era com a opinio dele que se preocupava? Era por causa 
dele que ela controlava todos os actos da sua vida desde h algumas 
semanas? Quem exercia sobre os seus pensamentos uma influncia 
decisiva? Por causa de quem queria defender-se contra todas as 
fraquezas? Repentinamente, dominou-se. Dar ouvidos s palavras de amor 
que Condottier lhe murmurava era s deixar-se deslizar por um caminho 
inclinado. E ela no o queria. Pareceu sair de um sonho e, olhando 
Condottier com olhar frio, disse-lhe:
	-	Bem! No me poder acusar de lhe ter cortado a palavra. 
Deixei-o dar largas  sua eloquncia. Falou-me do seu amor exaltado 
com todos os floreados possveis. Ouvi-o conscienciosamente e no me 
senti perturbada. Aplaudo o seu virtuosismo, mas no que diz respeito  
emoo no a senti: esteve totalmente ausente.
	O marqus, trmulo de raiva, voltava a encontrar na sua frente a 
Rose trocista e insensvel que o desesperava h tanto tempo e que 
durante alguns minutos tivera a esperana de convencer e comover. Uma 
onda de sangue subiu-lhe ao rosto e cegou-o. Sentiu-se tentado a 
apertar, diante de toda a gente, a cruel Rose nos seus braos, para a 
comprometer para sempre. Um resto de sensatez deteve-o. Soltou um 
profundo suspiro e, com uma expresso perturbada, murmurou:
	-	No tem piedade! Que hei-de fazer ento para que acredite 
em mim?
	-	Eu acredito-o. Est fora de si. A sua emoo no  fingida. 
Ningum cora e empalidece quando quer, como acaba de suceder consigo. 
Mas ser razo para que lhe conceda todas as coisas, mesmo levianas, 
que me pede? Se fosse preciso esquecer os meus deveres de cada vez que 
um homem impressionvel o suplicasse, no haveria existncia possvel. 
Vejamos, meu caro amigo, reflicta. Que relao poder haver entre os 
meus desejos e as minhas convenincias pessoais?  preciso que eu 
tenha em conta as minhas prioridades. No quer certamente que eu 
abandone toda a compostura, apenas para lhe ser agradvel...
	O marqus no respondeu e voltou a cara. Rose teve pena dele:
	-	Ento, que desespero  esse? Nem sequer tem fora para se 
queixar? No me deixe crer que ficou to perturbado. Falei-lhe como 
costumo faz-lo. Normalmente no se costuma queixar. Hoje ficou 
amuado?
	Condottier abanou a cabea e mostrou os olhos, que conseguira 
habilmente inundar de lgrimas. Rose estendeu-lhe a mo:
	-	No quero que fique desgostoso. Isso seria absurdo. Est a 
pedir-me que deixe de ser uma mulher honesta. No o quero. Seria uma 
amante detestvel e sou uma amiga excelente. Contente-se com a minha 
amizade. Dou-lha sincera e sem reservas.
	Condottier pegou na mo que se lhe oferecia, beijou-a vivamente 
com uma expresso apaixonada, depois, levantando-se, cumprimentou a 
jovem senhora, sem uma palavra de resposta, e saiu. A porta do 
camarote cruzou-se com Folentin, que entrava e que lhe disse 
alegremente:
	-	Ento, marqus! J de partida? E no momento em que eu estou 
a chegar?
	-	A baronesa  demasiado dura para mim, baro. Prefiro ir-me 
embora.
	-	A quem o diz, meu amigo! - replicou Folentin. - Esta mulher 
 terrvel! A no ser eu, ningum conseguiria atur-la!
	E sorridente, radiante, fechou a porta do camarote.



Captulo oitavo

	A severidade que a baronesa de Rocher mostrara para com 
Condottier no a dispunha  indulgncia para com Raynaud. Mostrou por 
ele uma indiferena desdenhosa, depois, como ele parecesse no se 
aperceber disso, tornou-se agressiva e disse-lhe coisas desagradveis. 
Raynaud no se mostrou mais perturbado por isso e chegou mesmo a 
mostrar um ar satisfeito por se ver maltratado por ela, o que 
desesperou Rose. Essa atitude, cujas altas e delicadas razes ela no 
compreendia, lanou a perturbao no esprito de Rose. Ter-se-ia 
enganado sobre os sentimentos de Valentin e o amor que ela julgara ver 
nele seria apenas imaginao sua?
	Sentiu um violento descontentamento. Que pensaria Raynaud, se no 
gostava dela, do abandono que lhe mostrara e das suas confidncias um 
pouco mais que amigveis? Perguntara a si mesma, cheia de inquietao, 
se era de facto senhora dos seus pensamentos e se, na sua afectao 
com Condottier, assim como nas suas explicaes com Raynaud, no 
demonstraria desordem de esprito? O perfeito equilbrio das suas 
faculdades parecia alterado e ela iria agir, da em diante, segundo o 
impulso dos seus sentimentos imediatos? Sentiu-se menos segura de si 
mesma, e o orgulho que tinha na rectido da sua vontade sofreu por se 
sentir diminudo pela dvida. O estado moral em que se encontrou 
durante alguns dias foi verdadeiramente miservel. Fechou-se em casa, 
no quis ver ningum, disse-se doente, e ficou na semiobscuridade, com 
os cortinados corridos, a meditar na sua situao. No a achou 
brilhante e desesperou de a melhorar. O que mais custava a esse 
esprito ousado e resoluto era a certeza de que o futuro no seria 
melhor do que o presente. A via que o seu destino lhe fizera seguir 
no permitia qualquer repouso, nenhum recolhimento. Tinha apenas por 
companhia a frivolidade e a indiferena. Nem um amigo sincero. Apenas 
companheiros de prazer e das festas. Perguntou a si prpria se 
estivesse doente, incapaz de se mexer, com quem poderia contar para a 
tratar e para lhe fazer companhia. Alm da me, seca e fria, do pai, 
sempre ocupado, e do marido, subjugado pelos negcios e pela vida 
elegante, quem lhe testemunharia interesse, quem iria instalar-se 
junto dela para a ajudar a suportar o comprimento dos dias? No 
encontrou ningum. Todas as suas relaes eram artificiais, baseadas 
em trocas de delicadeza e distraces. Nenhuma ternura, quente, firme 
e dedicada. Talvez o padrinho mostrasse por ela um pouco de afeio, 
fazendo-lhe recados e passando uma hora junto dela entre uma visita  
exposio desse dia e uma partida de brdege no clube. E era tudo.
	Sentiu o irremedivel isolamento que se fizera em torno da sua 
vida fictcia, toda ela plena de representao. Um profundo 
desapontamento se apoderou dela. Nesse momento de depresso, se 
Condottier lhe tivesse aparecido, com as suas frases meigas e as suas 
promessas insidiosas, talvez tivesse triunfado.
	Mas, felizmente para ela, o marqus no a julgava to 
desamparada. Ficara sob a impresso das suas troas e da sua 
indiferena. Considerava-a coquette, sem se aperceber de tudo o que 
havia de verdadeiro desespero nesse corao que se debatia contra as 
tentaes perversas. S pensava em se vingar da ltima afronta que 
Rose lhe fizera. Voltara aos seus antigos projectos. Queria apoderar-
se da jovem baronesa, subjug-la e depois ficar com ela ou abandon-
la, conforme lhe desse mais prazer am-la ou desesper-la.
	Em qualquer dos casos, jurava a si prprio que ela seria vtima 
dele. E, devorado pelo rancor, procurava uma ocasio que no poderia 
deixar de surgir. Uma boa armadilha muito simples onde essa insolente 
viesse a cair, que a faria ficar  merc dele. Nesse momento ela 
pagaria todas as humilhaes que lhe fizera sofrer. Pensara primeiro 
em recorrer  irm e arranjar na Rua Tilsitt um encontro a ss com a 
baronesa. Mas isso seria muito arriscado. Comprometeria a Sra. 
Grodsko, dando  sua vingana um verdadeiro aspecto de emboscada. 
Ainda no tinha chegado a. Uma manobra to desleal repugnava ao seu 
orgulho. Lembrou-se ento de um plano, sugerido pela sua conversa com 
Raynaud, e que consistia em atrair Rose a sua casa sob o pretexto de a 
visitar em companhia do amigo de Evans. Mas era preciso encontrar a 
ocasio oportuna. O ideal seria fazer com que fosse Raynaud a convocar 
Rose e arranjar maneira de aquele no poder ir ao encontro da 
baronesa. Estaria assim a coberto e pareceria apenas ter aproveitado 
um feliz acaso. Mas essa combinao no se proporcionou. E Condottier 
esperava uma circunstncia favorvel com o ar indiferente de um gato 
que espera apanhar um rato.
	A condessa Grodsko, sem que o irmo lhe tivesse dito uma palavra, 
interveio na intriga que o marqus h muito preparava. Chegou uma 
noite a casa de Rose para tomar uma chvena de ch, acompanhada pela 
primeira vez pelo conde, que se encontrava em Paris vindo de Vichy e 
que voltaria para as suas florestas da Estria. O magiar no se 
parecia nada com o retrato que a baronesa imaginara dele. No era alto 
nem forte nem usava bigode. Tinha o aspecto de um professor 
universitrio alemo, com culos, barba rala, tez plida e olhos 
azuis. Folentin, a quem a mulher chamara pelo telefone, pois sabia 
como o banqueiro gostava de entrar em contacto com estrangeiros muito 
ricos, conversou meia hora com o conde e ficou espantado com a 
extenso dos seus conhecimentos. Agronomia, msica, explorao de 
minas, pintura, sociologia, caa, sobre todos os assuntos o hngaro 
exprimia-se com competncia e clareza, numa linguagem muito clara, com 
uma pronncia alem muito pronunciada. Entretanto, num pequeno crculo 
de senhoras, a condessa dizia:
	-	 provvel que ns vendamos a nossa casa do Faubourg
Saint-Germain. O conde foi l v-la e levou l o embaixador da 
Hungria, que no est satisfeito com as suas instalaes. Logo que sua 
excelncia tiver recebido a resposta de Budapeste com as instrues 
necessrias, o negcio ser resolvido...
	-	Ento e o senhor Evans? - perguntou Rose.
	-	De que est a falar? - perguntou a condessa.
	-	Do scio do senhor Valentin Raynaud, a favor de quem o meu 
marido negociou com o seu irmo...
	-	No conheo esse projecto, minha cara. Se existe de facto, 
o senhor Raynaud far bem em se apressar, pois o primeiro a chegar  
que ter mais oportunidades...
	-	 preciso dizer isso ao baro... Sabe bem a importncia que 
ele d a todas as combinaes preparadas por ele.  o eixo do mundo, 
tudo gira  volta dele...
	-	Est bem. Espere.
	A condessa levantou-se e, interrompendo uma conversa comeada por 
Folentin sobre a navegao do Danbio, do ponto de vista da explorao 
das florestas da Estria, disse ao marido:
	-	Meu caro, fale a Folentin desse projecto de compra da casa 
de Condottier para a embaixada.
	-	O qu! - exclamou o baro. - Que embaixada?
	-	Mas a nossa, naturalmente. No nos ocupamos da Inglaterra 
ou da Espanha, que, de resto, se encontram convenientemente 
alogadas... 
	-	Oh, mais devagar! Quer permitir-me falar a esse respeito 
com o seu irmo? Ns temos um projecto j bastante avanado... Trata-
se de vender a casa a um americano... Vendero muito mais caro... E 
alm disso eu ficaria muito aborrecido se me passassem  frente...
	-	Bem! Dar-lhe-emos tempo de reflectir. Certamente no haver 
apenas essa casa para ser vendida... Compraremos uma outra, se for 
preciso... Veja - continuou falando novamente sobre o assunto de que 
tratava ao ser interrompido -, a dificuldade  chegar at ao rio. Uma 
vez a,  tudo simples... Os comboios de madeira descem at Rutchuk, 
onde h carpinteiros... As rvores pequenas so aproveitadas para 
fazer as traves do caminho-de-ferro e as grandes para a construo de 
casas... Milhares de hectares de floresta improdutiva poderiam ser 
explorados com imensos beneficios... Mas seria uma linha frrea da 
montanha ao rio...
	-	 preciso que o Governo trate disso...
	-	Mas s serviria para ns... O trfego  nulo, com excepo 
da madeira...
	-	O que  que sabe disso? - exclamou Folentin com entusiasmo. 
-J prospectaram o solo das vossas montanhas? No contm nem prata nem 
estanho nem ferro nem hulha? Isso seria de admirar! Os Crpatos esto 
cheios de riquezas minerais inexploradas... Esses solos podem conter 
quartzo precioso. Tem a certeza de que no existe l sal-gema? H 
sempre qualquer coisa a explorar num pas... mesmo apenas a palermice 
dos habitantes!
	-	Ah! Franceses! Franceses! Sempre faladores e engenhosos - 
disse, rindo, o hngaro. - V visitar-me a Grodsko...
Organizarei caadas onde poder matar os mais belos cervos da 
Europa... E se preferir a caa mida, ter na mira da sua espingarda 
milhares de perdizes e de lebres. Alm disso, falaremos sobre 
negcios.
	-	No digo que no - retorquiu Folentin, entusiasmado. - So 
precisos pases novos. A nossa Europa Central esgota-se. Tem sido 
esprimida como um limo. Resta-lhe apenas a casca.
	Aproximou-se, com o conde, da mesa onde o ch fumegava nas 
chvenas e, acercando-se da condessa:
	-	 interessante, o seu marido, muito instrudo, muito forte. 
Como  que se arranjou para no conseguir viver com um homem to 
inteligente?
	-	Ah! meu caro - disse ajovem senhora-,  que eu sou muito 
estpida. Por isso, o conde e eu no nos entendemos. E alm disso o 
baro no o conhece ainda para o poder julgar. Esse homem louro, muito 
sensato, muito calmo, torna-se terrvel quando bebe vodca. Tem 
fantasias ferozes. Durante uma discusso, se lhe fizer frente, ser 
capaz de o mandar prender pelos criados e chicote-lo at  morte.
	-	A mim? - sobressaltou-se Folentin.
	-	Sim, a si. No em Paris, evidentemente. Aqui no  bem ele. 
Sofre a influncia dos nossos costumes. Mas nos domnios dele, no meio 
dos seus selvagens, transforma-se. Ele prprio  um selvagem. No 
cometa o disparate de ir a Grodsko a convite dele. Ah, meu pobre 
rapaz! Talvez nunca mais voltssemos a v-lo!
	-	Est a troar de mim, condessa! O que me conta so 
histrias para crianas!
	-	De maneira nenhuma. Pense que Grodsko fica muito perto da 
Macednia, a dois passos da regio onde bandos de insurrectos 
incendeiam as casas, esquartejam as crianas, esventram as mulheres, 
depois de terem cortado a cabea a todos os homens. Depois chegam os 
turcos e pilham, incendeiam e massacram tudo o que resta. Lindo pas! 
V dar uma volta por l, Folentin, para ser apanhado como essa velha 
inglesa, por cujo resgate foi necessrio pagar duzentos e cinquenta 
mil francos, sob a ameaa de que, se no fossem pagos, receberiam a 
cabea dela por encomenda postal. No sabe, meu caro amigo, de que 
est a falar. Essas regies so povoadas por brbaros. E as pessoas 
civilizadas no podem ir l buscar, de momento, se no pancadas.
	-	Entretanto, peo-lhe que me deixe prevenir o senhor Raynaud 
da concorrncia inesperada que se d em relao  casa dos 
Condottier...
	-	Muito bem. Por meu lado avisarei o meu irmo do que se 
passa.
	O marqus, sem parecer dar grande importncia ao que a condessa 
lhe contou a respeito dessa nova proposta, respondeu evasivamente que 
no havia pressa e que desejava, antes de mais, no desagradar a 
Folentin. Ao mesmo tempo procurava pensar em tirar partido do 
interesse de Grodsko e das pretenses de Raynaud. A pouco e pouco, 
depois de reflectir, uma combinao extremamente simples se apresentou 
ao seu esprito.
	Estudou-a cuidadosamente e depois de uma noite passada a meditar 
na ideia, chegou  concluso de que no poderia arranjar melhor. 
Comeou imediatamente a preparar o cenrio. Escreveu a Folentin 
dizendo que se ausentaria durante trs dias, pois era obrigado a ir a 
Londres por causa de um negcio muito interessante, e que durante esse 
tempo o Sr. Raynaud poderia ir ver a casa em companhia do baro ou da 
baronesa. E acrescentava: encarrego-o de prevenir o Sr. Raynaud, cujo 
endereo ignoro.
	Nessa noite arranjou maneira de encontrar Folentin no clube. O 
banqueiro, sempre pronto a falar no que era a sua preocupao de 
momento, no esperou um segundo para dizer ao amigo:
	-	Est combinado. Raynaud ir visitar a casa depois de amanh 
e ser a minha mulher quem o acompanhar.
	-	Perfeito! Ordenarei que preparem um lanche, pois ser sem 
dvida da parte da tarde.
	-	Por volta das quatro.
	-	Bom. Eu parto amanh de manh.
	-	Boa viagem...  por causa do negcio das minas de 
diamantes, de que me falou, que se desloca?
	-	Justamente.
	-	Ento, se tiverem necessidade de uma participao, lembre-
se de mim. De boa vontade serei o correspondente deles em Paris. Os 
Morgan, os Lyttleton e os Frohmann so o que
temos de melhor nos negcios sul-africanos, pode-se avanar com eles.
	-	Conte comigo para isso, como eu conto consigo para vender a 
minha casa...
	Folentin tivera grande dificuldade em convencer Rose a acompanhar 
Raynaud a casa de Condottier. A jovem senhora sentia uma singular 
relutncia em ir a casa daquele que a desejava to apaixonadamente em 
companhia daquele que, desde h vrias semanas, lhe causava tanta 
perturbao. Parecia-lhe que havia nisso como que uma profanao dos 
seus sentimentos secretos e que se aviltava prestando-se a negociaes 
entre Valentin e o marqus. Por uma estranha transposio de ideias, 
chegava a persuadir-se de que era ela o objecto do debate e que j no 
se tratava de saber se a casa ficaria para Condottier ou para Raynaud, 
mas se ela prpria pertenceria a um ou a outro. Comeara, portanto, 
por se recusar a tomar parte nessa negociao.
	-	V com o senhor Raynaud - dissera ao marido. - Saber
fazer-lhe ver bem mais facilmente do que eu as vantagens do negcio. 
Sabe a que ponto sou desajeitada para esse gnero de coisas...
	-	Mas quem lhe pede para fazer negcio? - exclamara Folentin. 
- Peo-lhe apenas que acompanhe o senhor Raynaud, porque sei que a sua 
companhia lhe ser agradvel e facilitar a compra.
	-	Mas como?
	- Hoje no compreende coisa alguma. Ter algo de extraordinrio 
que o facto de visitar uma casa em companhia de uma mulher nova e 
bonita disponha mais a ach-la agradvel, do que sendo acompanhado por 
um senhor qualquer? Alm disso, tem gosto. Se o senhor Raynaud lhe 
fizer perguntas, saber fazer notar o valor das decoraes, a pureza 
do estilo...
	-	Do negcio!
	-	Afinal que mal h nisso? Tantos escrpulos! Se conseguir 
fazer ganhar algumas centenas de milhares de francos a Condottier, 
ser para ele uma fraca recompensa...
	-	De qu?
	-	De todas as suas iluses perdidas. Tem-no tratado muito mal 
desde h trs anos... No conseguiu casar consigo... no conseguiu 
seduzi-la. Isso merece uma recompensa. E ser o senhor Evans o 
encarregado de lha pagar?
	-	A esse americano no faz qualquer diferena! Ele  to 
rico!
	-	A sua moral no deixa de ter sabor. Merecia que lhe 
aplicassem os mesmos princpios.
	-	Est a brincar. Far o que lhe peo?
	-	E como hei-de recusar?
	-	 muito gentil.
	Raynaud, prevenido por Folentin que Rose o acompanharia na 
visita, sentiu um grande descontentamento. Folentin enganara-se 
completamente nas suas previses. A perspectiva de passear pela casa 
do marqus conduzido pela baronesa pareceu-lhe pouco agradvel e 
hesitou em comparecer ao encontro. Entretanto, recebeu um bilhete de 
Folentn avisando-o de que Condottier estaria ausente do pas e que 
no poderia receb-lo, mas que deixara tudo disposto para ele ser 
recebido. A ausncia do dono da casa aliviou Raynaud de parte das suas 
apreenses. Sentiu-se ainda mais  vontade quando, ao encontrar-se em 
casa da Sra. Prvinquires, na vspera da visita, com a condessa 
Grodsko, esta lhe disse:
	- Previno-o de que estarei em casa do meu irmo, com Rose, 
amanh. Espero levar o conde. Mas ele no tem a certeza de estar 
livre. Tem sempre trinta e seis coisas a fazer que o dispensam daquilo 
que se lhe pede...
	Raynaud pensou: <(Esta visita toma propores de tourne Cook. E 
eu, que receava a intimidade! Mas no ser assim ainda mais 
insuportvel?" Fosse de que maneira fosse que considerasse a 
diligncia para a qual Folentin o arrastara, encontrava sempre nela 
motivo de irritao. Na manh do dia fixado, recebeu,  hora do 
almoo, uma mensagem telefonada, assinada pela condessa Grodsko, e 
redigida nestes termos: "Encontro adiado para as dezassete horas, se o 
desejar. O conde ir." Raynaud nada viu de suspeito nesse atraso de 
duas horas. Pensou que era para permitir que o marido a acompanhasse 
que a condessa pedia que a visita fosse adiada por duas horas. Pensou 
aproveitar o tempo deixado livre para ir a casa de Folentin, a quem 
queria comunicar as informaes recebidas numa carta de Evans, 
relativas aos negcios de Chiquito. No tinha pressa e s chegou aos 
escritrios do banqueiro cerca das 15 e 30, para que Folentin j 
tivesse voltado da
Bolsa. Com efeito, o banqueiro j ali se encontrava e recebeu-o 
imediatamente. As suas primeiras palavras causaram um grande espanto a 
Raynaud:
	-	Que faz aqui em vez de estar na casa Condottier? A minha 
mulher vai ficar  espera...
	Raynaud teve a boca aberta para dizer:
	-	Mas o encontro foi adiado para as dezassete.
	O instinto f-lo calar. Em vez disso, perguntou:
	-	Tem a certeza de que a baronesa j partiu?
	-	Tenho. Mas em todo o caso vou confirmar.
	Folentin tocou a campainha do telefone, pediu a comunicao e 
entretanto foi lendo a carta de Evans. A campainha interrompeu-o:
	-	Est? Est? A senhora encontra-se em casa?... Saiu h uma 
hora?... Bem!... Como v, caro amigo... No perca tempo... Falaremos 
noutra altura daquilo que nos diz Evans.
	-	Sim, vou-me embora - respondeu Raynaud, perturbado. 
Levantou-se e preparava-se para sair quando Maurice Prvinquires 
entrou familiarmente no gabinete do cunhado. O rapaz quis comear a 
falar, mas Raynaud interrompeu-o quase com rudeza e, dizendo uma 
palavra de adeus a Folentin, saiu precipitadamente.
	-	Que tem ele? - perguntou Maurice, rindo. - Parece que vai 
apagar um fogo.
	-	Vai simplesmente ter com a minha mulher a casa de 
Condottier. Prope-se compr-la para o seu amigo Evans. O marqus 
encontra-se ausente e...
	-	Ausente? - repetiu Maurice. - Acabo de o encontrar, h 
menos de uma hora.
	-	Onde? - perguntou Folentin, estupefacto.
	-	 esquina da Ponte da Concrdia e do cais, diante do clube 
das Pommes de Terre...
	-	Mas ento ia para casa dele... Que  que isso significa?
	Folentin emudeceu. Reflectia. O atraso de Raynaud, o seu espanto 
ao saber que Rosej sara de casa, a precipitao com que acabava de 
sair dali, a presena inopinada de Condottier em Paris, todos esses 
pequenos factos, sem importncia em si mesmos, tomavam, em conjunto, 
uma aparncia suspeita. Uma sbita inquietao se apoderou do 
impassvel Folentin. Ele, que achava que ningum o enrolava, teve o 
pressentimento de que se preparara uma maquinao em que a sua 
infalibilidade corria o risco de ser comprometida. Entreviu coisas nas 
quais o seu pensamento sereno e confiante no se detivera nunca. Nesse 
instante duvidou da mulher, de Raynaud, de Condottier e de si prprio. 
Ergueu-se de um salto e olhando para o cunhado com olhos furibundos:
	-	Sabes bem que Condottier  capaz de tudo!
	-	De tudo o qu?
	-	De resto, ele preveniu-me, mas eu ri-me dele! Talvez no 
seja o momento de rir!
	Tocou  campainha com mo trmula e ao rapaz que apareceu:
	-	A minha carruagem.
	-	Est no ptio, senhor baro.
	-	Est bem. Adeus, Maurice...
	-	Mas o que  que h?
	-	 o que vou ver.
	E deixando o cunhado estupefacto, comeou a descer a pequena 
escada que dava para o rs-do-cho.
	Como Folentin dissera a Raynaud, s 14 e 30 a baronesa pedira a 
sua carruagem, e antes de se dirigir a casa de Condottier, fizera uma 
paragem num luveiro. s trs horas em ponto chegava diante da porta 
encimada por um braso de pedra. Entrou, saudada pelo porteiro, 
atravessou O ptio e chegou, depois de ter subido cinco degraus, ao 
vestbulo,  entrada do qual se encontravam dois criados. Sem que ela 
tivesse de pedir coisa alguma e como para obedecer a uma ordem dada 
antecipadamente, abriu-se a porta duma galeria, onde quadros e 
vitrinas ocupavam painis cobertos de talha de madeira, em seguida a 
de um encantador salozinho adornado com tapearias chinesas e 
mobilado com mveis Lus XV e com antigos Gobelins. Ajanela estava 
aberta sobre ojardim, onde os pssaros cantavam no meio das rvores 
verdejantes e dos macios de flores. Era um quadro to fresco, to 
repousante, to delicioso que ajovem senhora, sem pensar em sentar-se, 
se encostou ao parapeito da janela e ficou a sonhar. Um jacto de gua 
cantando numa bacia de mrmore, no meio do relvado, embalava os seus 
pensamentos. O seu olhar seguia o esvoaar dos pardais que se 
perseguiam sobre a relva, procurando gros. E longe do rudo, da 
agitao e do calor da cidade, Rose pensava que seria agradvel viver 
naquela casa antiga, grave e silenciosa.
	O ranger duma porta, que se abria por detrs dela, arrancou-a 
quele entorpecimento delicioso. Voltou-se um pouco contrariada, 
julgando ver aparecer Raynaud ou a condessa Grodsko e soltou um grito 
de surpresa ao ver que se encontrava na presena do marqus. Ele 
dirigia-se para ela, sorridente, de mo estendida, envergando um fato 
de viagem cinzento que lhe dava um incrvel ar de juventude. Rose 
deixou que ele lhe agarrasse a mo, sem falar, olhando para 
Condottier, como se no soubesse a maneira como o devia acolher. 
Depois, enquanto ele chegava uma cadeira para junto dela, decidiu-se.
	-	Mas que quer isto dizer? Como  que se encontra aqui? No 
devia estar em Londres?...
	-	Despachei rapidamente os meus negcios para estar em minha 
casa para a receber.
	Rose olhou-o com dureza:
	-	Parece que no quer perder o negcio. Quer ser voc mesmo a 
mostrar a mercadoria.
	Condottier no se mexeu. Os seus lbios tiveram um ligeiro 
estremecimento, mas continuou a sorrir.
	-	Diz muito bem. Oua bem o que se vai passar porque vale a 
pena.
	-	Quanto pede por tudo isto?
	-	Dois milhes e quinhentos mil francos...
	-	Com os mveis da famlia, o esplio dos pais e os retratos 
dos antepassados... O chapu do cardeal de Condottier e o basto do 
marechal morto em Hochstoedt, creio?
	-	Morto em Hochstoedt,  assim mesmo.
	-	Enfim, todo o bazar.
	-	 demasiado caro?
	-	 de graa.
	-	 o que penso. E conto consigo para o dizer.
	Olharam-se fixamente, aps essa feroz troca de palavras em que 
ela o insultara com todas as suas foras. Condottier mostrava-se 
impassvel e balouava-se diante dela com a sua graa habitual. Rose, 
um pouco plida, apertava o cabo de cristal da sua sombrinha. O 
relgio bateu meia hora no silncio. Rose ergueu os olhos para o 
mostrador, consultou em seguida um pequeno relgio que trazia preso 
por um fio, ao pescoo, e perguntou num tom seco:
	-	Por que motivo a sua irm e o senhor Raynaud esto 
atrasados?
	-	No sei - disse ele com ar indiferente. - Quer que lhe 
mostre, enquanto esperamos por eles, a minha coleco de miniaturas do 
sculo dezoito?
	-	Para qu? - disse ela. - No sou eu a compradora.
	-	Como queira. Estou aqui para lhe obedecer.
	-	Ento leve-me ao telefone. Preciso de falar com o meu 
marido.
	Um gesto irnico de protesto acolheu as palavras da baronesa, e 
com um comeo de alegria o marqus respondeu:
	-	O qu! Telefone numa manso antiga? No o tenho. Isso seria 
uma monstruosidade.
	-	Ento d-me com que escrever...
	-	Muito bem. Venha ao meu gabinete.
	A inteno que ele manifestava de, novamente, a levar para fora 
do pequeno salo, afastando-a dojardim, pareceu suspeita jovem 
mulher. Desde a entrada inesperada de Condottier ela deixara de se 
sentir em segurana. Os criados estavam longe, separados do salo por 
uma longa galeria.  volta do jardim no havia vizinhos  vista, 
ningum ao alcance da voz. E o marqus estava de p em frente dela, 
insensvel s palavras agressivas, como se tivesse a certeza de se 
vingar. Gracioso, gil, fino, assemelhava-se a uma ave de rapina. A 
baronesa sentiu decididamente medo e sem seguir Condottier, que se 
dirigia j para uma porta oculta por detrs de um reposteiro, disse 
com ar resoluto:
	-	No. Bem vistas as coisas, prefiro ir-me embora. Deve haver 
um mal-entendido. Esta demora  incompreensvel. Acompanhe-me. A 
visita ficar para outro dia...
	O marqus voltou-se bruscamente, passou em frente dela, deu a 
volta  chave na fechadura da porta que dava para a galeria, meteu-a 
no bolso, fechou ajanela do jardim e aproximando-se de Rose:
	-	Penso que isto  falar para nada dizer. Nem a minha irm 
nem o senhor Raynaud viro porque eu tratei das coisas para que no 
viessem. H demasiado tempo que troa de mim. Achei necessrio 
explicar-me consigo num local onde
no fossemos incomodados. Por isso  que aqui est na minha frente, 
sem qualquer maneira de me interromper se a conversa tomar um tom que 
lhe desagrade. Vamos, minha querida senhora,  preciso mostrar boa 
cara  pouca sorte. A aventura no  muito penosa e depende de si sair 
da guerra com honra.
	Rose ergueu-se em toda a sua estatura, deitou a Condottier um 
olhar cheio de desprezo esmagador e apontando para a porta:
	-	Abra imediatamente.
	O marqus no respondeu e sentou-se numa cadeira perto da mesa, 
pousando o queixo sobre as mos com um ar pensativo.
	-	Mas que espera afinal? - exclamou Rose. - Certamente no me 
toma por uma rapariguinha que se possa assustar. As ciladas s se 
podem suportar nos romances, e no teatro essas cenas so apresentadas 
como motivo de gracejo. O senhor, que corta os cordes da campainha 
para impedir uma mulher de chamar,  perfeitamente ridculo. E o 
marqus no hesitou em dar duas voltas  chave. J chega de melodrama. 
No me faa rir e, sobretudo, no se exponha a fazer rir todos os 
nossos amigos se eu lhes contar o seu ataque  mala-posta. Est a ser 
grotesco, sabe? Mais um momento e tornar-se- odioso.
	Condottier voltou-se, muito calmo, e disse:
	-	Quero s-lo. Estou perfeitamente decidido a no recuar 
diante de coisa alguma, para que a Rose saia daqui to completamente 
minha quanto possa ser.
	-	Creio que perdeu decididamente a cabea. Serei eu a causa 
dessa catstrofe? No me tinha deixado prever que todas as 
amabilidades que eu tenho tido para consigo o poderiam levar a um 
estado to lamentvel. Devia ter-me prevenido que o flirt consigo 
conduzia aos piores extremos e eu teria tido o cuidado de lhe 
demonstrar menos confiana e simpatia. Sabe bem que daqui a pouco ter 
de me deixar sair em liberdade... No queira que, julgando eu vir aqui 
a casa de um homem galante, saia com o desgosto de pensar que estive 
em casa de um grosseiro.
	O marqus replicou muito calmamente:
	-	Nada disso tem qualquer valor ou qualquer sentido. So 
argumentos de salo. E  precisamente porque, nos sales, a baronesa 
era absolutamente senhora de troar de mim sem correr qualquer risco, 
e divertindo a galeria com o espectculo das minhas tentativas e das 
minhas derrotas,  que eu arranjei maneira de nos encontrarmos a ss e 
longe de qualquer auxlio.
	-	Mas que me censura afinal? - perguntou por fim a baronesa.
	-	De ser uma coquette descarada, tendo prazer em deslumbrar-
me e em afastar-me em seguida: solteira, deixando-me crer que se 
tornaria minha mulher, como mulher casada, permitindo-me esperar que 
viria a ser seu amante. Pois bem, zanguei-me por fim e no sou como os 
outros com quem representou a mesma comdia e que se resignaram a 
serem postos de lado, desanimados e respeitosos. Quero vingar-me. Amo-
a, bem o sabe, e muito sinceramente, mas o meu amor no se contenta em 
ser platnico. Tem exigncias, furores, revoltas. E a Rose  a 
responsvel por isso. Porque  to bonita, to tentadora? Amo-a, amo-
a, h trs anos que a amo e que a Rose se deixa adorar. No podia 
pensar que eu continuasse a ser-lhe fiel sem um dia pretender 
desforrar-me. Esse dia chegou. Salvaguardei o seu pudor atraindo-a 
aqui por surpresa. Mas est aqui sozinha, sem riscos, e depende de si 
tornar-me muito feliz! Tenha piedade de mim, Rose, esquea as palavras 
violentas que eu pronunciei. Eram inspiradas pela febre que me provoca 
a sua querida presena. Est aqui, na minha frente, em minha casa, 
toda minha. E eu adoro-a!
	Estava agora a seus ps e suplicava com olhos ardentes e lbios 
hmidos. Seria sincero ao falar assim? Rose assim o julgou e teve um 
momento de descontraco. O seu rosto suavizou-se, ela sorriu e abanou 
a cabea num ar de meiga censura:
	-	Estranha maneira de mo dizer e sobretudo de mo provar.
	-	Que  preciso que eu faa?
	-	Em primeiro lugar que abra aquela porta.
	Condottier ps-se de p de um salto, estremecendo, cheio de 
clera e dominado de novo pelos seus instintos perversos:
	-	Oh! Continua a brincar comigo, mesmo aqui, mesmo depois do 
que eu lhe disse. Pior para si!
	Precipitou-se para ela, agarrou-a pelos ombros, vigoroso, ardente 
e esforou-se por aproximar o rosto dos lbios dela.
	Rose soltou um grito surdo, tornou-se rgida nos braos
que a enlaavam, lanando todo o seu desdm, todo o seu furor ao rosto 
daquele que a violentava. Lutaram assim surdamente, com dureza, sem a 
preocupao de no se magoarem, ele apertando aquela carne delicada e 
fina, ela debatendo-se com todas as foras e energias dos seus nervos. 
De sbito, no silncio daquele combate amoroso, um empurro fez abanar 
a porta fechada por Condottier, ao mesmo tempo que uma voz forte 
gritava:
	-	Abram!
	-	Oh! - exclamou Rose redobrando a sua resistncia. - Vm em 
meu socorro!
	Surpreendido, Condottier largou Rose. Ao mesmo tempo que uma mo 
impaciente fazia girar a maaneta da porta, a mesma voz falou de novo.
	-	Abram!  Valentin Raynaud...
	Ao ouvir aquele nome, Rose pareceu ficar to perturbada como 
Condottier. Afastou-se dele e muito depressa, em voz baixa:
	-	Abra, ou perde-me. Seja prudente. D-me essa chave. - No 
teve tempo de se decidir. Um forte empurro sacudiu a porta de dois 
batentes, cuja fechadura cedeu, e no limiar, ameaador e assustado ao 
mesmo tempo, apareceu Valentin. Com um rpido olhar viu a desordem em 
que se encontrava a jovem senhora e o furor do marqus. Teve um gesto 
de ameaa logo reprimido, e plido, mas dominando-se, disse:
	-	Foi o senhor que mandou a sua irm escrever-me o bilhete 
que adiava a hora da visita?
	Condottier olhou o seu interlocutor com o maior desdm e com voz 
desdenhosa:
	-	Que significa essa pergunta, senhor?
	-	Simplesmente que quero saber se  a si que devo a 
mistificao de que fui alvo.
	-	No compreendo o que quer dizer.
	-	Vou explicar-lhe...
	No teve tempo de dizer mais uma s palavra.
	Rose colocara-se entre os dois homens. Adivinhava que Raynaud, 
fora de si, ia insultar Condottier, e no queria que o marqus pudesse 
vingar-se facilmente do seu defensor. Com um gesto imps silncio ao 
marqus.



CCaptulo nono

	No salo do seu apartamento, no Palace Hotel, Evans andava de um 
lado para o outro, com grandes passadas, ouvindo Valentin que lhe 
narrava a sua aventura. Chegado de Cherburgo sem ser esperado, Ralph 
fora alojar-se no mesmo hotel em que se instalara o amigo e ouvia 
calmamente as confidncias dele.
	-	Meu caro - disse o americano -, nada pode fazer, e a 
pequena senhora de Rocher fez-lho notar muito razoavelmente. Voc no 
 marido dela nem amante nem irmo nem sequer primo. Tinha combinado
encontrar-se com ela para ver uma casa, nada mais... Afinal, como  
essa casa?
	-	Julga que a vi? Entrei como uma bomba no vestbulo, onde se 
encontravam dois lacaios, que me disseram que o patro no estava em 
casa... Respondi-lhes que sabia que estava e que ele me esperava com a 
senhora de Rocher... E como eles ficassem surpreendidos, passei por 
eles e entrei no salo arrombando a porta...  s o que conheo da 
casa... Um vestbulo, uma galeria e uma porta arrombada... Isso
basta-lhe para a comprar?
	-	Bem! Vejo que est a recuperar o seu equilbrio. Graceja... 
J  um progresso...
	-	Que quer que faa, Evans? No me deixa provocar o 
marqus...
	-	Ele nada lhe fez...
	-	Sim, abusou gravemente de mim. Serviu-se de mim como isco 
para a sua armadilha...
	-	Havia armadilha? Conhece o meu cepticismo em relao  
jovem baronesa. No lhe ocultei a minha opinio sobre ela... Para mim, 
ela foi,  ou ser amante do marqus de Condottier... Podem ter tido 
uma discusso, no meio da qual apareceu voc, muito inoportunamente, 
mas o sangue-frio da senhora ao encontrar o marido  porta, a maneira 
como ela o impediu de intervir, no que teve razo, de resto, tudo isso 
prova at  evidncia que se trata de dois amantes em desacordo 
momentneo, mas que faro as pazes na devida altura. Por isso no lhes 
deve dar motivos para rirem de si.
	Valentin, plido, crispado, furioso, no respondeu. Embora uma 
voz interior, mais forte que a da razo, lhe dissesse que Rose estava 
inocente, no podia negar que todas as aparncias eram contra ela. Ele 
suspeitara tanto dela! Ia ele, no momento em que a encontrara, de 
porta fechada, quase nos braos de Condottier, pensar que se tinha 
enganado? Percebera que Rose se defendia duramente contra o marqus. 
Do outro lado da porta ouvira o rudo da luta, as exclamaes de 
clera. Ao recordar-se disso estremecia. O que sentira, no minuto que 
precedera a sua entrada no salo, era impossvel de exprimir. Vira, 
num instante, a imagem de Rose nos braos de Condottier, e o corpo da 
jovem mulher apertado, acariciado pelo audacioso desejo daquele que se 
encontrava fechado com ela. Esforou-se por desviar o pensamento dessa 
recordao terrvel para si. No queria perguntar a si prprio, como 
fazia Evans, qual a razo daquela sbita hostilidade depois de tantas 
provas de entendimento dadas em pblico entre ela e o marqus. Tantas 
vezes Rose mudara de atitude que lhe parecia agora impossvel ter uma 
opinio definida a respeito dela. Preferia manter-se na indeciso, que 
poderia ser menos cruel que a certeza.
	Evans parou diante do amigo e disse:
	-	Compreende que se, por acaso, o marqus de Condottier se 
zangasse por voc ter ido perturbar o seu tte--tte, seria bem 
melhor. Ento poderia pedir algumas explicaes e, quem sabe,
obt-las...
	-	Ah! Estou fatalmente destinado a ser mistificado por essas 
pessoas -, disse Valentin, desencorajado. - Elas desprezam-me com 
todas as suas foras...
	-	E quais so as foras deles, diga-me? Um filho de famlia 
completamente arruinado que voc poder pr  porta da casa paterna, 
se lhe apetecer, por uma quantia de dinheiro. Uma vez essa quantia 
gasta, sendo a maior parte para os seus credores hipotecrios, que 
passa ele a ser? Diz-se que est empenhado em certos assuntos 
financeiros... Quer divertir-se a estragar-lhos? Sabe bem o que pesam 
as pequenas especulaes de que vivem os seus compatriotas... Bastaria 
um sopro para as fazer desaparecer... O seu marqus , portanto, um 
tomo que deve pr completamente de lado, se no quiser aniquil-lo. 
Quem  que pode rir em tudo isto?
	-	Evans, voc raciocina como um homem que domina os 
acontecimentos, enquanto eu, infelizmente, sou joguete deles.
	-	Porque assim o quer. Lembre-se, meu amigo, quej no  o 
Valentin Raynaud que dirigia a fbrica de Beaumont. Depois disso, foi 
com Evans para a Califrnia e comprou asjazidas de Chiquito...
Tornou-se um prncipe da indstria. Aprecie as coisas da altura em que 
se encontra... Veja portanto o que voc  ao p de um Folentin... O 
marido da sua Rose  um seu humilde servidor... Ele reconhece-o. E se 
voc quisesse arruinar Folentin era questo de uma semana... Meu caro 
Raynaud, meti-lhe na mo a varinha de ouro  qual todos os seres 
humanos obedecem... No tenho famlia, voc  o meu nico amigo e 
quero que seja feliz. Deixe-me gui-lo.
	-	Sim, Evans, sim, porque j no sei guiar-me a mim mesmo. J 
no distingo o verdadeiro do falso, o justo do injusto. H pouco, 
quando me lembrava da minha fora, sentia-me tornar-me odioso e capaz 
de fazer mal. Diz que seria fcil. Preste-me o servio de me impedir 
de ceder a essa tentao.
	-	Oh! Ei-lo tal como eu o queria - exclamou Evans
superior s baixas tentaes e aos maus instintos. Nestas condies  
invulnervel. Basta sobrepor-se s misrias da humanidade, e refiro-me 
s morais, para se tornar absolutamente senhor dos acontecimentos.
	-	 o que se passa com os espritos superiores, mas eu, 
Evans, sinto-me desamparado...
	-	Pacincia... H-de reencontrar a sua energia. De resto, eu 
estou aqui para tratar de tudo. E no se esquea que me pediu para o 
guiar. Vou faz-lo como se voc fosse um rapazinho, at ao momento em 
que deixar a minha mo para se lanar sozinho para a frente, como um 
homem.
	Evans pegou no chapu e nas luvas que tinha em cima da mesa.
	-	Aonde vai? - perguntou Raynaud.
	-	Visitar Folentin. Ser ali que serei melhor e mais 
rapidamente informado sobre o que se passa.
	-	E eu, que irei fazer?
	-	Ir a casa da condessa Grodsko pedir o assentimento dela 
para a compra da casa Condottier, visto ela ser co-proprietria...
	-	Est ento decidido a compr-la?
	-	Sim. A insolncia do marqus decide-me. Terei o prazer de 
fazer com que saia da casa dele. O cenrio da sua existncia conta 
muito para o prestgio desse brilhante jovem. Quando morar num prdio 
qualquer, com ascensor, com uma cocotte no primeiro andar e um 
comerciante de bicicletas no segundo, ser menos deslumbrante do que 
vivendo na sua antiga manso senhorial.
	-	Aceita o preo dele?
	-	Oh! Isso no tem importncia. E alm disso no se regateia 
com pobres diabos!... Se fosse Folentin... Previno-o, Raynaud, que no 
me sinto muito bem-disposto com Folentin... Ele far bem em no 
brincar comigo... V, venha, desamos. Creio que o automvel est  
porta.

	Folentin encontrava-se no seu gabinete quando o rapaz do 
escritrio lhe foi anunciar a chegada de Evans. Ergueu-se vivamente e 
disse:
	-	Mande-o entrar.
	Um pouco mais e ele receberia o americano como se fosse um 
prncipe. No entanto, dominou-se e foi com cordialidade, mas com a sua 
dignidade habitual, que acolheu o visitante.
	-	Tenho muito gosto em v-lo e agradeo-lhe ter vindo a minha 
casa sem tardar. Chegou recentemente?
	-	Ontem  noite.
	-	O seu amigo Raynaud s contava consigo para a semana, 
creio. - Est bem, o senhor Raynaud?
	-	No. Est de mau humor.
	-	Oh! Oh!
	O rosto do banqueiro toldou-se. Olhou para as unhas da mo 
direita com toda a ateno e depois decidiu-se a dizer:
	-	 por causa do caso de ontem?
	-	Ignoro-o - respondeu Evans com a maior calma. - De que caso 
se trata?
	-	O qu! Ele no lhe contou o que se passou em casa de 
Condottier?
	-	Ah!  a isso que est a fazer aluso? Sim, ele disse-me 
duas palavras sobre esse incidente... Mas que poderia isso interessar-
me a mim? Acho que s a si pode interessar...
	Folentin apurou o ouvido. Deixou de examinar as unhas e ergueu os 
olhos para Evans com um comeo de preocupao.
	-	Muito bem! E que lhe contou ento o senhor Raynaud?
	-	Deixemos isso, por favor -, retorquiu Evans. - No gosto de 
me meter naquilo que no me diz respeito... Nem sobretudo contrariar 
um homem que estimo...
	-	Contrariar? Porqu? - insistiu Folentin.
	-	No tenho de lhe dar indicaes sobre os seus negcios 
pessoais... O senhor sabe muito bem o que tem a fazer... Falemos de 
outra coisa... comprarei a casa Condottier. -. Peo-lhe que trate do 
assunto e que contacte o notrio para pagar o preo necessrio...
	-	Deseja falar com o marqus?
	-	O menos possvel.
	-	No tem boa opinio acerca dele?
	-	No tenho de ter opinies a respeito dele. Compro-lhe a 
casa, dou-lhe o meu dinheiro. Mais nada.
	-	Quando o senhor chegou, senhor Evans, ia telefonar ao 
senhor Raynaud para lhe pedir um encontro.
	-	Vou encontrar-me com ele daqui a pouco. Dar-lhe-ei o 
recado.
	-	E os negcios de Chiquito? - perguntou Folentin. No 
falamos deles?
	Evans tomou uma atitude distante, olhou para o ar e depois:
	-	Estamos presentemente a construir uma linha de
caminho-de-ferro, para ficarmos com ligao s vias do Pacfico. O 
nosso acordo com as grandes exploraes do petrleo est feito... No 
haver concorrncia... Ns entramos no trust...
	Folentin abriu muito os olhos:
	-	Mas ento s lhes resta explorar? Todas as combinaes 
financeiras se tornam inteis...
	-	Assim . Preferimos tratar ns mesmos dos nossos negcios: 
entendermo-nos com os nossos concorrentes e vender menos caro, mas 
ficarmos com todo o lucro para ns... Quando os poos comearem a 
render menos, faremos uma sociedade por aces. Achamos intil, de 
momento, dar ao mundo da Bolsa ocasio de ganhar grandes quantias  
nossa custa.
	-	Ah! Pode gabar-se de ser forte, o senhor! - exclamou 
Folentin. - Tem um estmago! Arriscar tanto! Mas se no tivesse podido 
entender-se com o trust?
	-	Teramos passado o negcio  gente da finana, visto ele 
ser mau. Mas como  excelente, ficmos com ele para ns. No  assim 
que tem por hbito proceder com o pblico?
	-	Mas ento a mim no me dar qualquer vantagem? No me 
interessar em nenhum dos seus empreendimentos?
	-	Sim, claro. Raynaud dizia, esta manh, que poderamos
dar-lhe, para lanar, o negcio das minas de Rio Verde.  muito 
gentil... h alguns milhes a ganhar ali... E ns no temos, na 
verdade, tempo para nos ocuparmos dele... Raynaud tinha o projecto de 
fazer entrar o seu cunhado, Maurice Prvinquires, na sociedade, como 
secretrio, para o ocupar... Ele gosta muito desse rapaz...
	-	Mas, eu, eu? - repetiu Folentin.
	-	Falar com Raynaud... At  vista. Queria falar-lhe apenas 
da compra da casa... Estou cheio de pressa...
	-	Ir a minha casa esta noite? A minha mulher recebe...
	-	No, no. No trouxe traje conveniente...
	-	Poder ir como quiser.
	- A senhora baronesa achar-me-ia pouco correcto.  impossvel. 
Adeus.
	Saiu. Folentin ficou sozinho e foi sentar-se  secretria. Estava 
pensativo. Aquilo que Evans respondera s suas perguntas sobre 
Condottier preocupava-o extraordinariamente. Parecia-lhe ter 
apercebido nas palavras do americano uma ironia desdenhosa que era 
insuportvel ao seu amor-prprio. Estaria ele, Folentin, a fazer papel 
de idiota? Na vspera mesmo, ao sair de casa de Condottier, 
interrogara Rose com autoridade. Mas as explicaes, que ela lhe dera, 
eram to vagas que ele no encontrava nelas razo nem para se 
tranquilizar nem para se zangar. Parecia certo que Condottier 
utilizara, para com a baronesa, processos que no eram de uma 
delicadeza extrema. Mas que parte tomara Rose nesse incidente? E 
sobretudo que figura fizera Folentin?
	Deveria parecer estar informado, e, com uma indiferena de bom 
gosto, no dar importncia a essas tentativas? Costumava troar 
frequentemente dos maridos que se irritavam por as mulheres serem 
objecto de galanterias. Iria ele mostrar-se semelhante a esses 
maridos? Mas haveria motivo para se mostrar menos impassvel do que de 
costume? Rose no se explicava e era melindroso ir pedir 
esclarecimentos a Condottier. Folentin, desejoso de manter a imagem de 
homem superior, estava muito aborrecido. Foi ento que Maurice 
Prvinquieres, que to utilmente o informara da presena do marqus em 
Paris, se encarregou de dissipar todas as dvidas do cunhado. 
Encontraram-se no clube, s cinco horas da tarde. O salo estava 
ocupado por cinco habitus que falavam das respectivas artrites. 
Maurice puxou Folentin para junto de uma janela e, longe dos 
importunos, disse-lhe:
	-	Ia a sua casa. Imagine que h pouco La Brde veio buscar 
Tremblay. Foram ambos a casa de Raynaud, da parte de Condottier...
	-	Um duelo?
	-	Creio bem que sim.
	-	Ento  por causa da minha mulher.
	-	No sei nada. Que se passou ento?
	-	Rose no quer falar do caso. Ela, que no tem papas na 
lngua, tornou-se muda no momento em que eu tenho o maior interesse em 
saber o que se passa... Pois, enfim, no sei qual  o meu papel nisto 
tudo.
	Folentin pareceu a Maurice um homem tomado de uma incrvel 
agitao. Apertava as mos uma na outra e batia no solo como se este 
fosse escaldante.
	-	O que  que vai ento fazer?
	-	Que sei eu! - exclamou Folentin. - E justamente isso que 
me pe fora de mim. O imprevisto  que me exaspera! Detesto as 
situaes pouco claras. S sou brilhante quando tenho tempo de me 
preparar.
	-	No se trata de ser brilhante, meu caro, mas de no dei xar 
comprometer a sua mulher por esse tratante do Condottier. Voc mesmo 
disse que ele  capaz de tudo...
	-	Mas eu no o receio! - exclamou Folentin, vermelho de 
irritao. - Ele encontrar, se for caso disso, com quem falar.
	-	Ah!  com Raynaud que ele quer falar... E a as 
probabilidades no so iguais. Entre um espadachim como Condottier e o 
bom e simples Raynaud, que nunca praticou qualquer desporto e que no 
sabe sequer o que  a esgrima, existe uma desigualdade flagrante.  
necessrio, se possvel, evitar um encontro entre os dois.
	-	Eu encarrego-me disso.
	Ao ouvir isto, Maurice fez um gesto to significativo que 
Folentin se endireitou, furioso:
	-	Julga que no tenho autoridade suficiente?
	-	Para falar verdade, no o creio.
	-	 o que veremos. Vou imediatamente ter com a sua irm...
	-	Faria melhor em deixar-se estar sossegado.
	-	Sim?  ento assim que me julgam? Pois bem, vo aprender a 
conhecer-me!
	-	Folentin, vai cometer um disparate!
	-	Muito bonito - disse o baro. - As coisas invertem-se. 
Entre ns, quando se falava de tolices, era eu que dava as lies.
	-	No quero dar-lhe lies, meu caro amigo. De resto, sou 
incapaz de o fazer. Dou-lhe humildemente um conselho:
deixe Rose em paz neste momento. Falei com ela ainda h pouco. Ela 
est um verdadeiro furaco.
	-	Muito bem. No tenha pena de mim. Eu farei com que tudo 
volte  calma.
	Apertou a mo ao cunhado e saiu. Quando chegou a casa, dirigiu-se 
para os aposentos da mulher e teve o aborrecimento de ver-lhe recusada 
a entrada pela criada de quarto. A senhora estava com dores de cabea 
e deitara-se. E recomendara sobretudo que ningum fosse ao quarto sem 
ela tocar. Folentin, decepcionado, retirou-se primeiro para os seus 
aposentos, depois resolveu ir a casa do sogro. M. Prvinquires 
acabava de chegar e encontrava-se de muito mau humor. Acolheu Folentin 
com um grunhido que dificilmente poderia passar por um cumprimento. E 
como o genro se informasse do que lhe sucedia:
	-	 a sua mulher, meu caro, sim, a sua mulher, que  uma 
extravagante, e sou indulgente no a qualificando de outra maneira!
	-	A minha mulher? - perguntou Folentin.
	-	A minha filha, se preferir. No tenho amor-prprio nisso e 
tanto me serve um vocbulo como outro. Acho-a igualmente insuportvel!
	-	Mas que fez ela afinal?
	-	Ah! Que fez ela? Por causa dela esto dois homens prestes a 
matarem-se um ao outro. Um deles, pelo menos, -me particularmente 
simptico... enquanto o outro... o outro  um cidado com pouco 
merecimento!
	-	Mas explique-se! - gritou Folentin, exasperado. - H dez 
minutos que abusa da minha pacincia!
	-	Bem! No sei o que se passou entre a sua mulher, o senhor 
Raynaud e o marqus de Condottier. Mas esse palhao ( a Condottier 
que me refiro) mandou dois dos seus amigos, dois outros polichinelos 
da espcie dele, ter com Raynaud.
	-	Maurice j mo tinha dito.
	-	Que faz ele tambm metido nisso? Outro louco. A irm e ele 
formam par. Mas  de outro gnero.
	-	Mostrou-se muito razovel nestas circunstncias, devo 
dizer.
	-	Gosto de o saber. Ainda que isso me assombre.
	-	Mas como  que est ao corrente deste caso?
	-	Oh! De uma maneira particularmente simples. Raynaud veio 
pedir-me para o representar, com o seu amigo Evans.
	-	Mas que razes d ele para a disputa com Condottier?
	-	No me deu nenhuma.
	-	Como? Tambm ele? A minha mulher cala-se, Raynaud cala-se. 
Ser preciso que Condottier se explique.  de mais! Troam de mim.
	-	S pensa em si. O senhor primeiro, depois e depois. Essa 
hipertrofia do eu, que  a sua doena, torna-se odiosa. Dois homens 
vo talvez massacrar-se e a sua nica preocupao  consigo mesmo!
	-	 que, no fundo, trata-se apenas de mim! - gritou
Folentin, furioso. - No compreendem coisa alguma, mas
eu adivinho tudo. O caso  dirigido contra mim, entendem?
Raynaud  apenas um pretexto! Eu  que estou em causa.
Condottier quis e quer ainda comprometer a minha mulher.
Mas eu esclarecerei a maquinao dele. E desmascar-lo-ei.
	-	H-de servir-lhe de muito! E depois como  dificil de 
compreender! Vivem como insensatos e espantam-se por as peripcias das 
vossas existncias serem extravagantes. Mas  lgico! Colhe-se o que 
se semeou!
	-	Tudo isso so palavras que no querem dizer coisa alguma. 
Prega-me sermes de moral com frases tiradas dos jornais. Julga que 
vou contentar-me com as suas censuras? Qual  o objectivo de 
Condottier? E por que desafia Raynaud?
	- Se o senhor prprio no o sabe, como quer que eu lho diga? 
Estarei no segredo das suas loucas aces? Julga que me diverte 
conferenciar com dois idiotas como La Brde e Tremblay a respeito de 
um farsante como o marqus de Condottier? Felizmente vou ter por 
companheiro Evans, que  um homem srio.
	- Ah! Esse s o faro andar com o seu passo.
	- Tambm eu farei o mesmo. E eles vo ver, esses peraltas! 
Pessoas que vo todos os anos caar para as minhas terras, que nunca 
acham a caa suficientemente abundante e que... Esperem pela 
demora!...
	- Quando se renem?
-	Amanh de manh.
	- Bom. Vou tentar falar finalmente com a minha mulher. Talvez ela 
se decida a dizer-me o que se passa e que papel desempenho eu...
-	Sim.  sempre isso que o preocupa.
-	Pois claro!
-	Pois bem. Tenha a certeza de que no ser brilhante. 
Impressionado por esse prognstico, Folentin voltou para
casa. Eram horas do jantar. Rose mandou-lhe pedir que jantasse sem 
ela. Na grande sala de jantar, servido por quatro criados lentos e 
silenciosos, Folentin, sozinho e lgubre, jantou rapidamente e em 
seguida fechou-se na sala de filmo. Comeou a reflectir, o que h 
muito tempo no fazia. A exaltao em que h muito vivia cessara 
bruscamente e ele encontrava-se agora perante a realidade.  primeira 
vista, no a achava satisfatria. Aquilo que o sogro lhe dissera, num 
acesso de franqueza, voltava-lhe  memria e ele comeava a dar-se 
conta da extravagncia do seu comportamento para com a mulher.
	Casara com Rose h trs anos e, desde ento, haviam tido ambos 
apenas uma preocupao: brilhar. Tinham subordinado tudo s exigncias 
do orgulho. E hoje, por detrs do cenrio da sua vida deslumbrante, a 
tristeza e a misria moral pareciam lamentveis. E quem poderia ser 
considerado responsvel por aquele desastre seno ele, que se 
envaidecera da sua indiferena, do seu egosmo e da sua imoralidade? 
Como qualificar a atitude desenvolta que ele tomara em presena das 
tentativas feitas para seduzir a sua mulher? No seria cinismo, se no 
fosse estupidez? Folentin tornou-se pensativo. O balano desses trs 
anos, que ele at ento achara gloriosos para o seu amor-prprio, 
pareceu-lhe sofrer um desmerecimento sbito ao examin-los. Comeou a 
julgar-se mais ingnuo que astuto. E uma espcie de cime apoderou-se 
subitamente dele.
	O incidente, essencialmente banal e que ele at ento considerara 
insignificante, e que consistia na queda de uma mulher, pareceu-lhe de 
repente de uma importncia extraordinria. Perguntou a si mesmo, com 
um comeo de angstia, se Rose teria alguma vez tido um amante. Algo 
se crispou nele, muito dolorosamente, ao pensar que a sua jovem 
mulher, to encantadora, tivesse podido tra-lo e dar-se a um outro. 
Nesse instante deixou de ser um fantoche para voltar a ser um homem. 
Sofria. Tremia. No podia suportar a ideia de ver a mulher engan-lo 
tranquilamente e permanecer junto dele. Teve um gesto de clera. 
Exclamou, no silncio da sala onde ruminava os seus aborrecimentos: 
"Ah! Expuls-la-ia!"
	Baixou a cabea, com amargura: expulsar Rose. Pensara nisso ele, 
Folentin, numa soluo to brusca, por uma leviandade de mulher, 
depois de ter declarado tantas vezes que o que importava, entre 
esposos, era permanecerem bons camaradas e perdoarem mutuamente as 
pequenas fraquezas. Que desiluso! E como reconhecer, nesse marido 
inquieto e irritado, o zombeteiro brilhante que nada queria levar a 
srio? Mal se reconhecia a si prprio. E no entanto era o mesmo 
Folentin que no admitia que algum pudesse "enrol-lo". Desde que 
pressentira a manobra de Condottier, e que desconfiava de Rose ter 
desempenhado um papel que contribua para o ridicularizar, sentia-se 
muito diferente do que quando afirmava em pblico: "O marqus faz a 
corte  minha mulher. Tem razo!" Nesse momento no admitia que a 
catstrofe pudesse dar-se. A sua antiga presuno baseava-se na 
confiana. E agora que j no julgava impossvel aquilo que ele 
proclamara no ter importncia, sentia-se humilhado, ferido, furioso. 
E pensava no divrcio.
	Enquanto Folentin fazia esse desolador exame de conscincia, 
Rose, nos seus aposentos, sentia-se devorada pela inquietao. Por 
duas vezes enviara a criada ao hotel onde estava Raynaud para lhe 
pedir para ir falar com ela e, por duas vezes, ela trouxera a resposta 
de que o Sr. Raynaud sara e que no sabiam quando voltaria. O Sr. 
Raynaud estava em conferncia com o Sr. Evans e no podia ser 
incomodado. Os seus dois bilhetes tinham l ficado. No parecia 
possvel Raynaud ter arranjado dois minutos para os ler. Era quase 
inacreditvel que ele no tivesse acorrido para saber o que Rose 
desejava. Que mudana se dera nesse corao to dedicado! Depois de a 
ter surpreendido fechada com Condottier, pensava que ela o teria feito 
ir ali apenas para presenciar tal cena, para lhe dar uma prova de que 
Condottier era na verdade amante dela? Isso era inadmissvel! Tudo na 
revolta da atitude dela, na violncia da sua linguagem, mostrava a sua 
inocncia. Depois de a ter visto trmula de furor diante de 
Condottier, era impossvel acreditar que ela estivesse conivente com 
ele. E ento se era vtima dele, no era sua cmplice.
	Eis o que ela queria dizer a Raynaud. Sentia uma necessidade 
imperiosa de se desculpar perante ele e tambm de lhe dirigir ardentes 
censuras. Pois achava-o responsvel, em grande parte, pelo que estava 
a suceder. Fora a sua rigidez, a sua selvajaria, a sua incompreenso 
de tudo o que havia de afectuoso nas intenes de Rose que tinham 
provocado o conflito com Condottier. No sabia muito bem como 
explicaria isso a Raynaud, mas queria que ele fosse junto dela, mesmo 
que nada lhe dissesse. E sozinha, no seu quarto de toilette, estendida 
na sua chaise-longue, Rose exasperava-se pensando que ele continuava a 
proceder para com ela da mesma maneira hostil, recusando-se a 
obedecer-lhe. Pois no admitia que ele tivesse outra coisa de mais 
premente a fazer do que acorrer  sua chamada. Como Folentin 
perguntara se ela o podia receber, resolveu deix-lo entrar. Ele 
resmungou logo:
	-	Bem, minha cara, a sua dor de cabea  complacente. Estou 
encantado com isso.  provvel que no ignore quais as consequncias 
do seu procedimento de ontem?
	-	Ignoro-o completamente -, disse ela, sem mexer a cabea, no 
meio das suas rendas e almofadas -, e peo-lhe que v imediatamente a 
casa do senhor Raynaud e o traga aqui para eu ser informada.
	-	Creio que enlouqueceu completamente! - exclamou Folentin. - 
Julga que vou meter-me nos seus assuntos sem saber o que se passou? 
Considera-me mais benvolo do que eu sou na verdade. Diga-me primeiro 
o que sucedeu em casa de Condottier e depois veremos.
	-	Isso  coisa de pouco interesse para si.
	-	De pouco interesse! - gritou Folentin. - Quando se trata da 
minha honra?
	-	Oh! Grandes palavras para uma coisa to pequena!
	-	Pequena coisa a sua fidelidade?  possvel! Mas a minha 
honra!
	-	No me habituou a tal susceptibilidade. Est com uma crise 
de rigorismo. Est a tornar-se burgus. Que lhe deu?
	-	O que me deu  que no quero ser gozado, nem pelo marqus 
de Condottier nem por outros, e que se brincou comigo...
	-	Agora ameaa-me?
	-	Sim, senhora, confesse-se, se faz favor, sem mais 
desvios... S h uma palavra que serve: Condottier  seu amante?
	-	V perguntar-lho a ele, para que ele se ria de si.
	-	No se trata de rir, mas sim de explicar.
	-	 ridculo!
	-	No o serei durante muito tempo!
	-	E que far ento para isso?
	-	Pedir-lhe-ei para sair da minha casa, continuar as suas 
estroinices com Condottier...
	-	Nada lhe seria mais agradvel.  com isso que ele sonha.
	-	Porqu?
	-	Se ainda no compreendeu o que ele quer, nunca o 
compreender.
	-	Senhora! - gritou Folentin, desesperado -, abusa demasiado 
da minha pacincia.
	-	Menos que o senhor da minha. V-me buscar Raynaud.
	-	Que papel tem ele em tudo isto?
	-	 o que eu quero saber.
	-	Ento no o sabe?
	-	Aparentemente.
	-	Mas que trapalhada  esta?
	-	Acabar por o saber.
	-	Pobres daqueles que me tomarem por tolo!
	-	Sim, j se sabe. O senhor  um raio! Pulveriza tudo!
Peo-lhe para notar que, at agora, no lhe falei dos meus projectos, 
embora me tenha grosseiramente anunciado as suas intenes. Pensa em 
pr-me fora da sua casa, mas eu desejo no permanecer nela.
	-	E para onde ir?
	-	Para onde tiver a certeza de no o encontrar.
	-	Mas ento odeia-me?
	-	Eu? No me dou a esse trabalho. Trato-o segundo os seus 
mritos. Como uma pessoa inconsequente.
	-	Inconsequente!
	-	V bem que  a sua sorte. Nem Condottier, nem Raynaud se 
ocupam consigo...
	-	Ocupam-se muito um com o outro, no entanto, e eu acabarei 
por me ocupar dos dois.
	-	Para os pr de acordo. Bem, antes que seja muito tarde v-
me buscar o senhor Raynaud.
	-	Que figura faria eu!
	-	 isso que o preocupa sempre. Nunca far a figura daquilo 
que .
	-	Mas que sou eu, afinal? - gritou Folentin, fora de si.
	-	Nada daquilo que fez o possvel por ser. E na verdade a 
honra disso no  sua.
	Folentin fez uma careta de despeito. Encolheu os ombros e 
resmungou:
	-	Est verdadeiramente insuportvel esta noite. Visto no 
querer dar-me o mais pequeno esclarecimento sobre o que se passou, 
arranje-se como puder. Eu no me exporei mais tempo s suas 
amenizades. Boa noite, senhora.
	Ela nem sequer lhe respondeu. Mas logo que o marido fechou a 
porta levantou-se de um salto, afastou a renda que lhe rodeava a 
cabea e, tirando o roupo, comeou, sem ajuda, a vestir-se. Envergou 
um fato de saia e casaco de tecido escuro, cobriu os seus belos 
cabelos dourados com um chapu muito simples, puxou para a cara o 
espesso vu, e sem prevenir, sem dar uma indicao, desceu uma pequena 
escada, passou pelo porteiro e saiu para a rua. A noite estava clara e 
suave. Rose seguiu em direco ao Elyse-Palace, chegou diante do 
vasto edifcio e entrando no vestbulo dirigiu-se  recepo.
	-	O senhor Valentin Raynaud encontra-se no hotel?
	-	Vou saber, minha senhora.
	Rose sentou-se a um canto, pacientemente. Ao fim de uns momentos, 
o telefone tocou, foram trocadas breves palavras.
	-	O senhor Raynaud acaba de entrar, minha senhora. No segundo 
andar, nmero dezassete. Vo acompanh-la ao elevador.
	Rose agradeceu com um gesto de cabea, seguiu o empregado que 
caminhava na frente dela e quando chegou ao segundo andar, parou em 
frente do nmero 17. O corao batia-lhe com fora. Mas Rose dominou a 
sua perturbao e tocou  campainha elctrica. Da a pouco um criado 
abriu a porta, mandou-a entrar para um pequeno salo e sem nada 
perguntar esperou que ela falasse:
-	Diga ao senhor Raynaud que uma senhora lhe quer falar.
	No queria dizer o seu nome a um criado desconhecido. Pensava que 
Valentin saberia adivinhar quem se apresentava em casa dele. Talvez 
quisesse mesmo ver o efeito que a sua presena produziria e
assegurar-se de que nenhuma mulher visitava Raynaud. Deve ter ficado 
satisfeita. Ele no mostrou qualquer hesitao e logo que a viu 
exclamou, muito comovido:
	-	A senhora em minha casa? Mas que se passa?
	-	 o que venho perguntar-lhe. Deixou-me sem notcias e tenho 
tido, de vrios lados, rumores que me inquietam vivamente.
	-	Peo-lhe instantemente que no se inquiete por minha causa.
	-	E por causa de quem quer que me atormente?... S por si me 
interesso...
	Logo que disse estas palavras, Rose lamentou t-las dito. 
Mostravam com demasiada clareza os seus sentimentos. Raynaud limitou-
se a inclinar-se, friamente, com deferncia, mas sem sequer responder. 
Rose irritou-se imediatamente e incapaz de se moderar:
	-	Porqu esse ar calmo e essa reserva? Ouvem o que dizemos e 
no nos encontramos aqui ss?
	-	No me encontro aqui sozinho. Ralph Evans est comigo. Mas 
nada ouve, asseguro-lhe...
	-	Oh, que me importa! Peo-lhe para me informar exactamente 
do ponto em que esto as coisas.
	-	Pois bem, minha senhora, o marqus de Condottier considerou 
como uma ofensa a minha interveno na entrevista que mantinha 
consigo...
	Rose interrompeu-o com vivacidade:
	-	Calculo que no v prestar-se s fantasias do marqus de 
Condottier?
	-	No sei se o marqus de Condottier tem fantasias... Parece 
despeitado por ter sido perturbado no tt--tte consigo...
	Rose continuou com maior veemncia ainda:
	-	Espero que, ao menos, acredite que foi por complacncia 
minha que me encontrei a ss com ele.
	Raynaud permaneceu de gelo e respondeu:
	-	Minha senhora, no tenho qualquer opinio desse gnero e 
felizmente no tenho de a ter.
	Rose estremeceu. Esboou um pequeno gesto de protesto e, 
levantando o vu que a sufocava, mostrou a Valentin o seu belo rosto 
plido de contrariedade:
	-	Mas pelo menos acredita em mim, quando afirmo que foi 
contra a minha vontade que me encontrei a ss com o marqus de 
Condottier?
	-	No tenho qualquer razo para duvidar das suas afirmaes.
	-	Est a ser para comigo de uma delicadeza que  mais 
ofensiva do que seria a brutalidade.
	-	Para me permitir ser brutal consigo - replicou com amargura 
-, no sou o marqus de Condottier...
	-	Ah!  ento o que pensa! - exclamou Rose com clera. - Acha 
que o marqus tem direitos sobre mim. E ousa diz-lo!
	Parou bruscamente diante dela, encolheu os ombros fortes e com os 
olhos a cintilar:
	-	Pois bem, sim, ouso diz-lo e estremeo de vergonha e de 
clera. Sim, creio que se foi a esse encontro, e ele se fechou consigo 
daquela maneira, foi por lhe ter dado o direito de usar essa liberdade 
para consigo. Que depois se tenha zangado com o marqus de Condottier, 
que ele tenha querido for-la, que eu tenha chegado a tempo de a 
livrar dele, tudo isso significa pouca coisa.  um incidente sem 
valor, um acaso. Mas o que domina tudo  o seu acordo com ele, 
afirmado por todos aqueles que falam, sujam e caluniam no mundo infame 
em que vive. E o vosso acordo, atestado pelas familiaridades sem nome 
que concedeu publicamente a esse peralvilho insolente.  esse acordo, 
cujas provas se comprazia em mostrar-me, como para me fustigar, 
sabendo que eu sofria atrozmente. Depois disso, no  de espantar que 
a tivesse ido encontrar sozinha, fechada  chave, com o marqus. O que 
seria surpreendente era que no estivesse l.  possvel que nesse dia 
ele a tenha tratado mais brutalmente do que de costume. Esses 
brilhantes vencedores preocupam-se pouco com as mulheres. Ele ter-lhe-
 desagradado e, por qualquer motivo, t-la- feito desejar sair mais 
depressa do que ele queria, mas que prova tudo isso? Que o que ouvi 
contar de si  falso, que o que vi  imaginao minha, e que o marqus 
no  seu amante? Acha-me realmente to estpido que acredite nisso?
	Rose olhou-o por um instante, vendo-o perturbado pela clera, 
trmulo de angstia e fora de si. Depois disse, muito calma:
	-	Porque se teria ele mostrado ofendido consigo se fosse meu 
amante? E por que motivo teria interrompido o nosso tte--tte se 
julgasse ter ele o direito de me reter em casa dele contra minha 
vontade? No, sabe muito bem que entre ns h apenas leviandades, que 
tudo o que contaram  calunioso, e que tudo o que o Valentin viu, com 
os seus prprios olhos,  ilusrio.
	-	Mas ento - exclamou ele com desespero -, por que motivo  
que fez tudo para fazer pensar, fora da minha presena e na minha 
presena, que estava perdida ou prestes a perder-se?
	Rose abanou a cabea, sorriu e disse com ar enigmtico e 
encantador:
	- Porqu? Sim, porqu?...  o que ser preciso adivinhar! 
Valentin deixou cair os braos ao longo do corpo, com 
desencorajamento:
	-	Que prazer tem em torturar-me? De cada vez que falo consigo 
fico partido, acabrunhado, desolado! Que coquette atroz , para que, 
mesmo neste momento, venha provocar-me com o sorriso delicioso dos 
seus lbios trocistas e o olhar misterioso dos seus olhos que prometem 
sempre e no cumprem nunca? Que espera obter ainda de mim, 
enlouquecer-me? Diga, fale, no v que me perturba o crebro e que me 
dilacera o corao!
	Rose sentou-se meigamente junto dele e, erguendo um dedo num 
gesto de autoridade que lhe era habitual, respondeu:
	-	Quero que me diga finalmente o que pensa, e que, nesse 
crebro que eu perturbo e nesse corao que dilacero, no exista mais 
nada de desconhecido para mim.
	Valentin aproximou-se dela, e em voz baixa, com um estremecimento 
de todo o seu ser:
	-	Quer ento saber que a amo, que sempre a amei, e que, neste 
momento em que tenho tantas razes para suspeitar de si e de a temer, 
continuo a am-la, porque  meu destino am-la eternamente, infeliz, 
mas fiel, at  morte. Sim, desde que penso que me dei a si, e apesar 
das suas injustias, das suas crueldades, nunca deixei de ser seu. 
Sofri, em silncio, por no a ver ser como eu tinha sonhado e era para 
mim um desespero inexprimvel assistir  sua decadncia moral. Parti, 
fui para o fim do mundo para fugir a esse espectculo terrvel de ver 
aquela, que eu desejava fosse superior a todas as mulheres,
rebaixando-se, sendo amiga de uma condessa Grodsko e companheira de 
todas as loucas que s procuram na vida ocasies de prazer. Mas de 
longe, como de perto, pensava sempre em si, e tinha apenas um desejo, 
o de a voltar a ver, embora no me enganasse sobre o que me esperava, 
visto que, desde o primeiro instante, me encontrei metido na odiosa 
intriga de que pretende ser vtima. Evans bem me dizia: "Que vai fazer 
para esse belo mundo decadente? Fique comigo, nos nossos largos 
espaos, a trabalhar livremente, longe das perversidades e das 
baixezas. Aqui somos reis. Fazemos o que queremos. Logo que entre em 
Paris, ser aniquilado pelos hbitos dessa sociedade, pelos seus 
preconceitos e convenes, voltando a ser um pobre escravo." Eu no 
quis dar-lhe ouvidos, voltei e acabei por ficar de novo sob o seu 
jugo. Tenho vergonha de mim mesmo, horror aos outros, censuro-a, 
acuso-a, pergunto a mim mesmo se no devo desprez-la e continuo a 
am-la! Quis saber o que havia no meu crebro e no meu corao. Agora 
j no tem iluses. Nada lhe escondi!
	Rose murmurou docemente:
	-	Fez bem. Estou contente por saber que me ama.  o nico 
homem cuja afeio, hoje em dia, me  preciosa. Bem o sabia. Porque me 
negou essa afeio? Fui muito injusta para consigo. Infelizmente 
estava cega. Vejamos, quando conversmos no jardim da fbrica, em 
Beaumont, j me amava assim? Porque no mo declarou?
	-	Como ousaria faz-lo? Havia entre ns uma distncia grande 
de mais. Para a transpor, teria de ser encorajado. E no fui...
	-	No,  certo. No sei onde tinha a cabea. S sonhava com 
uma situao importante, grande luxo, fortuna... Era uma tola, sem 
experincia e sem senso... Foi preciso saber tudo o que os meus 
desejos tinham de vo e de miservel para voltar a ter ideias mais ss 
e mais fortes... Lembro-me que o senhor Evans me tratou sem 
indulgncia, e voc tambm, Valentin. Talvez se tivesse sido de outra 
maneira... Mas no, eu estava sem senso, via tudo pelos olhos da minha 
me, atraida pela aristocracia, e guiava-me pelas ideias do meu pai, 
que s tinha estima pelas pessoas muito ricas. Nada me esclarecia, 
nessa poca. A experincia da vida, o conhecimento das realidades, 
foram necessrios para me provar at que ponto eu me tinha enganado. 
Mas ento era demasiado tarde. O Valentin partira, eu estava entregue 
a mim prpria, no meio de uma sociedade ociosa e corrupta. Foi milagre 
no me ter perdido, to adulada e cortejada fui. Mas agora acabou-se. 
J no corro qualquer perigo. Explicmo-nos, sei que me ama, vou ser 
feliz.
	Valentin olhou-a com espanto.
	-	E como  que pode acomodar os seus sentimentos com a sua 
situao?  casada...
	Rose respondeu num tom despreocupado:
	-	Sem dvida, mas tenho toda a liberdade. Ver-nos-emos todos 
os dias. O meu marido no nos incomodar de modo algum...
	Valentin voltou um pouco a cabea. Depois, com apreenso pela 
resposta que ela lhe iria dar:
	-	Seria minha amante?
	Ela corou e abanou a cabea com ar descontente:
	-	Que me diz? Quereria isso? No o creio.
	-	Ento qual ser a nossa existncia? Tem a pretenso de 
estar acima dos preconceitos correntes e de raciocinar de um modo 
superior. Mas, no entanto, deve reconhecer que essa situao seria 
inaceitvel. Quando uma mulher casada tem a certeza de que s poder 
viver feliz com um homem que no  o marido, e que o diz a esse homem, 
encontra-se imediatamente perante a necessidade de se divorciar, ou 
incorre na
tentao de cometer adultrio. Mas se imagina que se pode instalar no 
lar conjugal com uma falsa felicidade, que consistir em pequenos 
cuidados, visitas amveis, conversas em torno de uma mesa de ch e 
idas  pera em conjunto, ilude-se. Cometeu, no comeo da vida, como 
diz, um erro de apreciao que a conduziu onde est. O mais honroso 
seria continuar.
	-	Continuar a viver como vivo? Nunca!
	-	Ento quer divorciar-se?
	-	Ser necessrio.
	-	E o seu marido aceder?
	-	Certamente que no. A no ser que o amor-prprio a isso o 
incite. Mas se vir, como consequncia da nossa separao, uma 
diminuio da considerao que tm por ele, ento preferir
acorrentar-me, mesmo que eu morra de desgosto, do que dar-me a 
liberdade.
	-	Ento a situao no tem sada.
	-	 o que veremos.
	-	Oua, peo-lhe, no falemos mais destas coisas. Parece-me, 
s por falar nelas, degradantes para mim e para si. Apreciemos a nossa 
mtua confiana reencontrada e contentemo-nos com a amizade sincera 
que nos  permitida.
	-	Com uma condio: que me d todas as garantias de 
obedincia e de sensatez que posso esperar de si. Nada de disputas com 
o marqus de Condottier...
	-	Ah! Isso no depende de mim.
	-	Sim. Depende de si. No se mostre rgido nas negociaes 
que vo ser feitas. Sabe bem que h sempre maneira de concertar as 
coisas...
	-	E o marqus querer que assim seja?
	-	Obrig-lo-o a isso. O senhor Evans e meu pai. Eu, se for 
necessrio.
	-	A Rose? Por amor de Deus, se quer pacificao no se meta 
no assunto. Se aparecer, mesmo de longe, o caso toma uma feio ainda 
mais difcil.
	-	Bem, apagar-me-ei completamente. Mas tem de prometer ser 
razovel.
	-	Sim, e como primeira prova disso, suplico-lhe que volte 
para casa. So onze horas.
	-	Vou-me embora.
	Voltou a puxar o vu para o rosto, diante do espelho, e Valentin 
teve a alegria de ver, elegante e familiar, nos aposentos dele, essa 
mulher adorada, cuja presena ele desejara durante tantos anos. Rose 
voltou-se, olhou-o durante uns instantes como se quisesse gravar nos 
olhos a imagem dele. Sorriu, abanou a cabea e disse:
	-	Vejo-o e, no entanto, j no  o mesmo.
	-	Quer dizer que a opinio que tem de mim no corresponde s 
suas recordaes. Eu sou o mesmo, a Rose  que mudou.
	-	Sim, mudei muito, muito! - murmurou ela. - Felizmente. 
Lembra-se que em casa do meu pai me chamavam, rindo, a conquistadora. 
Talvez que depois de muitas conquistas inteis ou desagradveis, tenha 
conseguido fazer a nica conquista invejvel: a de um corao sincero 
e dedicado.
	Valentin estendeu-lhe a mo. Rose teve um gesto como para se 
lanar nos braos dele, mas ao ver o seu rosto grave deteve-se, e, 
esbelta, com passos ligeiros, desapareceu no corredor.



Captulo dcimo

	Folentin preparava-se para sair para o escritrio quando a mulher 
lhe mandou pedir que fosse aos aposentos dela. Sendo raro que Rose 
tivesse desses caprichos, era preciso que houvesse, para que ela 
interviesse no decorrer to bem regulamentado da sua existncia 
conjugal, uma razo muito importante. O banqueiro atravessou portanto 
a pequena sala, penetrou no quarto de toilette da mulher e encontrou-a 
sentada perto do toucador, com um pequeno papel azul na mo. No lhe 
deu tempo de pronunciar as mais simples palavras de delicadeza. Com 
gestos febris e um brilho no olhar que revelava uma emoo violenta, 
estendeu o telegrama a Folentin, dizendo esta palavra:
	-	Leia.
	Intrigado, Folentin afastou de si o papel, pois via mal ao p, e 
leu: "Minha querida Rose, previno-te que Raynaud se bate ao meio-dia 
de hoje com Condottier. O nosso pai serve-lhe de testemunha, com 
Evans. Toma as medidas que julgares teis. Beijo-te. Maurice."
	O banqueiro dobrou maquinalmente o papel, pousou-o sobre o 
toucador, deu dois passos com ar preocupado e disse:
	-	Raynaud bate-se com Condottier... Mas, mas... Condottier e 
Raynaud porqu?
	-	Vai recomear, como ontem, a procurar as razes e as 
causas? Eles vo bater-se.  um facto! O que  que vai fazer para os 
impedir?
	-	E como poderia faz-lo?
	-	Indo ter com o marqus e perguntando-lhe qual  o seu papel 
neste caso, pois que o desconhece.
	-	Minha cara, fala por enigmas e eu tenho a infelicidade de 
no os compreender.
	-	A opinio pblica encarregar-se- de o esclarecer. Mas ser 
demasiado tarde.
	-	Mas que papel desempenho eu, segundo a sua opinio?
	-	A do tolo enganado.
	-	E por quem?
	-	Pelo marqus de Condottier.
	-	Com a sua cumplicidade.
	-	De maneira nenhuma, e a  que est a habilidade dele. Ele 
zomba de si e arranjou to bem as coisas que ser impossvel livrar-se 
delas se deixar passar este momento propcio.
	-	Seja um pouco mais explcita, por favor. No me leve a 
desmentir toda a minha conduta passada e a comportar-me bruscamente 
como um burgus que faz cenas domsticas. Agora conheo os sentimentos 
que tem por mim. Exprimiu-mos com uma sinceridade que no d lugar a 
qualquer iluso. Digne-se apenas fazer-me ver o interesse que posso 
ter em intervir nos assuntos do senhor Raynaud e do marqus de 
Condottier, se deseja que eu me meta neles.
	-	Quero que impea o marqus de Condottier de matar esse bom 
rapaz.
	-	Oh, no se matam as pessoas to facilmente!
	-	Digo-lhe que esse duelo provocar um escndalo que recair 
sobre si...
	Folentin mostrou-se muito perplexo. Sentiu um grande rancor 
contra a mulher, que to cruelmente o atingira na sua vaidade. 
Comeava a ter srias dvidas sobre os motivos a que obedecia Raynaud 
e desde h muito tempo que sabia o que eram os escrpulos de 
Condottier. Hesitava entre o desejo de no satisfazer Rose e a vontade 
de conhecer os fundamentos da sbita hostilidade entre Raynaud e 
Condottier. Alm disso, a vaga apreenso de ser julgado com severidade 
pela opinio pblica perturbava-o. Examinou as razes que tinha para 
seguir os conselhos da mulher e para os repelir. A curiosidade e a 
inquietao venceram. Disse em tom decidido:
	-	Quer que eu intervenha? F-lo-ei ento. Vouj a casa do 
marqus de Condottier.
	Rose no lhe dirigiu sequer uma palavra de aprovao. Inclinou a 
cabea. Nada mais.

	O marqus, de conversa com La Brde e Tremblay, no seu gabinete, 
procedia aos preparativos para o duelo. Tirara de um armrio dois 
estojos com pistolas e examinava-as como conhecedor.
	-	As mais pesadas so as melhores - disse La Brde. Mas 
aconselho-te a usares as mais leves. Com uma boa carga
de plvora e a carga bem apoiada, h setenta e cinco por cento de 
probabilidades de ningum ser atingido...
	-	Por isso  que levarei as outras...
-	Sim? Ests ento com intenes sanguinrias?
	-	Esse Raynaud irrita-me, com os seus ares de puritano...
	-	Pensas que ele vai querer matar-te por causa dos teus 
modos?
	-	Pode ser.
	-	Ah! Mas, falando a srio, achas que vamos assistir a um 
massacre?
	-	Se o meu adversrio tivesse consentido em bater-se  
espada, poderia responder-te. A estaria seguro do que fazia. Mas 
vocs deixaram que o senhor Evans impusesse as pistolas. E vou ser 
obrigado, para me defender, a atirar  figura.
	-	E tu nunca falhas! Raynaud  largo de ombros e tu s 
delgado como uma vespa. Bonito!
	-	 possvel que o meu adversrio dispare bem. Ralph Evans 
parece ser um atirador de primeira categoria.
	-	Mas no  com ele que te vais bater.
	-	 raro que o companheiro de um bom atirador no seja tambm 
um bom atirador. Tu e La Brde so excelentes atiradores... Evans pode 
ter ensinado Raynaud a disparar, na Amrica... Mas isso no me 
preocupa... pelo contrrio!
	-	Vais abat-lo como a um pombo!
	A conversa foi interrompida pela entrada de um criado que foi 
dizer ao patro, em segredo, que o baro de Rocher desejava falar-lhe.
	-	Folentin! - exclamou o marqus. - Ele que entre. No ser 
de mais!
Dirigiu-se para a porta e abriu-a.
	-	Como?  hora do correio? Que lhe sucedeu? H fogo na Bolsa? 
Vem buscar-nos para irmos salvar os valores?
	-	No. Desejo falar-lhe a respeito do duelo que se prepara...
	Com um gesto apontou para as pistolas que se encontravam em cima 
da mesa.
	-	Pode falar - disse o marqus com ar trocista. - La Brde e 
Tremblay so as minhas testemunhas. Conhecem o caso...
	-	S sabem o que o marqus lhes disse.
	-	H ento outra coisa?
	-	 o que iremos ver, se no se ope.
	-	Oh! Oh! Que gravidade! Almaviva toma ares de Brtolo...
	Folentin franziu o sobrolho. O tom de Condottier desagradara-lhe 
desde o primeiro instante. Agora comeava a irrit-lo. Voltou-se para 
La Brde e Tremblay:
	-	Meus caros amigos, peo-lhes o favor de me deixarem a ss 
com o marqus durante uns momentos. Quero tratar de um assunto que 
exige uma grande discrio...
	-	Vo fumar um charuto para ojardim - disse o marqus
empurrando para os amigos uma caixa de havanos. - Vou ter
convosco dentro de momentos. - Voltou-se para Folentin
e indicando-lhe uma cadeira: - Sente-se, meu caro, e diga o que o traz 
aqui.
	Folentin tomou uma atitude imponente e, fitando Condottier com 
severidade:
	-	Marqus, pode afirmar-me que no  por causa da minha 
mulher que vai bater-se com o senhor Raynaud?
	Condottier teve um gesto de aborrecimento e olhando para Folentin 
com uma certa tristeza:
	-	Que diabo de pergunta me vem fazer e em que  que isso lhe 
importa?
	-	Importa-me muito!
	-	Ento  novidade.
	-	Novidade ou no, peo-lhe que me responda.
	-	Visto que fala assim, no tenho qualquer razo para no o 
satisfazer.  com efeito certo que  por causa da baronesa que o 
senhor Raynaud e eu estamos em desacordo.
	-	E porqu? Pode dizer-mo, por favor?
A fisionomia do marqus exprimiu o mais vivo assombro.
	-	Porqu? Pergunta-me seriamente porqu?
	-	Pois bem, meu caro - continuou o marqus com tranquilidade. 
- Porque ambos a amamos!
	-	E  a mim - exclamou Folentin - que ousa fazer tal 
confisso?
	-	Fi-la tantas vezes  sua mulher que j no sei sob que 
forma lha hei-de repetir. Mas se quer encarregar-se de lho transmitir,
ficar-lhe-ei agradecido.
	-	Zomba de mim?
	-	De modo algum - respondeu Condottier com sangue-frio. - Amo 
a sua mulher como amava Rose Prvinquires. Sempre a amei, bem o sabe. 
E quando ma roubou, h trs anos, no o ignorava. Ento de que se 
espanta agora?
	-	Ah! A situao no  a mesma.
	-	Sem dvida - respondeu o marqus com amargura -; aquela que 
eu amava tornou-se sua mulher. Casou com ela por vaidade, para me 
suplantar, para se mostrar glorioso, sem querer saber se me causava 
desgosto. Nesse dia traiu-me vilmente, pois eu depositara confiana em 
si, encarregando-o de defender a minha causa. E como se desempenhou 
dessa misso? Ser preciso recordar-lho? A sua vaidade aliou-se  
ambio da menina Prvinquires, e em vez de falarem das minhas 
pretenses, durante uma hora de conversa que me pareceu interminvel, 
no pensaram seno em conciliar as vossas ambies. Ambos queriam 
brilhar. O baro dava-lhe uma grande fortuna. Ela, bem o sabe, levava 
para o casamento a sua graa sedutora e a vontade firme de se tornar 
uma das rainhas da moda. E num instante, preparados para a conquista, 
puseram-me de lado, ela, abandonando-me depois de tantas esperanas 
permitidas, e o baro, traindo-me, visto eu ter-lhe confiado a minha 
felicidade. E hoje manifesta o seu espanto quando lhe declaro, com 
franqueza, que nunca deixei de amar a sua mulher. Acha que eu tenha 
dado o meu corao como presente de casamento? Ele j no me pertencia 
e por Rose ser a baronesa de Folentin, em vez de ser a marquesa de 
Condottier, teria eu poder para impedir esse corao de continuar a 
bater? As suas exigncias, fique sabendo, passam todos os limites. E 
se eu no estivesse decidido a rir, como sempre fiz, poderia por fim 
manifestar-lhe uma certa m disposio.
	Folentin, perplexo, fez um esforo para recuperar o aprumo.
	-	Nada disso desculpa - disse ele - que queira comprometer a 
minha mulher numa questo que se vai tornar pblica.
	-	Oh, mas tudo o que ela tem feito, desde h trs anos, no 
tem sido pblico? Falam da sua mulher nos jornais e em todas as 
revistas mundanas. Ela pertence  publicidade porque sempre quis 
chamar as atenes para ela, o mais que lhe foi possvel. A respeito 
de bailes, de corridas, de exposies, de representaes, sempre e em 
toda a parte, a propsito de tudo, se fala dela. Pois bem, falaro uma 
vez mais.  preciso pagar a glria. E quando se  favorito do reclame 
 ingratido fugir no momento mais interessante.
	-	Ah! Vejo bem o que quer! - exclamou Folentin. Quer 
comprometer publicamente Rose para a separar de mim.
	-	Separ-la de si! Est a zombar, certamente. H muito que 
isso  uma realidade. Uma mulher to inteligente como ela no levou 
muito tempo a aperceber-se do valor de um homem como o senhor. No se 
incomode, Folentin; h muito que ela no se preocupa consigo.
	-	E ento por que motivo se d o duelo? - perguntou Folentin, 
tentando recuperar o autodomnio.
	-	Ah!, meu caro. Nada lhe esconderei. Trabalho s claras. 
Poderia pagar-lhe da mesma moeda e portar-me como um hipcrita. Mas 
no  o meu gnero. Quer saber de que lado sopram os ventos? Para os 
lados do senhor Raynaud, muito simplesmente.
	-	Para o senhor Raynaud? - repetiu Folentin, assombrado.
	-	Mas onde tem estado metido? - disse o marqus. No sabe que 
o antigo empregado de Prvinquires est apaixonado pela sua mulher? 
Ele  como eu, amou-a sempre.
	Calou-se, olhando com pena para o banqueiro:
	-	Sinceramente, Folentin, voc aflige-me. Parece nunca ter 
percebido isso! Mas para que diabo lhe servem ento os olhos? Com 
certeza que no passa a vida a ver-se aos espelhos para ver como  
belo, espirituoso e bem vestido. Ainda lhe restam algumas horas, fora 
dessas ocupaes lisonjeiras, para ver o que se passa  sua volta. E 
chega  vspera do desenlace, perguntando qual  a intriga da pea? 
Realmente, Folentin, passa por ser um esprito forte e  inocente como 
uma criana acabada de nascer.
	-	Raynaud e voc! - repetiu Folentin. - Sobre voc sabia, 
sim, mas no o receava...
	-	Obrigado!
	-	Mas Raynaud!
	-	Sim, Raynaud. Oh, esse no gosta de flirts.  sincero. Ama, 
nada mais. Se o perigo fosse apenas da parte dele, podamos dormir 
descansados. Mas h a sua mulher. E a a situao altera-se.
	-	Ela ama-o?
	-	Pergunto-lhe a si. Ela  to caprichosa e verstil que 
podemos hesitar. Mas os sintomas so terrveis. Ela teve uma maneira 
de se lanar nos braos dele, outro dia, quando ele chegou a minha 
casa... Folentin, isso  bem mais ameaador para a sua dignidade 
conjugal que todas as minhas tentativas, de resto, falhadas. No me 
envaideo tentando ocultar-lho... Raynaud  o adversrio temvel. E  
por esse motivo, e no por qualquer outro, que hoje me vou bater com 
ele. Foi isso que veio perguntar-me, creio. Est portanto esclarecido, 
to esclarecido quanto possvel.
	Folentin permaneceu um momento absorto nas suas reflexes, que 
no eram certamente risonhas. Depois, erguendo a cabea:
	-	Estava fechado com a minha mulher quando Raynaud chegou a 
sua casa. Ele viu isso?
	-	Meteu mesmo a porta dentro, para entrar.
	-	Assim, aos olhos dele, a ofensa que o senhor me fez no 
oferece dvidas?
	-	Oh!  nisso que pensa? - exclamou Condottier, rindo. - 
Sempre o mesmo. No momento em que a casa est a arder pergunta se no 
precisaro de ser substituidos alguns azulejos! Vai zangar-se comigo 
quando eu trato de me desembaraar do homem que mais lhe faz mal?
	-	No  por mim que o faz!
	-	No queria mais nada, meu amigo. No, eu fao-o por mim e a 
fundo. Odeio esse Raynaud, que  o contrrio do que eu sou, e que 
tambm me odeia, sinto-o. Esteja tranquilo, Folentin. A liquidao, 
como dizem na Bolsa, vai fazer-se sem que tenha de se meter no 
assunto. Quando souber do desaparecimento de Raynaud ou do meu, agir 
como quiser, ou, melhor, como puder. Nesse momento, com a sua mulher  
que ter de contar. E ter de se acautelar.
	-	Que prepara ela? E que quer ela?
	-	O que quer, de momento,  impedir o duelo entre Raynaud e 
eu. Confessa que foi ela que o mandou aqui?
	-	Sim.
	-	Est a ver. A diplomacia dela, sendo hostil, nem por isso  
menos clara. Teve certamente a vaga esperana que de uma explicao 
entre mim e si sasse uma disputa que desviasse sobre si o perigo que 
corre o favorito dela...
	-	O qu?!
	-	Espere! A situao tornava-se ento muito simples. Ou eu 
vencia e podia bem suceder que ela ficasse viva. E ento, livre de 
mim, assassino daquele cujo nome ela usava (o luto devia-lhe ficar 
bem,  loura), podia  vontade casar com o seu Raynaud, ao fim de um 
ano... Ou ento (um azar, nunca se sabe) o senhor fazia-me morder o p 
e cheia de horror por quem vertera o meu sangue, ela deix-lo-ia para 
sempre. E um bom divrcio dar-lhe-ia o mesmo resultado...
	-	Ela, pensar em casar com Raynaud?
	-	Mas ela no pensa noutra coisa. E como no seria assim? Ele 
tem tudo de heri de romance, esse rapaz.  um ser nobre, 
desinteressado, generoso e prodigiosamente milionrio. Mas ento no 
conhece os autores? Raynaud  um Monte Cristo de um novo gnero. Como 
poderia ela no desejar seguir um homem que espalhar ouro debaixo dos 
seus ps? Quem  voc, Folentin, ao lado desse nababo? E quem sou eu?
	-	Oh! Ela iludiu-me completamente! - disse Folentin com ar 
triste. - Eu no desconfiava de coisa alguma. Rose mostrava 
indiferena por esse rapaz. Era obrigado a pedir-lhe que o recebesse 
com mais amabilidade. Receava que ela prejudicasse os meus negcios.
	-	Ento! Ento! - exclamou Condottier. - Estou contente com 
ela. Trabalhou bem. Que tem andado voc a fazer? Eu bem lhe disse, 
outrora, que voc no tinha fora e que fazia melhor se ficasse 
solteiro. Mas voc assim o quis, Folentin. Agora arranje-se com essa 
amvel pessoa. A mim parece-me claramente que perdi a partida. Vou 
tentar livr-lo desse Raynaud e  o melhor servio que lhe posso 
prestar.
	Folentin agitou-se e depois de uma breve hesitao:
	-	D-me tempo para falar com Raynaud. Eu  que devo tratar 
com ele...
	Condottier corou ao ouvir essa proposta. O seu rosto exprimiu um 
orgulho que lhe embelezou as feies. Endireitou-se:
	-	Pensa isso? S lhe contei todas estas coisas por um 
recontro entre mim e Raynaud ser inevitvel. Por quem me
toma? Ele ofendeu-me. Fui eu que o provoquei. E ia agora ceder-lhe o 
meu lugar? Pude muitas vezes ser leviano, imprudente, mas quando a 
minha honra est comprometida nunca transigi com as mais rigorosas 
regras do dever. As coisas seguiro o seu curso. Depois disso  
consigo procurar as satisfaes que desejar.
	-	Muito bem -, retorquiu Folentin. - Nada mais tenho a fazer 
aqui. At  vista, marqus.
	Condottier comeou a rir.
	-	Obrigado por essas boas palavras! Acho-as um pouco 
egostas. No importa, aceito-as como um desejo do corao. At  
vista, Folentin. E, sabe, prefiro a minha sorte  sua. Eu, ao meio-dia 
e um quarto saberei o que tenho a saber sobre o modo como Raynaud 
dispara uma bala. Mas voc... emfim!
	Folentin abanou a cabea com ar indeciso e, saudando o marqus, 
sem lhe apertar a mo, afastou-se. Condottier encolheu os ombros com 
desprezo e, abrindo a porta que dava para o jardim, chamou os seus 
amigos.
	-	Folentin j se foi embora? - perguntou La Brde.
	-	Sim, e ns vamos fazer outro tanto. So onze e meia. S 
temos o tempo preciso para chegar a Villebon. Peguem nos utenslios.
	-	Vamos!

	Enquanto esperava Folentin, Rose era devorada pela impacincia. 
Arquitectara, naquelas duas horas, os projectos mais diversos e mais 
opostos. Sucessivamente, e com tanta dor como vergonha, imaginara a 
morte de Raynaud, a de Condottier e a de Folentin. Depois dissera para 
consigo que s muito raramente os duelos tinham um desenlace fatal e 
imaginara um ferimento. Mas um ferimento era tambm terrvel. E com o 
corao apertado julgava ver Raynaud, plido e ensanguentado, descendo 
da carruagem amparado por Evans e Prvinquires. No via assim, dignos 
de uma terna piedade, nem Condottier, nem Folentin. S pensava em 
Raynaud para o lamentar. S ele lhe interessava, pois por causa dela 
corria perigo. Condottier adivinhara aquilo que Rose nem a si prpria 
confessava. E se forara o marido a ir a casa do marqus, era na 
esperana de impedir Raynaud de se bater com Condottier. Calcularia 
ela que da conversa entre Folentin e o marqus podiam surgir 
desentendimentos to graves que outra disputa parecesse mais 
importante? No, sem dvida. Mas, instintivamente, empurrava o marido 
para a frente.
	De sbito estremeceu. Ouvira na sala vizinha os passos de 
Folentin. Empalideceu e o seu corao quase parou. Folentin entrou com 
ar aborrecido e parecendo no se aperceber da emoo da mulher. 
Atravessou o quarto de toilette e foi encostar-se  chamin, parecendo 
pouco disposto a explicar-se. Foi ela que, achando o silncio 
intolervel, comeou a interrog-lo:
	-	Ento? Viu o marqus de Condottier?
	-	Acabo de o deixar.
	-	Que resultou da vossa conversa?
	-	A certeza, para os dois, de que as suas preocupaes vo 
todas para Raynaud e que talvez no ficasse muito aborrecida se eu e 
Condottier nos degolssemos mutuamente.
	Rose corou. Teve, nesse momento, a revelao muito ntida do 
obscuro mbil a que obedecera. Baixou a cabea, receando revelar 
alguma coisa com o olhar. Depois, com voz trmula:
	-	Afinal deixou que as coisas continuassem como estavam.
	-	Foi sobretudo Condottier que assim o quis. No lhe escondo 
que ele est muito ressentido com o seu adversrio.
	-	E acha muito natural que um estranho pague uma dvida que o 
senhor contraiu.
	-	Minha cara, Raynaud paga, nesta ocasio, apenas por si 
prprio. Sabe-o muito bem.
	-	Mas no ignora que foi para defender a sua mulher que ele 
se tornou inimigo.
	-	O que no ignoro  que esses dois homens disputam o seu 
corao, que apenas devia, com toda a honestidade, pertencer a mim. E 
o espectculo da batalha deles, confesso-o, causa-me um alarme 
medocre. O papel que eu represento em tudo isto, por sua culpa, no  
dos mais vantajosos. Mas fique sabendo que no o vai piorar  sua 
vontade. No faltava mais nada que eu me arriscasse a morrer para ser 
agradvel  minha mulher, que me detesta. No, minha cara, meteu 
Condottier e Raynaud ao barulho. Eles que continuem assim!...
	Voltou-se e olhou o relgio ao qual se encontrava encostado:
	-	 meio-dia. Eles esto em campo. E afiano-lhe que 
Condottier no est de bom humor.
	Rose empalideceu, as suas mos agitaram-se nervosamente no meio 
das rendas do penteador; balbuciou:
	-	Sente um prazer cobarde em me torturar com o perigo que 
correm esses dois homens.
	Ele precisou:
	-	Com o perigo que corre um desses homens. Condottier abriu-
me os olhos e agora sei com o que contar em relao aos seus 
verdadeiros sentimentos. Fui bem "enrolado" por si, eu que tinha a 
pretenso de nunca o ser. Ah, sim, enrolou Folentin como a um ingnuo. 
Mas pacincia!
	Rose percebeu no rosto do marido que ele tinha esperanas numa 
catstrofe. O corao no o pde suportar por mais tempo e ela 
levantou-se bruscamente.
	-	Senhor, estou aqui nos meus aposentos e tenho o direito, 
creio, de estar s. No lhe escondo que a sua presena me  
insuportvel. Se os seus desejos so atrozes, poupe-me ao menos o 
desgosto de os ouvir.
	Folentin sorriu, constrangido:
	-	Muito bem. Prezo muito a minha liberdade para querer 
coarctar a sua.
	Inclinou ligeiramente a cabea e saiu. Rose deixou-se cair sobre 
o canap e entregou-se ao triste prazer de deixar correr as lgrimas. 
A brutal secura de Folentin acabava de destruir as suas derradeiras 
iluses. Da sua unio, feita sob to brilhantes auspcios, restavam 
apenas as perturbadoras decepes, queixas amargas e mortais 
desentendimentos. J no existia qualquer acordo entre eles. Ligados 
pelos mesmos contratos, os mesmos deveres, tornava-se-lhes impossvel 
viverem um com o outro sem se exporem a um suplcio de todos os 
instantes. Em trs anos aquele casamento triunfal dera naquilo. E Rose 
nem sequer tinha o recurso, na sua infelicidade, de atribuir a outros 
a responsabilidade do seu infortnio. Fora ela quem tudo fizera.
	No podia dizer: sacrificaram-me, eu nada sabia. Fora com pleno 
conhecimento de causa, deliberadamente, e com um grande orgulho que 
essa unio se fizera. Ela combinara-a, preparara-a com arte. E esse 
homem baixo e gordo, frio, brutal, egosta, que acabara de sair dali, 
deixando-a gelada pela sua irnica indiferena, fora ela que o 
escolhera e que o atraira com a mais sbia garridice.
	Ao lembrar-se dessas coisas, Rose tinha a impresso de estar a 
viver um pesadelo. O qu! Ela, a conquistadora, a que todos gabavam a 
inteligncia, que seu pai citava pelas ideias precisas e claras, que o 
padrinho elogiava pela distino do seu esprito, ela pudera, um s 
momento que fosse, enganar-se sobre o valor desse Folentin e 
considerar como uma grande felicidade pertencer-lhe. Sentia-se 
humilhada com isso, como de uma degradao. Depois de ter agido to 
loucamente, no agiria agora ao contrrio do senso comum, afastando-se 
dele? Onde estava a razo? E quem saberia ilumin-la sobre o seu 
prprio destino? Raynaud desaconselhara-lhe a ruptura. E, no entanto, 
ficar junto de Folentin, viver com ele, suport-lo a todas as horas do 
dia, ser-lhe-ia impossvel. Via ainda na sua frente o rosto balofo e 
mau do marido, mostrando-lhe num tom trocista os riscos que Raynaud 
corria. A voz seca dele fazia-lhe mal aos nervos. Achava-o atroz. O 
gentleman impecvel, o homem de negcios superior, o homem cheio de 
experincia da vida, transformava-se a seus olhos numa pessoa vil, 
calculista, lucrando com os empreendimentos dos outros e 
irremissivelmente vulgar. Tomou-lhe horror e formou a respeito dele, 
nessa hora de angstia em que se jogava uma partida to decisiva, uma 
opinio imutvel.
	Rose foi distrada dos seus pensamentos pela entrada da sua 
criada de quarto, que lhe disse:
-	Senhora, o senhor Maurice est aqui.
	Rose levantou-se de um salto, adivinhando que o irmo lhe trazia 
notcias, e gritou sem se preocupar com o que a rapariga poderia 
pensar:
	-	Maurice! Entra!
	Dirigiu-se para ele, apertando-lhe as duas mos como se as 
quisesse partir, com o olhar desvairado.
	-	Ento?
	-	Tranquiliza-te. No sucedeu grande mal.
	Rose empalideceu e apoiando-se no ombro do irmo:
	-	Quem foi?
	-	Raynaud est ferido... Mas no gravemente...
	-	Enganas-me! Est morto!
	-	Juro-te que no.
	-	Onde est ele?
	-	No hotel.
	-	Vou l.
	-	s louca.
	-	Fui l ontem  noite.
	-	Tu?
	-	Sim, eu. V, Maurice, tu acompanhas-me. Vou-me vestir.  s 
enfiar um vestido...
	-	No, no! - disse o irmo. - Fazes favor de te acalmar. 
Juro-te que Raynaud no corre qualquer perigo...
	-	Oh, esse miservel Condottier. Ele no sofreu nada!
	Deixou-se cair sobre o canap, escondendo o rosto nas mos e 
comeou a chorar.
	-	V, Rose, no ests a ser razovel. Foi Evans que me enviou 
para te tranquilizar. Se tivesse previsto o resultado que obtive, no 
o teria feito... Fazes o favor de ficar calma, juro-te que Raynaud 
ficar bom com trs semanas de repouso... tem uma bala no ombro.
	-	Oh, meu Deus! Pobre rapaz! Ficou com o ombro partido?
	-	No. Pommier, que tambm o acompanhou, j lha extraiu. 
Devia t-la trazido para te convencer... Estava em cima da mesa, em 
Villebon...
	-	Tem muitas dores? - perguntou Rose, convencida pela 
preciso dos pormenores que o irmo lhe fornecia.
	-	Por favor! No pensas com certeza que seja uma sensao 
muito agradvel.
	Rose apertou as mos uma na outra e com os olhos brilhantes 
perguntou:
	-	E como  que ele no conseguiu acertar em Condottier?
	-	Ah! Tornas-te feroz, palavra! Julgas que  muito fcil 
acertar numa pessoa a trinta passos.  preciso o hbito e a destreza 
desse espadachim, que  Condottier, para conseguir tal resultado. 
Tanto mais que foi Evans que deu o sinal e f-lo como deve ser. 
Condottier atira maravilhosamente, tem de se lhe fazer essa justia.
	-	Um assassino! Mas afinal tu assististe ao duelo?
	-	Sim. O pap levou-me para o substituir no caso de ele se 
sentir mal no ltimo momento.
	-	Pobre pai. Temia por Raynaud.
	-	Claro que sim, mas temia quase o mesmo por Condottier. A 
ideia de que um deles pudesse ficar estendido no terreno perturbava-o. 
Quando viu a camisa de Raynaud suja de sangue ficou to plido que
dir-se-ia ser ele o ferido...
	-	E Raynaud?
	-	Bem, Raynaud nada dizia. Manteve-se perfeitamente firme. 
Nem sequer quis que Evans o amparasse para se dirigir  casa onde 
Pommier o tratou... E no entanto tinha o ombro perfurado... Pommier 
tirou-lhe a bala pelas costas, junto da omoplata, com um bocado da 
camisa e um fragmento do casaco.
	-	Que horror!... E depois?
	-	Depois Evans disse-me: "Pegue no meu automvel e v dizer o 
resultado  sua irm, que deve estar atormentada..."
	-	E eles, como voltaram?
	-	No landau do pap.
	-	E Raynaud encontra-se agora no hotel?
	-	Deve l estar.
	-	Levas-me l, sim?
	-	No,  impossvel! Pensa um pouco. Deves estar tranquila. 
Que diria o teu marido?
	-	Isso -me indiferente. No penses que vou ficar com esse 
feroz imbecil. Ser-me-ia impossvel olhar para ele, percebes? Ele no 
receava, como o pap, ver os dois adversrios estendidos... Ah, se 
dependesse dele que eles se matassem um ao outro!
	-	Minha querida, no tenho conselhos a dar-te. Reflecte. Mas 
neste momento  inadmissvel que vs ver Raynaud. Tem cuidado com 
Folentin. Deve estar exasperado e  capaz de te preparar uma 
armadilha.
	-	Ento quero ir para casa do nosso pai.
	-	Ah, isso  outra coisa. O carro est  porta. Espero por ti 
e levar-te-ei at l.
	Maurice descrevera exactamente o estado psquico em que se 
encontrava seu pai no momento em que sara da torre em Villebon. Mas 
no podia prever a reaco que a segurana reencontrada iria produzir 
sobre os nervos desse bom homem assustado. O irmo e a irm foram 
encontrar o pai na sua sala em companhia da mulher e de Duburle, 
andando de um lado para o outro com grandes passadas e falando em voz 
alta, num tom violento. Os seus dois ouvintes no o interrompiam. 
Estupefactos com o estado de exaltao em que o viam, deixavam-no dar 
largas  sua emoo falando tumultuosamente, recomeando pela terceira 
vez a narrativa, com novos pormenores, quando Rose e Maurice chegaram.
	-	Oh, minha filha! - exclamou Prvinquires erguendo os 
braos com ar trgico. - Oh minha pobre filha! - Apertou-a contra o 
peito como se acabasse de escapar ao mais grave perigo. Mas dessa vez, 
tendo que falar com uma pessoa mais agitada do que ele, limitou-se a 
responder copiosamente s perguntas que Rose lhe fazia.
	-	Sim, trouxemo-lo e deitmo-lo como uma criana... Evans 
est junto dele... Vai tudo bem. Ele nem sequer tem febre... Que 
firmeza de carcter! E que coragem! Nem vacilou diante da pistola. E 
eu, quando lhe entreguei a arma, tremia como varas verdes... Estava 
mais morto que vivo. Foi ele que me confortou, sorridente, to 
tranquilo como se estivesse no meu salo... Ah! Meus amigos, um duelo 
 uma coisa terrvel para as testemunhas!
	-	Ele encarregou-te de algum recado para mim?
	-	Sim. Pediu-me para te dizer que no te atormentasses por 
sua causa.
	-	E depois?
	-	E depois... mais nada!... Ah! Que te iria ver logo que 
pudesse sair...
	-	Conto com isso. Mas sou eu que vou v-lo primeiro...
	-	 proibido!
	-	Por quem?
	-	Pelo mdico, por toda a gente...
	-	Mesmo para ti?
	-	Oh, para mim...
	-	Escuta, paizinho. Iremos juntos. Eu no entrarei no quarto 
dele, mas ouvirei a sua voz e perceberei se no me esto a enganar, se 
ele est to bem como dizem... E conversarei com o senhor Evans. Ns 
temos necessidade de nos explicar.
	-	Rose - disse Prvinquires -, peo-te instantemente que no 
insistas... Encontras-te num momento crtico... Depende de ti que as 
dificuldades mais graves se aplanem, sabes que tenho a maior confiana 
na tua razo... A tua me e o teu padrinho te diro, como eu, que  
preciso muita prudncia neste momento... O teu marido...
	-	 um miservel - exclamou Rose com frenesim. No o 
conhecem. Revelou-se nos ltimos dois dias de tal maneira atroz que 
no posso nem v-lo.
	-	Ento! Ento! - disse Duburle com bonomia - no exageremos. 
Folentin no  hoje mais miservel do que era ontem um anjo.  aquilo 
que pode ser no meio dos acontecimentos que acabam de se produzir.
	-	Ele foi o causador de tudo o que sucedeu. Foi a sua 
ganncia de homem de negcios que levou Raynaud a entrar em contacto 
com Condottier. Foi ele que... no podem saber tudo quanto ele fez. 
Esta manh no ocultou que ficaria satisfeito se visse os dois 
adversrios matarem-se um ao outro...
	-	Oh! Oh!
	-	Sim,  assim mesmo. Alm disso, declaro-lhes que no 
voltarei atrs com estas palavras e que no quero voltar mais para 
junto dele...
	-	O qu? Pensas em deix-lo? - exclamou a Sra. Prvinquires 
com emoo. - Mas que vo pensar de ti?
	-	Pouco me importa. At aqui preocupei-me de mais com as 
opinies dos outros. Se no tivesse sacrificado tudo para impressionar 
os outros, talvez no estivssemos nesta situao.
	-	Confesso - disse Prvinquires - que o teu casamento, que 
parecia reunir todas as convenincias, no resultou como eu esperava. 
Mas da a deixar Folentin...
	-	Ele -me odioso!
	-	Se todas as mulheres a quem os maridos desagradam sassem 
das suas casas, s se veriam lares desfeitos!
	-	As outras faro o que quiserem. Eu s levarei em conta os 
meus sentimentos.
	-	Mas, minha filha, as pessoas...
	-	Mas, minha me, a minha tranquilidade...
	-	Folentin no  mau rapaz, poderia emendar-se.
	-	 um ser nulo para o bem, muito dotado para o mal. E que, 
por vaidade, seria capaz de tudo... De qualquer maneira no quero 
voltar a v-lo... Depois da troca de palavras que houve entre ns, 
nada mais poder haver de comum entre ele e mim.
	-Ento... o divrcio?
	Fez-se silncio. Naquele meio catlico, burgus e severo, a 
palavra soava mal. A Sra. Prvinquires repetiu:
	-	O divrcio! Para ti, minha filha? Que diria o nosso caro 
vigrio-geral?
	-	Oh! No ser ele que ter de suportar o peso dos meus 
aborrecimentos - exclamou Rose com revolta. - Sempre a opinio dos 
outros! O vigrio-geral poder no gostar, mas eu recuperarei a minha 
liberdade. O divrcio  uma coisa terrvel, minha me, concordo 
consigo. Mas quando existe incompatibilidade de feitios entre os 
cnjuges e eles no tm filhos para os prender ao lar, o divrcio  
tutelar. Parece ter sido feito para o meu caso. Para mim s apresenta 
vantagens e no inconvenientes!
	-	Sabes, minha querida filha, como sou liberal - disse 
Prvinquires -, e no te falarei, como a tua me, das obrigaes 
sociais, dos escrpulos religiosos, nem sequer dos efeitos deplorveis 
que pode ter na sociedade em que vivemos, mas vejamos a questo pelo 
seu lado prtico. Para onde tencionas ir depois de sares da casa do 
teu marido?
	-	Para o nico stio em que poderei estar ao abrigo de 
qualquer suspeita: para casa do meu pai.
	-	A casa est aberta para ti, desnecessrio ser diz-lo. Mas 
reflecte bem nas consequncias dessa determinao...
	-	J reflecti! Se gostam de mim, meus queridos pais, no me 
atormentem mais. Sou muito infeliz...
	A sua voz quebrou-se e ela comeou a chorar. Ao ver isso Duburle 
levantou-se, fora de si, vermelho de indignao, o que espantou at a 
senhora Prvinquires.
	-	Como? Vo hesitar, quando esta pobre criana lhes pede 
ajuda? No gostam dela. Tenho pena de no poder eu receb-la e 
confort-la. Minha pequenina, o teu padrinho est a teu lado, ouves... 
Podes contar com ele para tudo, at para ir dar uns aoites a esse 
Folentin...
	-	Bom! - exclamou Prvinquires. - Eis pessoas srias, ou que 
deviam S-lO, que se pem a divagar. Que  isto? Duburle, faa-me o 
obsquio de se manter tranquilo e de no excitar essa criana, que 
precisa de ser acalmada... No a abandonamos, claro, mas, no entanto, 
no podemos agir levianamente. Vou falar com Folentin, conversar com 
ele. Caramba, no podemos esquecer que ele tem o dote!
	-	Deixe- ficar com ele e que em troca me deixe em paz.
	-	Falas bem! Oitocentos mil francos! E ele seria capaz de 
aceitar imediatamente!
	- Vs, pap? No tens melhor opinio do que eu a respeito dele.
	-	Nos negcios  um rapaz muito seguro. Mas encontrar quem 
lhe faa frente.
	-	Quer que eu o acompanhe? - perguntou Duburle.
	-	No! Quero falar com ele a ss. Nessas condies pode-se 
dizer tudo e o amor-prprio no sofrer.
	Prvinquires olhou para a filha, abanou a cabea e pousando os 
lbios sobre os belos cabelos louros murmurou:
	-	Pobre pequena! A felicidade estava ao alcance da tua mo, 
h trs anos. Creio ter sido eu o nico a ver isso. Agora est 
perdida!
	Rose respondeu em voz muito baixa, sorrindo-lhe:
	-	E se pudssemos reencontr-la?



Capi'tulo d'cimo primeiro

	-	Meu caro sogro - disse Folentin com ar afectado -,
permita-me que me espante da diligncia que vem fazer...
	-	E eu, meu caro, permita-me que me mostre surpreendido pela 
maneira como me recebe.
	Sentados em frente um do outro, no gabinete de Folentin, os dois 
homens olharam-se por um instante em silncio. O rudo dos escritrios 
em plena actividade chegava at eles abafado. Na sua casa bancria 
Folentin sentia-se verdadeiramente senhor de si. Era ali que ele 
exercia um poder que no podia ser contestado. Fez um gesto vago com a 
mo.
	-	Compreende perfeitamente que no posso receber com 
tranquilidade o anncio da ruptura de todas as relaes com a minha 
mulher e a partida dela de minha casa...  um grande golpe para o meu 
corao e ao mesmo tempo um grave atentado  minha situao...
	-	Ah, peo-lhe, no misturemos as questes de negcio com os 
sentimentos.
	-	No entanto,  preciso faz-lo...
	-	 uma maneira de me indicar que, sob certas condies, 
devolver a liberdade  minha filha?
	-	Por quem me toma? Como? Consentir num divrcio? No, no! A 
minha mulher no tem razo de queixa contra mim e eu tambm no tenho 
razes graves contra ela... Consentirei em esquec-las, desde que ela 
volte at  noite, ao domiclio conjugal...
	-	Ela no voltar.
	-	Ento acharjusto que eu tome as minhas providncias e faa 
constar o seu desaparecimento...
	-	O qu? O comissrio da Polcia, Folentin?
	-	Oh! O ridculo no perder tempo a atingir-me. E como sabe, 
em Frana h um provrbio que diz que o ridculo mata.
	-	Ah! Se todos os que fossem atingidos pelo ridculo 
morressem! Que despovoamento! Mas um acto de rigor no modificar a 
opinio a seu favor.
	-	Pelo menos no terei o ar de ser batido e ficar contente!
	-	A minha filha  irrepreensvel!
	-	O senhor  que o diz. Mas Condottier no se importa nada de 
contar...
	-	Calnias!
	-	No sei!
	-	E pensando assim, quer que a sua mulher volte para junto de 
si?
	-	Seria provar-me que Condottier mente.
	-	Bela prova! E contentar-se-ia com ela?
	-	Na infelicidade no se pode ser exigente.
	-	 a sua ltima palavra?
	-	Foi a primeira e ser a ltima.
	-	Voc  intratvel.
	-	Sou sobretudo maltratado.
	-	Folentin, tenha cuidado. O senhor  que quer iniciar as 
hostilidades.
	-	Como? A minha mulher no se passou j para o inimigo?
	-	E quem  o inimigo?
	-	Todos que no seja eu.
	-	Mais umas palavras e peo-lhe que seja franco. Qual  a sua 
ideia?
	-	 no ser posto de lado como um objecto que deixou de 
agradar, e ser substitudo por outro objecto mais brilhante e mais 
luxuoso. No quero ficar nessa situao. A sua filha  miinha mulher 
e, quer queira, quer no, continuar a s-lo... De qualquer modo no 
ser marquesa de Condottier nem...
	-	Ah! Se  isso que receia...
	-	Isso, ou outra coisa! Enfim, sei o que digo. Ela quer 
divorciar-se para se voltar a casar. E  isso que no admito. Quero 
deix-la, mas no ser abandonado por ela!
	-	Ah! Ento  isso o que lhe importa!
	-	Exactamente! A sua filha no se rir de mim com outro 
marido, depois de me ter ridicularizado, escarnecido e achincalhado! 
Quis "enrolar-me". Aprender  sua custa que no se "enrola" Folentin.
	-	Folentin  que "enrola" os outros?
	-	Sim.
	-	Em que condies?
	-	Que me quer oferecer?
	-	Dinheiro.
	-	A mim?
	-	Assim  preciso, visto voc nada querer ceder 
gratuitamente. Ser uma maneira de triunfar como qualquer outra. Quer 
ficar com o dote e deixar a mulher?
	Folentin ergueu-se, soberbo de orgulho ferido:
	-	Como se atreve a fazer-me uma proposta to ofensiva? Julga-
me um Robert Macaire?
	-	Por minha f, meu caro, quej no sei por quem o deva 
tomar. Tudo o que vejo e ouo de h vinte e quatro horas para c 
perturba as minhas ideias. Eu sou da velha escola, quando ainda havia 
princpios e escrpulos. Vocs so uns arrivistas. No se embaraam 
com bagagens maadoras que do pelo nome de boa-f, delicadeza, 
generosidade. Vo direitos, sem olhar a meios, por qualquer caminho, 
mesmo que passe pela floresta de Bondy. Ento eu trato-o da mesma 
maneira, compreende. E visto que no me quer devolver a minha filha, 
ofereo-me para a resgatar. Isso no lhe serve ainda? H ento algo de 
mais vantajoso? Fale, Folentin, ponha as suas condies, diga o seu 
preo. No se sinta embaraado!
	-	Senhor - replicou Folentin num tom furioso -, h-de 
arrepender-se de me tratar com tanta falta de considerao.  meu 
sogro, devo-lhe respeito, alm disso, a sua idade... estou de mos 
amarradas! Felicite-se por isso.
	-	Felicito-me, Folentin -, disse Prvinquires com bonomia. - 
Mas aqui entre ns no me parece feroz como um tigre. Est bem 
contente por ter as mos atadas, como to nobremente diz. Pois bem, 
meu amigo, mantenha-se assim at ao momento em que quiser mudar de 
posio. Encontrar-me- sempre disposto a recomear a conversa.
	-	Nunca, senhor! Nunca!
	-	Nunca  uma palavra vazia de sentido, Folentin, tal como 
sempre. Prometeram, a minha filha e o senhor, viver sempre juntos. 
Est a ver o que valeu essa promessa. O seu nunca vale o mesmo.
	-	Veremos!
	-	Vamos! Uma ltima vez e com seriedade. Quer chegar a um 
acordo?
	-	No!
	-	Quer forar a minha filha a voltar para casa?
	-	Sim.
	-	Mesmo por intermdio do comissrio da Polcia?
	-	Se necessrio!
	-	Folentin, o que projecta  deselegante.
	-	Pouco me importa.
	-	Abre o caminho  violncia.
	-	Obrigam-me a isso
	-	Pela ltima vez, no quer devolver-me a minha filha? Com 
qualquer condio e preo?
	-	No! No! No!
	-	Muito bem! Ento ficarei com ela por nada.
	E sem mais uma palavra, deixando Folentin estupefacto, 
Prvinquires saiu do gabinete.
	Estendido na cama, um pouco plido mas muito calmo, Raynaud, 
nesse mesmo dia, conversava com Evans. O rude americano tratava do 
amigo com uma solicitude comovente. A sua figura tranquila, o seu 
lento modo de falar, toda a fora e confiana que emanava da sua 
pessoa reconfortavam Raynaud. Perante esse bom homem sorridente, 
sentia-se tranquilo.
	-	No o consegui impedir de disparar um tiro de pistola 
contra Condottier, tem de me fazer essa justia - disse Evans
-, embora no consiga compreender a utilidade desse combate. Cada vez 
a compreendo menos. Condottier, que o feriu, ter ficado melhor? Os 
seus negcios tero melhorado?
	-	So hbitos muito diferentes dos vossos... Mas Condottier 
sentia dio por mim.
	-	Ento devia t-lo morto. Como estava a dizer, esse 
ferimento nada altera as coisas. Ele queria livrar-se de um rival.  
uma ideia espantosa, pois em nenhum pas do mundo as pessoas se 
conseguem fazer amar pela fora. Mas enfim, era uma ideia. Era ento 
preciso realiz-la e disparar sobre si tantas balas quantas fossem 
necessrias. Por isso  que inventmos o revlver que dispara seis 
tiros. Mas em Frana disparam uma bala e quer haja resultado ou no, 
acabou-se. A honra fica satisfeita com esse vo simulacro.  ridculo, 
deixe-me dizer-lhe.
	-	Muito ridculo. Mas  impossvel no nos sacrificarmos aos 
hbitos e at mesmo aos preconceitos.
	Calaram-se. Ao fim de um instante, Evans perguntou:
	-	Tem dores?
	-	Poucas.  mais um entorpecimento do que dor.
	-	Tem sede?
	-	No. Julgo no ter febre.
	-	Daqui a oito dias estar a p. E ento que far?
	O rosto de Raynaud assombrou-se:
	-	Farei o que me aconselhou e que no fiz: regressarei a 
Chiquito e entregar-me-ei ao trabalho.
	-	Partir sozinho?
	-	Consigo.
	-	Comigo, claro, mas no levar mais ningum?
	-	A quem se refere?
	-	 baronesa de Rocher.
	-	Sabe bem que ela no  livre.
	-	E voc, meu amigo, sabe bem quais so os elos que a 
prendem. S a vontade os torna slidos. Mas quando a vontade deixa de 
existir, so de uma extrema fragilidade.
	-	 impossvel que aquela de que fala proceda com to pouco 
cuidado. Ela preocupa-se com a sua reputao, com a famlia, com o 
marido. Tudo a prendera...
	-	Oua, Raynaud, deve lembrar-se que eu tinha m opinio 
sobre a sua Rose e que achava que, a no ser que ela recebesse duras 
lies da vida e que as aproveitasse de modo inteligente, nada haveria 
a fazer de uma mulher que se mostrava to vaidosa e coquette. Pois 
bem, pergunto agora a mim prprio se as sacudidelas que tem suportado 
a tero modificado no bom sentido e se, hoje, no haver algo a tirar 
dela.
	-	 uma criatura maravilhosa e encantadora, Evans.  capaz de 
uma grande bondade e dedicao.
	-	 possvel! Mas em todo o caso ser preciso p-la  prova. 
Sabe bem que o ouro tem de ser analisado para se ver se  de bom 
quilate. Gostaria de submeter a sua Rose a um ltimo controlo...
	-	Tem assim tantas desconfianas, Evans?
	-	O mais desconfiado possvel. Imagine, meu caro, que vem a 
casar com essa mulher. Eu sou o seu companheiro na vida, o seu scio 
nos negcios. Se voc tivesse aborrecimentos, eu tambm teria a minha 
parte. Por isso quero tomar todas as precaues para que possamos ter 
um futuro tranquilo.
	-	Mas que receia dela?
	-	A sua ambio. Temos o direito de desconfiar que pro cede 
por ambio. Sabe porque  que ela casou com Folentin, no sabe? Foi 
atraida pela grande fortuna dele, pela posio. No ir fazer o mesmo?
	-	Depois do que me disse?
	-	Ah! As mulheres, Raynaud, as mulheres! O que elas dizem no 
tem valor. Meta na cabea que  actualmente um partido muito melhor 
que Folentin. Todos os milhes de Chiquito cintilam, hipnotizam. 
Raynaud, Raynaud, no recomecemos com os disparates!
	-	Mas que quer fazer? Certamente no me diz tudo isso apenas 
pelo prazer de falar. Deve ter um projecto.
	-	Sim, muito simples. Clssico mesmo.
	-	Qual ?
	-	No lho direi. Poderia atraioar-me.
	-	Eu?
	-	Sim, voc. Seria capaz de a prevenir que eu lhe preparo uma 
armadilha, para ela ter o cuidado de no cair nela.
	-	Dou-lhe a minha palavra de que no intervirei em coisa 
alguma e o deixarei proceder livremente.
	-	Muito bem.
	Evans era a pessoa menos sentimental que se poderia imaginar. 
Falou de outras coisas com Raynaud, depois de tratar do que lhe 
interessava. Dos negcios de Chiquito, do projecto de um navio-
cisterna que pensava encomendar, de algumas mquinas para partir o 
quartzo. No entanto, Raynaud voltou a falar do assunto que lhe 
interessava, propondo ao amigo arranjar um lugar para Maurice 
Prvinquires.
	-	Que  que ele sabe fazer? - perguntou Evans.
	-	No creio que saiba fazer grande coisa. Mas  filho de um 
homem que me ajudou e agora apresenta-se a ocasio de eu lhe poder 
retribuir essa ajuda.
	-	Muito bem. Mas ser preciso ensinar a esse rapaz a maneira 
de se tornar til, dar-lhe o gosto pelo trabalho. Prestar-lhe- assim 
um favor, moral e materialmente.
	-	Voc pensa em tudo, Evans.
	-	Na verdade, meu caro, nada seria mais fcil do que dar 
dinheiro a esse rapaz. Mas o importante  faz-lo compreender como  
bom ganh-lo. No dia em que ele tiver tomado gosto por uma tarefa, 
dizendo para consigo que ela  produtiva, ser um homem salvo da 
preguia.
	Foram interrompidos pela chegada de Prvinquires e de Rose. 
Enquanto o criado punha o quarto em ordem e fazia desaparecer todos os 
vestgios dos tratamentos, Evans dirigia-se para o salo para receber 
as visitas.
	-	V, meu caro - disse Prvinquires -, a minha filha 
insistiu comigo para que eu a trouxesse aqui... No creio que seja 
muito razovel... mas v l raciocinar com uma mulher, alm disso 
sendo essa mulher a minha filha... Como vai o nosso doente?
	-	No pode estar melhor. Dorme.
	Rose pareceu ficar extremamente decepcionada. Prvinquires teve 
pena dela.
	-	Ouve, tenho umas coisas a fazer para os lados de Neuilly. 
Levarei uma hora... Deixo-te com o senhor Evans. Virei buscar-te no 
regresso. Espero que entretanto o nosso dorminhoco acorde.
	A fisionomia dajovem tranquilizou-se. Sentou-sejunto da janela 
aberta sobre os Campos Elseos e ficou a ver as carruagens subirem e 
descerem a avenida num movimento incessante. Inclinando-se um pouco, 
poderia ver a casa onde vivera com Folentin e onde tencionava no mais 
voltar. Mas no era nisso que pensava. Via Raynaud na frente dela, 
naquela mesma sala onde se encontrava agora, na noite em que ali 
estivera, confessando-lhe que a amava. Com que doura ela ouvira as 
suas palavras. E que serenidade conservava, agora, no meio da crise 
terrvel que comeara para ela ao saber-se amada por aquele corao 
leal e dedicado. A voz de Evans perturbou os seus devaneios. Ergueu os 
olhos para o amigo fiel e olhou-o meigamente. Ele sorriu e disse num 
tom paternal:
	-	Sim, compreendo que quando olha para algum dessa maneira, 
esse algum fique sem saber o que h-de fazer. Mas eu sou um velho e, 
alm disso, uma espcie de selvagem. Assim, se quiser, vamos falar 
seriamente.
	-	Quero o que lhe agradar - respondeu Rose com um ar 
anglico.
	-	Bem, ento vou dizer-lhe duas palavras sobre a situao de 
Raynaud... Est com dores e na situao dele -me dificil explicar-me 
com ele... Mas sucederam coisas que no quero esconder de si.
	-	Porqu? - perguntou a jovem senhora.
	-	Porque talvez sejam de molde a modificar os seus 
projectos... No conheo as suas intenes, mas posso recear que d 
uma cabeada.  contra uma resoluo extrema que eu quero preveni-la.
	-	Mas que tem o senhor Raynaud a ver com tudo isso?
	-	Peo-lhe que me deixe falar francamente, talvez mesmo 
brutalmente, no interesse de todos. Sou um homem rude, como sabe. Digo 
tudo o que penso...
	-	Diga, diga, peo-lhe! - exclamou Rose, assustada com aquele 
prembulo.
	Pois bem, trouxe a Raynaud muito ms notcias da Amrica. No 
ignora que nos tnhamos lanado numa formidvel especulao, que 
pareceu ter xito de incio. Encontrmos porm concorrentes poderosos 
e sem escrpulos. Quisemos lutar e fomos vencidos. Uma grande parte da 
minha fortuna ficou comprometida. A de Raynaud perdeu-se totalmente.
	Rose fitou Evans com tranquilidade:
	-	 apenas isso?
	-	S isso! Milhes perdidos! Fala bem, mas a esperana do 
nosso futuro, um empreendimento admirvel est irremediavelmente 
perdido!
	-	Se ontem me tivesse dito:  preciso escolher entre as 
riquezas de Raynaud e a sua vida, pensa que eu teria hesitado? Que me 
importa que ele seja pobre, visto estar vivo? Se quer que lhe diga, 
prefiro que seja assim. Rico, fabulosamente rico como diziam que ele 
era, podiam pensar que eu estava a fazer uma especulao. Sem fortuna, 
s podero dizer que  por amor que abandonei tudo por ele.
	-	Est ento decidida a tudo abandonar?
	-	Sem remisso.
	-	Mas que faro os dois?
	-	Visto ele ser pobre, iremos viver para Beaumont, e ele 
voltar a ser o director da fbrica. Viveremos l todo o ano, muito 
contentes e felizes.
	-	Sem fortuna.
	-	Sem fortuna, no. O meu pai  rico. No deixar que nos 
falte coisa alguma.
	-	E no lamentar nada?
	-	Sim. No ter pensado assim h trs anos e de ter estragado 
to tristemente to belos dias.
	-	Oh! - exclamou Evans, cujo rosto se iluminou.  isso que 
pensa realmente?
	Rose olhou-o pensativamente durante uns momentos, sorriu e depois 
continuou:
	-	Meu caro senhor Evans, era desnecessrio empregar tantos 
desvios para saber o que penso. Bastaria ter-mo perguntado que eu
ter-lhe-ia dito a mesma coisa.
	-	Que quer dizer? - exclamou o americano, assombrado.
	-	Digo que a sua pequena malcia est cosida com linha 
branca, como costumamos dizer em Frana, e que se eu quisesse 
aproveit-la, bastaria ficar calada e nada mais acrescentar s 
palavras, absolutamente sinceras, de resto, que disse h pouco. Mas 
no acharia isso muito digno de mim. Estou curada de todas as minhas 
fraquezas passadas. Pode ter confiana em mim em relao a Raynaud, 
sem se dar ao trabalho de me fazer interrogatrios suplementares.
	Evans ficou muito srio.
	-	Ento no acreditou no que eu lhe disse quando lhe contei a 
falncia dos nossos negcios?
	-	No, no acreditei.
	-	No entanto  verdade.
	-	Insiste? Lamento-o ento por si, mas quanto a Raynaud isso 
deixa-me indiferente.
	-	Pensa assim neste momento.
	-	Daqui em diante pensarei sempre assim. A ambio custou-me 
demasiado cara para que volte a sacrificar-me a ela.
	Os olhos de Evans enevoaram-se de lgrimas. Estendeu a mo a 
Rose. E com uma emoo que lhe alterava a voz:
	-	Vinga-se bem de mim, minha senhora. At agora duvidei de 
si, confesso. Mas com esse olhar e essa expresso no se mente. Aceite 
as minhas desculpas e perdoe-me.
	Ajovem mulher aproximou-se de Evans e estendendo-lhe a testa:
	-	Quer beijar-me? Gostarei que o faa.
	Evans no precisou que ela lho dissesse duas vezes e abrindo a 
porta que dava para o quarto do amigo, disse:
	-	Desta vez pode alegrar-se, Raynaud, sem pensamentos 
reservados. A Rose que lhe trago  bem sua. Mas, meu amigo, devo 
confessar-lhe que ela  mais fina do que eu: quis faz-la cair numa 
armadilha, mas fui eu que ca nela.
	Rose e Valentin deram as mos... No perguntaram mais nada a 
Evans.
	O sero acabava em casa dos Prvinquires. Maurice lia o jornal. 
Duburle e a Sra. Prvinquires acabavam um jogo de cartas. Rose 
conversava em voz baixa com o pai. O criado entrou e entregou um 
carto ao dono da casa. Prvinquires ps o lornho e leu:
	-	Allard, comissrio da polcia... Oh! Oh! Muito bem!
	Olhou para todos os que ali se encontravam e que o interrogavam 
com o olhar. Depois colocou o carto na bandeja e disse ao criado:
	-	Mande entrar esse senhor para o meu gabinete.
	-	Calculo que seja um mensageiro do seu genro -, disse 
Duburle.
	-	Calcula bem.  o senhor Folentin que se manifesta. Ele 
tinha-me, de resto, prevenido.
	Levantou-se.
	-	 preciso receber esse funcionrio sem demora. Queres
falar-lhe, Rose?
	-	Para qu, meu pai?
	-	Ests realmente decidida a no voltar para casa do teu 
marido?
	-	Depois da galanteria do procedimento dele, menos que nunca.
	-	Reconheo que Folentin procede mal.
	-	 um poltro - declarou a Sra. Prvinquires. - Diga-o da 
minha parte ao representante dele.
	-	Isso no farei eu. Deve-se tratar sempre bem um comissrio 
da Polcia. Ningum imagina os aborrecimentos que essa gente pode 
causar-nos e que servios podero prestar-nos.
	-	No me importarei de assistir ao dilogo entre o pap e 
esse indivduo - disse Maurice.
	-	Ento acompanha-me, mas no abras a boca.
	O comissrio da Polcia Allard era um homenzinho louro, 
prazenteiro, todo vestido de cinzento, como Caraby, e com a insgnia 
da Legio de Honra na lapela. Inclinou-se com um sorriso diante de 
Prvinquires e, aceitando a cadeira que Maurice lhe indicava:
	-	Senhor, a misso que tenho a cumprir no lhe diz respeito, 
mas posso dar-lhe conhecimento dela. Fui encarregado pelo senhor baro 
de Rocher, que soube que a mulher dele se encontrava na vossa casa, o 
que , de resto, de uma correco perfeita, fui encarregado, dizia, de 
pedir  senhora baronesa para voltar para casa, para ali habitar com 
seu esposo, ao abrigo do artigo 214 do Cdigo Civil.
	-	Senhor comissrio - disse Prvinquires - estou encarregado 
por minha filha, a baronesa Folentin, de lhe declarar que, sob nenhum 
pretexto, e por nada deste mundo, ela consentir em acatar as 
exigncias do marido.
	O senhor Allard sorriu e olhando para Prvinquires e para 
Maurice com ar agradvel:
	-	Eis uma declarao precisa que simplifica muito as 
formalidades... No se admiraro, meus senhores, se eu lhes apresentar 
um auto, em que consta a recusa ao meu pedido, para ser assinado. J 
previa, segundo o que me disse o senhor baro, a maneira como a minha 
pretenso seria acolhida... e preparei portanto o instrumento 
judicirio... Quer fazer o favor de pedir  senhora baronesa para 
assinar este documento, para que seja certificado que  de sua livre 
vontade que se encontra no domiclio dos pais?
	Maurice, leva este papel para a tua irm assinar.
	- Eu prprio devia recolher a assinatura da senhora baronesa - 
disse o comissrio com ar galante. - Teria, alm disso, o prazer de 
apresentar os meus respeitos a uma das mais bonitas mulheres de Paris, 
mas estou decidido a pr de lado todos os rigores e a proceder como 
homem de sociedade...
	-	Agradeo-lhe - disse Prvinquires.
	Pegou no papel que Maurice trazia na mo.
	-	Aqui est a assinatura que desejava. Agora eu e o meu filho 
juntaremos as nossas...
	-	E ser tudo. Peo-lhe, senhor, que apresente as minhas 
desculpas  senhora baronesa de Rocher, por a ter incomodado com esta 
pequena formalidade, e creia-me vosso dedicado servidor.
	O homenzinho vestido de cinzento guardou o auto no bolso e 
preparou-se para sair. Mas Maurice disse-lhe:
	-	Senhor comissrio, se no se importa, vamos descer 
juntos... Boa noite, pai.
	- Maurice... - comeou Prvinquires com inquietao.
	-	Nada receie - interrompeu o rapaz, sorrindo. - Sei o que 
fao.
	Inclinou-se para o pai e disse em voz baixa:
	-	O comissrio  bom rapaz!
	Voltou para junto do senhor Allard, e abriu uma caixa de havanos.
	-	Um charuto para o caminho, senhor comissrio?
	-	Muito agradecido!
	-	Ento boa noite, senhor comissrio - disse Prvinquires.
	Voltou a entrar no salo. Maurice e Allard desceram 
tranquilamente a escada e quando chegaram  rua:
	-	Para onde vai? - perguntou Maurice ao comissrio.
	-	Volto para o Comissariado.
	-	Tem pressa?
	-	No.
	-	Ento acompanho-o durante um bocado.
	-	Com prazer. Este charuto  excelente.
	-	Sim.  tabaco que o meu pai manda vir por intermdio dos 
seus correspondentes directamente do pas de origem. No se encontram 
aqui destas marcas.
	-	Ah! No me fale disso - replicou com veemncia o 
comissrio. - A explorao pelo Estado, tal como se pratica em Frana, 
 uma vergonha! Envenena-se o cliente em proveito do oramento. Acha 
que se devia fazer isso?
	-	Se o ministro das Finanas o ouvisse!...
	-	Mas no me ouve. Alm disso,  como consumidor que falo.
	-	L por se ser comissrio, no se deixa de ser cidado.
	-	Exactamente.
	Comearam a rir. Nesse momento passaram diante do edifcio da 
pera, escuro e silencioso.
	-	Hoje  quinta-feira, no h representao - disse o 
comissrio.
	-	Sim,  o dia de descanso da companhia. - Entraram na Rua 
Gluck, seguiram ao longo do passeio e quando chegaram  esquina do 
Boulevard Haussmann, Maurice olhou para o primeiro andar, cujas 
janelas estavam iluminadas. Murmurou:
	-	Deve ser aqui.
	-	O qu? - perguntou o comissrio.
	Maurice parou, e voltando-se para Allard inquiriu:
	-	Quando deve entregar ao meu cunhado o auto que tem no 
bolso?
	-Mas... amanh de manh...
	-	Bem. Quer entregar-lho imediatamente?
	-	Para qu?
	-	Primeiro para se desembaraar dele e depois para me 
agradar...
	-	Mas como?
	-	Acompanhando-me ao primeiro andar desta bela casa.
	-	Ser correcto?
	-	O senhor est comigo. Respondo por tudo.
	-	No v comprometer-me.
	-	Sou incapaz de o fazer, palavra de honra.
	Maurice empurrava j o comissrio para a entrada. Uma escada de 
mrmore, um tapete sumptuoso conduziram-nos ao primeiro andar. Maurice 
tocou e pouco depois uma criada abria a porta.
	-	A senhora est?
	-	Sim, senhor, a senhora est em casa e o senhor baro acaba 
de chegar - disse a criada ao cunhado de Folentin, com um sorriso 
familiar.
	-	Est a ver - disse Maurice ao comissrio, fazendo-o passar 
 sua frente.
	A criada abriu a porta e anunciou simplesmente:
	-	Senhora,  o senhor Maurice.
	Apareceu ento uma jovem alta e morena, muito bonita, que 
estendeu a mo a Maurice, ao mesmo tempo que Folentin se levantava da 
cadeira em que estava sentado, com ar comprometido.
	-	Ah,  voc, Maurice - disse a Ferico com um forte sotaque 
italiano. - Que bons ventos o trazem?
	-	Minha cara, este senhor  que me traz, ou, melhor, eu  que 
o trago a ele. Senhor Allard, comissrio da Polcia - disse o irmo de 
Rose, apresentando o comissrio  bailarina.
	-	Comissrio da Polcia? Cometeu-se algum crime aqui em casa? 
Por que motivo vem aqui o senhor?
	-	Por causa de Folentin. O baro enviou-o a nossa casa h 
pouco. Eu venho retribuir-lhe a gentileza, vindo agora  sua.
	-	O que  que isto significa? - perguntou a bailarina, 
admirada. - Mam, chega aqui.
	-	Oh, no! Oh, no! - resmungou Folentin, prevendo 
explicaes tempestuosas.
	-	Como no? - replicou a bailarina em voz mais alta.
	-	Que se passa? - perguntou uma senhora de idade, 
luxuosamente vestida e cujo queixo e lbio superior estavam cobertos 
de plos escuros. - Chamaste-me, Giulietta?
	-	Sim, mam, est aqui o comissrio da Polcia, que veio por 
causa do baro...
	-	Nada disso - exclamou Folentin lanando olhares furiosos ao 
cunhado. - No se trata de mim. Venha para aqui, senhor, poderemos 
conversar mais tranquilamente...
	Tentava levar o comissrio para o vestbulo.
	-	Fica, Fofol! - gritou imperiosamente Giulietta. - No quero 
nada s escondidas! Que se passa? Que fizeste? Tenho o direito de 
saber tudo!
	-	Tanto como uma esposa! - declarou a velha senhora com 
autoridade.
	-	Ah!  justamente essa a questo - disse Maurice. - O senhor 
comissrio apresentou-se h pouco em casa de meu pai para intimar a 
minha irm, da parte do baro de Rocher, a regressar ao domiclio 
conjugal. Trouxe-o aqui para ficar a saber como o meu cunhado passa o 
seu tempo, ao mesmo tempo que, como terno esposo, manda reclamar a 
mulher. Foi a nossa casa lavrar um auto, talvez queira agora lavrar 
outro?
	-	Sabe, senhor, que me  impossvel fazer isso...
	-	Muito bem! Ento reservamo-nos o direito de o citar, como 
testemunha, perante o tribunal.
	-	O tribunal! - exclamou a bailarina, pondo-se nos bicos dos 
ps, como se fosse comear a danar.
	-	Sim, no decorrer do processo de divrcio que vai comear 
entre a minha irm e Folentin.
	-	Maurice! - gritou o banqueiro, furioso. - H-de pagar-me 
tudo isto!
	O rapaz nem sequer se dignou responder. Voltou-se para a bela 
bailarina e beijando-a em frente de Folentin:
	-	Minha cara Giulietta, h-de fazer-me a justia de 
reconhecer que  das primeiras pessoas a saber dos acontecimentos
que se preparam. E isso apenas com o fim de poder aproveitar a 
informao. Quando Folentin se tiver divorciado, exija-lhe que case 
consigo, minha bela... Ele deve-lhe isso pela sua inexplicvel 
fidelidade... Pois Deus sabe que muitas vezes lhe pedi que o enganasse 
comigo!
	-	Maurice! - protestou Folentin, exasperado.
	-	E no entanto nunca quis. E ele no  nem jovem nem bonito 
nem espirituoso nem generoso nem bem vestido. No tem nada por ele, 
nada!  apenas o marido da minha irm!
	-	Ah! Mas isso  qualquer coisa! - declarou dignamente a me, 
com as suas atitudes de antiga primeira dama. - Sabe, senhor Maurice, 
a estima que temos pela sua irm!
	-	O qu, Fofol - disse a bailarina - zangaste-te com a tua 
mulher? Tentaste arreli-la, enviaste-lhe o comissrio da Polcia? O 
que tu fizeste no  muito chique. Nunca te julguei capaz disso. Ah! 
So coisas de um homem mal-educado!
	-	Deixem-me em paz! Isto  de mais! A sua irm ter notcias 
minhas, Maurice...
	-	E o senhor nossas, Folentin.
	Inclinou-se diante da me de Giulietta, tocou com uma mo 
acariciadora nos ombros da bailarina, e num tom jovial:
	-	Mais uma vez lhes peo desculpa, minhas senhoras, por vir 
interromper o vosso sero. Mas no foi intil. Boa noite.
	Saiu com o comissrio da Polcia, ainda mal refeito da surpresa. 
Desceu a escada sumptuosa e quando chegou  Rua Gluck comeou a rir:
	-	Ento, senhor Allard, como a acha?
	-	 da amante do baro de Rocher que est a falar?  bem 
bonita!
	-	E ajuizada, entenda, ajuizada!
	-	O senhor baro tinha demasiada sorte!... Uma mulher 
legtima e uma amiguinha to notavelmente encantadoras... No podia 
deixar de lhe suceder uma infelicidade.
	-	A  que se engana. At agora nada lhe sucedeu, mas no se 
sabe quanto ao futuro. Bem, agradeo a sua complacncia e desejo-lhe 
uma boa noite.
	-	Muito obrigado, mas peo-lhe que no conte o nosso passeio 
de hoje, embora tenha sido interessante. Se a histria aparecesse nos 
jornais poderia prejudicar-me na Prefeitura.
	Maurice apertou a mo de Allard e voltou para casa.



Captulo dcimo segundo

	Tinham decorrido dois anos desde a noite em que Maurice e o 
senhor Allard tinham ido visitar Folentin  casa da Rua Gluck. Rose 
partira com o irmo, logo no incio do processo do divrcio, para se 
ir encontrar com Evans e Raynaud, na Amrica. Instalada em Chiquito, 
numa cottage  beira do rio, vivera durante um ano, muito calma, muito 
feliz. Assistia, com interesse, aos louvveis esforos de Maurice para 
se pr ao corrente dos negcios, ocupava os seus dias a trabalhar e a 
ler, e passava o sero em companhia dos amigos. O grande movimento 
operrio que se dava em torno dela, o sbito ardor de Maurice em 
secundar Evans e Raynaud nos seus mltiplos empreendimentos, toda essa 
actividade febril e inteligente a apaixonava. Gostava que lhe 
explicassem as tentativas feitas, os resultados obtidos e apreciava 
esse espectculo grandioso da batalha industrial, como uma verdadeira 
diletante.
	Os dias tinham passado rpidos como horas. E era com espanto que 
Rose se lembrava por vezes do aborrecimento triste dos seus dias 
desocupados, do tempo em que ela era triunfante e invejada. Dizia para 
consigo: eles continuam a viver assim, os meus antigos companheiros, 
os meus amigos de outrora, na sua Paris decorativa e fictcia. Os 
infelizes! E inclinava-se na janela da sacada, vendo, sob a verdura e 
as lianas, a corrente cor de ouro do Chiquito, que corria para o mar, 
e aspirava deliciosamente o vento perfumado das pradarias. Ao fim de 
um ano, Evans fora certa vez fazer-lhe uma visita de manh, 
contrariamente ao que era habitual, e dissera-lhe gravemente:
	-	Minha cara senhora, venho da parte do meu amigo Raynaud 
perguntar-lhe se consente em ser mulher dele. Ns escrevemos j a seus 
pais a pedir-lhes o seu consentimento. Esse consentimento chegou no 
correio de ontem  noite. Agora resta apenas obter o seu acordo.
	-	Ficaria muito surpreendido, meu caro Evans, se eu lhe 
respondesse que no. Vim instalar-me aqui na Amrica, junto de vocs, 
o que foi verdadeiramente cortar todos os laos com o passado. No 
sabia realmente se a vida que viria ter aqui me agradaria. Garanto-lhe 
agora que no conheo outra mais encantadora e mais doce. Pergunta-me 
se quero que ela continue sempre? Sim, desejo-o de todo o meu corao!
	-	Bem, vou levar a sua resposta a Raynaud e farei cumprir as 
formalidades necessrias, e se consentir, o casamento ser celebrado 
aqui, em Chiquito.
	-	Pudssemos ns aqui permanecer sempre.
	-	Oh, minha cara amiga, tenho de a desenganar prontamente. 
Ser impossvel a Raynaud ficar sempre aqui.  preciso que um de ns 
dois se instale em Nova Iorque, onde devemos ter uma representao 
importante. Como no sou eu, velho solteiro, que poderei fazer as 
honras da Evans, Raynaud e Companhia., tero de ser a Rose e o seu 
marido. Para esse efeito comprmos o palcio Browesther, na Quinta 
Avenida, que mandmos arranjar de modo a que v encontrar tudo 
convenientemente.
	-	Mas Browesther...  uma das grandes fortunas da Amrica.
	-	Era. Houve algumas dificuldades, este ano, com os 
cereais... Tiveram de fazer restries. O palcio, situado em frente 
do Astria, pertence-nos. Ir habit-lo para o ms que vem. Ver que 
voltar a ser ali a conquistadora de outrora.
	Rose corou e olhou para o que a rodeava.
	-	Farei o que desejarem. Sinto-me muito feliz por poder 
agradar-lhes. Mas terei pena, no meio do luxo que me preparam, da 
fresca e encantadora simplicidade desta casa.
	O americano teve um gesto de orgulho:
	-	Oh! A mulher de Valentin Raynaud deve estar instalada de 
modo diferente do da baronesa Folentin...
	Evans calou-se, receando ter magoado Rose.
	-	Desculpe, mas o nosso estatuto social exige grande aparato. 
Ns temos uma bandeira,  preciso que ela seja erguida muito alto, 
para que se veja de longe. Isso faz parte dos nossos negcios e a Rose 
ser a encarregada de representar a nossa casa. Ter o departamento 
das despesas. Ns estaremos l para pagar.
	-	Vejo - disse Rose com uma certa melancolia - que no se 
pode escapar ao nosso destino. Vim decididamente ao mundo para 
espalhar dinheiro s mos-cheias. Fi-lo outrora por prazer, agora f-
lo-ei por dever.
	-	F-lo-, em todo o caso, com um gosto perfeito e uma 
elegncia superior. E isso  o importante.

	No seu palcio da Quinta Avenida, Rose acabava de tomar o 
pequeno-almoo na companhia do marido, quando a porta da sala de 
jantar se abriu e Maurice entrou, em traje de viagem. A jovem senhora 
levantou-se com vivacidade para ir abraar o irmo. Raynaud indicou-
lhe o talher que o esperava, preparado.
	-	Contvamos consigo.
	-	Agradeo, mas comi no comboio.
	-	Evans no chegou?
	-	Sim, mas de passagem entrou no Banco Internacional para l 
depositar valores.
	-	Vendeu as aces?
	-	Sim, em alta. Sete milhes de dlares... Comprou, pela 
mesma quantia, aces da Transcontinental... Na prxima assembleia 
teremos a maioria. Precisamos de obter concesses que nos sero 
uteis...
	-	E o petrleo?
	-	O petrleo! Bem, perfurmos trs novos poos... O
comboio-cisterna j no chega... Vai ser necessrio encomendar 
outro...
	-	Ns prprios o fabricaremos. O negcio com a Pulmann est 
concludo.
	-	Bravo!
	Maurice tomou uns ares importantes, remexeu no bolso do casaco e 
tirou de l um pequeno embrulho que colocou sobre a mesa em frente da 
irm:
	-	Minha querida, eis um tributo que a companhia mineira 
oferece  senhora Raynaud, como a uma soberana...
	Rose abriu o embrulho, e diante dos dois homens sorridentes 
descobriu uma mo-cheia de rubis dos mais perfeitos que j vira 
reunidos. Tinham o tamanho de gros de nilho, de um vermelho de 
sangue, absolutamente iguais e com o mesmo peso.
	-	Oh! Que maravilha! - exclamou Rose.
	-	No existiro outros iguais no mundo. So absolutamente 
nicos. Hormestem, de So Francisco, que viu estes rubis, no ousou 
avali-los em bloco... Diz que, vendendo-os separadamente, se obteriam 
milhes.
	-	Que devo fazer destas pedras? - perguntou Rose com 
confuso.
	-	Vai mand-los montar, minha querida, e us-los- para ser 
agradvel a Evans e a mim.
	Uma sombra passou pelo rosto de Rose. Sempre que o marido tinha 
uma dessas prodigalidades habituais, a recordao do pequeno jardim da 
fbrica de Beaumont ocorria ao seu esprito, e com uma amargura sempre 
viva comparava o comportamento de Raynaud com o seu. Que vingana, a 
do antigo director da fbrica de seu pai! E continuava a vingar-se 
devido  sua superioridade e sem mostrar o mnimo orgulho. Rose olhou 
esse homem bom e inteligente de uma certa maneira, que tinha o condo 
de o comover particularmente. Recordavam-se assim, com um s olhar, de 
todo um passado de tristezas e de erros, com a alegria profunda de 
terem reparado esses erros e dissipado as tristezas. Raynaud estendeu 
a mo, sorrindo. Rose colocou ali a sua. Ele acariciou-a meigamente 
com os lbios. No mesmo instante a porta abriu-se e Evans entrou.
	-	Ah! Est a ver essas pedrinhas! - disse, beijando a testa 
de Rose. - Tm a pretenso de fabricar quimicamente pedras parecidas 
com essas... Por infelicidade, fazem-nas to perfeitas que se 
reconhecem pela sua prpria perfeio... Estas so belas, no  
verdade? Mas  uma bagatela... Meus amigos, tenho uma novidade 
extraordinria para lhes dar... O marqus de Condottier encontra-se em 
Nova Iorque.
	-	Ah! - exclamou Rose com uma careta de descontentamento. - 
Que vem ele c fazer?
	-	Soube-o ao mesmo tempo...
	-	Onde? - quis saber Maurice.
	-	No gabinete de Standish, o director do Banco Internacional. 
Acabava de lhe entregar os valores e esperava pelo recibo, quando ele 
me disse: "A propsito, pergunte a Raynaud se conhece um gentleman 
francs que aqui est neste momento e que se chama Condottier. 
Gostaramos de ter informaes sobre ele..." - "Porqu?" perguntei. 
"Por causa de um casamento. Esse brilhante cavalheiro tem cortejado a 
filha de Green, da casa Sparklet & Green. Agradou e pede para casar. 
Mas Green, como sabe, so cem milhes de dlares. Queria saber o que 
vale, por seu lado, esse marqus de Condottier."
	-	Respondi que o conhecia, mas que Raynaud o conhecia ainda 
melhor e Standish pediu-me ento que falasse com Green. No lhe 
escondo que a resposta que ser dada a Condottier depender das 
informaes que voc der dele. Agora j sabe, basta-lhe apertar 
ligeiramente a mo para estragar o casamento do marqus de Condottier.
	Houve um silncio. Cada um pensava para si. Ao fim de um 
instante, Raynaud disse:
	-	Ficaria verdadeiramente desolado se fizesse mal a 
Condottier. Mas tambm no gostaria de o fazer a Miss Green.
	-	Meu caro - disse Maurice -, no se preocupe com Miss Green. 
Ela precisa de um como o marqus. Se no for ele ser outro qualquer. 
Quer ser grande dama em Paris.
O que desejam verdadeiramente saber  se Condottier  da alta roda.
	-	Vou ser obrigado a avaliz-lo? - disse com bom humor 
Raynaud.
	Rose fez um gesto e todos os olhares se voltaram para ela. Ento, 
com uma graa coquette e altiva que fazia lembrar a conquistadora de 
outrora, disse ao marido:
	-	Guardou-lhe rancor? Eu acho que me considero devedora dele. 
 a primeira vez que falamos dele, h dois anos, e h muitas 
probabilidades de no voltarmos a falar no futuro. No esqueamos, no 
entanto, que ele foi afinal, embora sem o querer, o agente da nossa 
felicidade. Vs outros, sbios, chamam reactor  substncia que 
determina a transformao dos corpos. Muito bem, Condottier foi, em 
relao a ns, um reactor irresistvel. Foi ele que determinou os 
acontecimentos que me levaram a compreender que seguira por mau 
caminho e a reencontrar o bom caminho. Poderamos ter pago caro essa 
experincia... Eu arrisquei-me  infelicidade, e Valentin arriscou-se 
a morrer... Afinal conseguimos sair dessa experincia com um mnimo 
daquilo que podamos recear...
	-	E, sejamos justos e reconhecidos - interrompeu Raynaud - 
com o mximo que podamos esperar. A soma do bem ultrapassa largamente 
a do mal. Devemos portanto alegrar-nos e, como diz Rose, no guardar 
rancor a Condottier. . Minha querida, acha que ele a amava 
verdadeiramente?
	Rose abanou a cabea:
	-	No sei bem. Parecia. Mas existem, no mundo, comediantes 
to perfeitos! O que  certo  que ele odiava...
	-	Folentin! - concluiu Maurice vendo a irm hesitar em 
pronunciar esse nome.
	-	Sim, com todas as suas foras. O que ele queria sobretudo 
era vingar-se dele.
	-	E conseguiu! O brilhante baro de Rocher desapareceu. Dele 
resta apenas um plido Fofol, que vive entre uma bailarina avarenta, 
que remenda os seus trajes de ballet, e a me da dita, uma mulher de 
barba, enfeitada com um quilo de jias falsas!...
-	Requiescat in pace!
	-	Bem, Evans, diga a Standish que pode dirigir-se a mim para 
lhe dar informaes sobre o marqus de Condottier...
	-	Excelente - respondeu Evans. - Far coincidir a altura do 
casamento com uma deslocao a Frana, pois talvez fosse muito
pedir-lhe que estivesse presente na cerimnia.
	-	Tanto mais - lembrou Maurice, rindo - que lhe seria preciso 
enviar um pequeno presente...
	-	Oh, tenho numa gaveta um pedao de chumbo que Condottier me 
ofereceu, certa manh... Bastava-me mand-lo rodear de diamantes... 
Seria uma curiosa recordao...
	-	No, guarde-o - pediu Rose -, pois foi justamente esse 
pedacinho de chumbo que, no momento em que o nosso destino era 
incerto, fez pender a balana para o lado bom.

Fim
